Presidente dos EUA quer permitir que pecuaristas processem a própria produção; quatro companhias compram cerca de 85% do gado nos EUA 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Placa da JBS na Bolsa de Nova York (NYSE) — Foto: Michael Nagle/Bloomberg O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta sexta-feira que pretende permitir que agricultores e pecuaristas processem a própria produção, em uma nova ofensiva contra o monopólio do setor de carne bovina no país. Entre as quatro empresas que dominam esse mercado estão duas brasileiras: a JBS e a National Beef, controlada pela MBRF. Trump disse nas redes sociais que autorizou a elaboração de documentos jurídicos para “quebrar esse poderoso monopólio” entre os frigoríficos. O presidente dos EUA, no entanto, não detalhou quais mudanças pretende promover. Também não está claro se ele tem autoridade para alterar essas regras nem qual seria o efeito prático da medida. “Estou autorizando a elaboração de documentos jurídicos para permitir que agricultores e pecuaristas tenham o direito de PROCESSAR SEUS PRÓPRIOS ALIMENTOS. Isso deve avançar rapidamente”, publicou Trump na Truth Social. Cerca de 85% do gado dos Estados Unidos é comprado por apenas quatro companhias, segundo o Departamento de Agricultura americano. Tyson Foods, Cargill, JBS e National Beef dominam o mercado. As duas últimas têm ligação com o Brasil: a JBS é uma empresa brasileira, enquanto a National Beef pertence à MBRF. A MBRF não quis comentar. JBS, Tyson e Cargill não responderam a pedidos de posicionamento. A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, afirmou que novos anúncios seriam feitos na segunda-feira, incluindo planos para “eliminar a burocracia no processamento” e “ampliar a capacidade dos pecuaristas de vender entre estados”. O anúncio ocorre depois de Trump ter assinado, no início desta semana, uma ordem para reduzir tarifas sobre as importações de carne moída. A medida provocou reação negativa de alguns pecuaristas e republicanos, que afirmaram que ela prejudicaria a indústria doméstica. A declaração também foi feita poucos dias depois de o presidente ter sido pressionado por uma personalidade da mídia conservadora a mudar as regulamentações federais sobre o processamento de carne bovina. Trump tem buscado formas de reduzir o preço da carne bovina, enquanto o custo de vida domina as preocupações dos eleitores antes das eleições de meio de mandato. Entre as medidas está o aumento das importações. A Associação Nacional de Criadores de Gado de Corte criticou as iniciativas do governo americano: “Somente na última semana, os produtores de gado enfrentaram uma intervenção do governo destinada a aumentar as importações de carne bovina estrangeira”, afirmou a entidade em comunicado. “Agora, deparamo-nos com outra proposta destinada a mudar a forma como a carne bovina é processada. A constante interferência do governo gera incerteza para os produtores que tomam decisões de longo prazo sobre seus negócios e o futuro do rebanho bovino.” O Departamento de Justiça dos EUA já conduz uma investigação antitruste sobre o setor frigorífico, em meio à disparada dos preços da carne bovina para níveis recordes. O Departamento de Agricultura também tenta estimular a concorrência e, no início deste verão, comprometeu-se a destinar até US$ 500 milhões para ajudar frigoríficos de médio porte a enfrentar os preços elevados do gado. O Meat Institute, que representa os frigoríficos do país, afirmou que a ampliação das possibilidades de processamento não deve ocorrer em detrimento da segurança dos alimentos. “Os agricultores e pecuaristas americanos já dispõem de diversas alternativas para processar e comercializar os animais que criam”, afirmou a entidade em comunicado. “Permitir que carne não inspecionada seja vendida a consumidores desavisados é a abordagem errada e corre o risco de prejudicar a reputação deste país de produzir os produtos de carne mais seguros do mundo.” O instituto afirmou que aguarda mais detalhes do governo americano, mas acrescentou que a melhor maneira de reduzir os preços da carne bovina é ampliar o rebanho do país e aumentar a oferta. A escassez de gado elevou os preços da carne bovina e, ao mesmo tempo, prejudicou as margens dos frigoríficos. Os volumes de vendas também estão diminuindo, enquanto os americanos dão sinais de que chegaram ao limite após dois anos de forte alta nos preços da carne. Trump anunciou pela primeira vez seus planos de conceder o alívio tarifário em 21 de agosto, quando afirmou que os Estados Unidos permitiriam a entrada no país de até 300 mil toneladas de carne moída sem a cobrança das tarifas aplicadas às importações que ultrapassam determinada cota. Seu governo também passou a mirar a indústria de fertilizantes, na qual apenas algumas empresas controlam a oferta nos Estados Unidos, além do mercado de sementes, depois que os preços dos insumos agrícolas dispararam, em parte, por causa da guerra no Irã.