Setor externo sustenta economia diante da fraqueza do consumo e queda de investimentos — Foto: REUTERS/Go Nakamura A China cresceu 4,3% no segundo trimestre do ano, a pior performance em décadas, com exceção dos três anos em que foi assolada pela covid-19. Visto isoladamente o número não é ruim, é o dobro da expansão dos países desenvolvidos e está dentro da média prevista para os países emergentes em 2026. Mas pela ótica da liderança de Pequim, que prevê algo em torno de 5% como meta, o dado revela desequilíbrios e paradoxos do modelo chinês. O consumo em um dos maiores mercados domésticos do mundo está fraco. Ao mesmo tempo, as exportações batem recorde atrás de recorde em meio à intensa guerra comercial contra o país desencadeada pelos Estados Unidos. A performance do segundo trimestre dá um retrato fiel dos dilemas. A extraordinária taxa de investimento do país, uma das maiores do mundo, caiu pelo terceiro mês consecutivo e recuou 5,7% nos primeiros seis meses do ano, em relação ao mesmo período de 2025. A produção industrial, no entanto, cresceu 5,3%, um bom ímpeto diante de vendas no varejo anêmicas, que avançaram apenas 1% na comparação interanual. A mudança na composição dos investimentos revela rumos que a economia e seus planejadores seguem. O estouro da bolha do setor imobiliário, que representava algo como 25% do PIB chinês em 2021, detonou uma crise de confiança no consumidor chinês que ainda não foi debelada. Os imóveis são uma das principais formas de poupança das famílias e a crise forçou-as a serem mais precavidas do que antes, o que não é pouco. A taxa de poupança chinesa oscila em torno de 40% (a do Brasil é 16,3% do PIB). Para relançar o consumo, o governo de Xi Jinping, apesar da propaganda, não decretou nenhum pacote de incentivos à altura do desafio, mas paliativos, como um programa de troca de produtos eletrodomésticos com incentivos e outras iniciativas que consumiram 0,4% do PIB (Oxford Economics). A troca dos motores da economia chinesa, de investimentos e exportações por consumo com aumento da renda doméstica, foi prometida há uma década, mas ainda não cruzou um limiar definitivo. Ela pode estar sendo adiada, ou suplantada por outros objetivos da cúpula do governo, que parece mais empenhada na modernização industrial com base nos setores de fronteira da tecnologia e na busca da primazia no desenvolvimento da Inteligência Artificial, em uma disputa pela hegemonia global com os EUA. O papel do setor imobiliário foi substituído pelas exportações, que são válvula de escape para vários problemas internos. Os investimentos caíram em parte porque há excesso de capacidade produtiva em vários setores da economia, mas uma parte foi deslocada para áreas chaves da tecnologia. O avanço brutal das vendas externas, mesmo sob ataque frontal do protecionismo americano, escoa a superprodução doméstica a preços tão competitivos que, em vários setores, as tarifas majoradas não o prejudica. Em junho as exportações da China cresceram 27%, depois de subirem 19,4% em maio. No primeiro semestre, o superávit comercial atingiu US$ 576 bilhões. Em 2025, o país teve um recorde positivo na balança de US$ 1,1 trilhão. As exportações movem pelo menos um terço do crescimento da economia chinesa hoje, como o boom imobiliário no início da década. A consultoria Oxford Economics aponta que vários ventos favoráveis tornaram a escalada exportadora chinesa ainda mais impressionante. O menor crescimento da renda global tornou os compradores mais sensíveis a preços e os dos chineses, em várias categorias, são imbatíveis. O choque de energia, potencializado pela guerra no Oriente Médio, fez os mercados compradores buscarem produtos verdes, e a China domina a produção de vários deles: baterias, carros elétricos etc. Por fim, a corrida pela IA ampliou o papel chinês nas cadeias de produção regionais asiáticas. Os problemas domésticos não foram embora com isso. Há grande endividamento geral, como o déficit fiscal de 130% do PIB (o triplo de há dez anos) que, somado ao déficit privado, atinge 250% do PIB. Além disso, há demanda muito fraca por crédito, superprodução, baixa lucratividade das empresas, tendência à deflação e outros sinais. Mas a expansão chinesa tenderia mesmo a diminuir à medida que o país ultrapassou a armadilha da renda média e se consolidou como a segunda maior economia do mundo. De maneira relativa, um crescimento na faixa de 3% a 4% ainda é mais forte, com o PIB atual de US$ 23 trilhões, do que um ritmo de 10% no início do século, com um PIB de US$ 1 trilhão. A China é o principal parceiro comercial do Brasil, as exportações para o país asiático no primeiro semestre deste ano cresceram 22%, para US$ 58,3 bilhões, um recorde. A desaceleração da China não é tão preocupante para o Brasil no curto prazo, embora a desova de bens chineses no Mercosul esteja desalojando a produção doméstica na região. Mais impactantes podem ser os planos de Pequim de buscar a autossuficiência alimentar possível e reduzir seu déficit de US$ 124 bilhões na balança agrícola. Isso implicaria comprar menos carne e soja, que, ao lado de petróleo e minério, compõem quase a totalidade das exportações brasileiras. No caso da soja, os embarques poderiam cair 36% em 15 anos.