Pela primeira vez este ano o tracking de crescimento do PIB chinês da consultoria BRCG está indicando um número abaixo da meta oficial do governo do país, entre 4,5% e 5%. O tracking com os dados de junho aponta crescimento de 4,4% em 2026 e 4,3-4,2% em 2027.PUBLICIDADE"Estamos preocupados há uns quatro, cinco meses com sinais de desaceleração mais acentuada de demanda que a economia chinesa enfrenta", diz Livio Ribeiro, sócio-fundador da BRCG.Ele nota que o governo chinês não tem como controlar a parte externa da demanda, e o país até conseguiu fazer um bom trabalho de diversificação diante da primeira rodada de guerra comercial de Donald Trump."Agora, porém, os problemas [na demanda externa] estão se empilhando", aponta Ribeiro. Entre fatores afetando a economia mundial, ele cita os conflitos longe de resolução na Ucrânia e no Oriente Médio, com aumento de combustíveis, commodities e fretes.Na visão do economista, a demanda mundial começa a sentir o peso da instabilidade e, em particular no Sudeste asiático, o conflito no Oriente Médio tem complicado o fornecimento de petróleo e combustíveis.PublicidadeJá internamente na China, depois de um primeiro trimestre forte, os sinais a partir de abril, para Ribeiro, indicam uma trajetória "ladeira abaixo", com os dados de julho reforçando a fraqueza da economia.Ele explica que as famílias chinesas estão "defensivas" em termos financeiros, com sua taxa de poupança tendo superado 35% da renda disponível, o que é o pico da série histórica. Os preços dos imóveis residenciais persistem na trajetória de queda que já tem cerca de seis anos. A taxa de desemprego de jovens tem acelerado e se aproxima de 18%.Em termos de dados de alta frequência, Ribeiro relata que sinais de desaceleração mais persistente aparecem nas vendas reais no varejo, nos serviços e nos investimentos, com efeitos começando a chegar à produção."É uma economia que está murchando", ele avalia.Segundo o economista, o governo chinês persiste em não estimular a demanda interna de forma mais ampla, para além de medidas pontuais e insuficientes, apesar do diagnóstico simples e disseminado de que este é o grande problema econômico do país.PublicidadeA maior interrogação, para Ribeiro, são as razões para essa omissão do governo chinês. Uma hipótese é de que os líderes do país tenham "dificuldade em entender os problemas pelo lado da demanda, assim como o governo brasileiro tem dificuldade de entender o lado da oferta".PUBLICIDADEOutra possibilidade é de que existam restrições institucionais às políticas de apoio à demanda. Os governos regionais estão com problemas sérios de geração de caixa em função do colapso imobiliário, o que restringe o uso expansionista dos recursos repassados pelo governo central."Esses governos estão extremamente seletivos em relação aos projetos", assinala Ribeiro. Ele cita um instrumento parafiscal anunciado em março, no qual os governos locais aplicam para receber financiamento voltado a obras de infraestrutura. Do montante oferecido este ano, equivalente a cerca de US$ 120 bilhões, a captação até agosto foi de "virtualmente zero".Para o economista, a desaceleração mais forte da economia chinesa este ano é uma história bem menos no foco atual do que outras fragilidades da economia global, como as relacionadas aos Estados Unidos e ao Japão."A China pode trazer mais confusão num ambiente global já bastante conturbado", conclui Ribeiro.PublicidadeFernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/8/2026, quarta-feira.Vale ler tambémO Brasil se aproxima do topo do comércio agrícola mundial Consultoria Galeazzi vê risco de piora no quadro das empresasTrês Poderes em campanha: vale-tudo tenta resguardar Supremo contra um Senado mais à direita em 2027
Opinião | Os riscos da desaceleração chinesa
Segundo especialista Livio Ribeiro, governo chinês persiste em não estimular a demanda interna de forma mais ampla, para além de medidas pontuais e insuficientes.










