É esse estado de prontidão permanente, alimentado por uma rotina acelerada, que dificulta pegar no sono 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Insônia — Foto: Freepik Nunca o sono foi levado tão a sério e, ainda assim, ele parece cada vez mais difícil de chegar. Durante décadas, o sono ficou de fora das conversas sobre prevenção. Hoje, aparece nos documentos das principais entidades científicas do mundo, ao lado da alimentação e da atividade física. Tanto que, em 2023, um grupo internacional de especialistas publicou na Lancet Public Health um chamado para que fosse promovido como pilar essencial da saúde. Há algo de curioso nisso, entretanto: nossa forma de viver não acompanhou essa mudança. Se o sono é essencial para a boa saúde, o que deveríamos estar vendo é uma sociedade mais descansada. O que encontramos é o contrário: à medida que o sono se firma como hábito de saúde, cresce o número de pessoas que gostariam de dormir mais e não conseguem, e cresce o mercado de soluções para o sono, que inclui todo tipo de suplemento, wearables e, claro, remédios. Se temos a ciência para apoiar as recomendações de que as pessoas invistam em uma boa noite de sono, ao mesmo tempo vivemos em uma cultura que comprimiu o tempo de descanso entre jornadas longuíssimas de trabalho. Some-se a isso o excesso de telas e a enxurrada de estímulos a que somos expostos diariamente, que dificultam o desligar do cérebro à noite. Porém, o problema vai além desse excesso de estímulos. Nossa sociedade é ansiosa e estressada, e, sob estresse crônico, o sistema nervoso permanece em alerta. É esse estado de prontidão permanente, alimentado por uma rotina acelerada, que dificulta pegar no sono. Para nos “desligarmos”, o corpo precisa entender que pode baixar a guarda. Esse talvez seja um dos fatores que expliquem a explosão do uso de remédios para dormir. Em 2025, uma diretriz da Academia Brasileira de Neurologia classificou o consumo crescente das chamadas drogas Z como problema de saúde pública. Segundo o documento, a venda de uma dessas drogas, bastante conhecida, registrada no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados, cresceu 139% entre 2014 e 2021. Estimativas da Anvisa indicam que o consumo saltou de 13,1 milhões de caixas em 2018 para quase 22 milhões em 2023. O crescimento foi tamanho que, em 2024, a própria Anvisa endureceu as regras de prescrição desses remédios, passando a exigir receita azul para todas as apresentações e ao uso de, no máximo, por quatro semanas. Os especialistas reconhecem que essa medida foi a única, até aqui, que conseguiu de alguma forma frear o avanço. O uso prolongado desses remédios aumenta o risco de tolerância (é preciso de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito), de dependência e também de abstinência. Gostaria de destacar que os hipnóticos têm um papel importante na prática clínica. Quando bem indicados, podem aliviar um sofrimento imenso e fazer parte do tratamento da insônia. O problema é quando passam a responder a uma demanda produzida por um modo de vida que nos acelera e que associa descanso a improdutividade. Há uma diferença fundamental entre tratar a insônia e tratar uma sociedade que não consegue descansar. A insônia é uma condição clínica que merece todo cuidado. Já a segunda talvez seja um dos grandes desafios do nosso tempo. A crescente busca por esse tipo de remédio revela não só que milhões de pessoas estão enfrentando dificuldade para dormir, mas também expõe uma cultura que recorre ao comprimido, uma solução rápida e individual, em vez de enfrentar as condições que roubam o nosso sono — um mecanismo biológico de restauração. Com as condições e o ambiente certos, na maior parte das vezes, ele vem. Talvez o que precisemos, antes de qualquer remédio, seja reaprender a dar ao corpo o tempo e o sossego que ele precisa para descansar.