Temos o rubro-negro no alto da montanha econômica. O Palmeiras é o alpinista raçudo que todo ano renova o oxigênio para chegar ao cume. No acampamento-base está o Cruzeiro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Bap e Leila, presidentes de Flamengo e Palmeiras, respectivamente — Foto: Gabriel de Paiva e Edilson Dantas Esta semana, o Palmeiras anunciou a venda de Allan para o Manchester City. Financeiramente foi um ótimo negócio. O time brasileiro pode embolsar até 40 milhões de euros — cerca de R$ 240 milhões — por um jogador formado na base do time. Esportivamente, um titular foi embora no meio de três competições. A venda sinaliza a distância que existe no futebol brasileiro. Temos o Flamengo no alto da montanha econômica. O Palmeiras é o alpinista raçudo que todo ano renova o oxigênio para chegar ao cume ou perto dele. No acampamento-base está o Cruzeiro, movido a dono mecenas, planejando um ataque ao pico. De 2022 a 2025, de acordo com os balanços dos clubes, o Flamengo investiu mais de R$ 1,64 bilhão em direitos de atletas. E vendeu perto de R$ 1,12 bi. Ou seja — pôs 519 milhões líquidos no mercado. O Palmeiras caminhou na mão contrária: vendeu aproximadamente R$ 1,4 bilhão e gastou R$ 1,26 bilhão no mesmo período. Ou seja, tirou cerca de R$ 140 milhões líquidos desse mesmo mercado. Traduzindo: a cada ano, o Palmeiras sua para se manter no jogo. Há quanto tempo o Flamengo não vende um jogador titular do time contra a vontade da diretoria? Sim, tivemos Gerson em 2025. Mas ele saiu pelo valor da cláusula de rescisão e muito graças aos talentos do atleta Marcão, pai do jogador, craque na arte de revenda e fanfarra. Afora isso, o rubro-negro se tornou um time que raramente vende quem pretende manter. Imagine se o Palmeiras atual tivesse Danilo (vendido em 2023), Endrick (vendido em 2024), Richard Ríos e Estêvão (vendidos em 2025)? Indo além — se o Flamengo revelasse um Vinicius Junior hoje... ele seria vendido aos 18 anos? Uma das estratégias rubro-negras no início das vacas gordas foi vender bem promessas. Depois que Paquetá e Vini Jr. vingaram, o clube ganhou prestígio e faturou alto com jogadores que deram errado lá fora (Reinier e Matheus França). Mais recentemente, porém, o Fla só exportou dois jogadores titulares egressos da base (João Gomes e Wesley). E mesmo assim não parou de trazer jogadores de alto nível. Os números citados ali em cima não incluem 2026 — em que o Flamengo investiu alto para comprar Paquetá (R$ 260 milhões) e tentou trazer Almada e Luiz Henrique. Chegou a ficar perto de ambos. No caso de Luiz Henrique, o presidente Luiz Eduardo Baptista segurou a onda quando o pedido russo soou acima do razoável. Na mesma semana, o endividado Corinthians renovou com Memphis Depay. Ali tivemos um microcosmo do fosso que separa os dois times mais populares do Brasil. O Flamengo escolheu não pagar Luiz Henrique com dinheiro que tinha. O Corinthians resolveu pagar Memphis com dinheiro que não tem. O Palmeiras andou comprando muito também. Trouxe Arias, trouxe Victor Roque, havia trazido antes Andreas Pereira. Mas, ao contrário do rival, ele precisa vender muito para reciclar talento. Há inegável mérito na gestão palmeirense em se manter competitivo nesse cenário. Quão sustentável é essa estratégia? Será que alguém pode entrar nesse clube? No presente, o único candidato parece ser a SAF do Cruzeiro, movida pelo apetite de Pedrinho BH. Ele segurou Kaio Jorge (que o Fla tentou comprar), fez um contrato longo com um treinador caro (Artur Jorge), gastou firme em Gerson e investiu em jovens promissores (Arroyo, Wesley, ex-Corinthians). Ataque ao cume? Em 2027 saberemos.