Atualmente lotado na Presidência, Swedenberger Barbosa recebeu de Roberta Luchsinger pintura de artista que também assina obra dada a chefe de gabinete de Lula 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A lobista Roberta Luchsinger, investigada por suspeita de participação no esquema de fraudes do INSS — Foto: Reprodução Instagram A lobista Roberta Luchsinger, personagem central das investigações que rondam Fábio Luís da Silva, o Lulinha, presenteou no fim de 2024 o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa, com uma obra de arte pouco após o aniversário de 67 anos dele. Segundo a Polícia Federal (PF), Roberta e o filho primogênito do presidente Lula fizeram lobby junto a Berge, como é conhecido no PT, na tentativa de viabilizar negócios como um contrato de R$ 626 milhões com uma empresa de Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Hoje Berge é chefe de gabinete adjunto de Lula, e até julho era subordinado a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que segundo as apurações também teria recebido um quadro de presente de Roberta. As mensagens em posse dos investigadores da PF a que a equipe da coluna teve acesso colocam Roberta como peça-chave do lobby pelos interesses do Careca do INSS ao lado de Lulinha. No dia 19 de dezembro de 2024, ao ser cobrada por Marcola – “E meu quadro?” –, Roberta responde: “Vai na semana que vem. Berger indo hoje. Tá colocando moldura. Ontem fui lá”. Em seguida, envia uma foto de uma tela do pintor mineiro Antonio Veronese. “Ela vai fazer a troca de moldura. Algo assim. E preparar a documentação porque esse quadro estava no Carrossel do Louvre”, escreveu a lobista. “Que legal!!”, responde Marcola. Roberta envia então um áudio. “É lindo o quadro, maravilhoso”, diz a lobista, que se esforça para valorizar o presente e impressionar. “Esse quadro vale 100 mil euros”. No dia seguinte, 20 de dezembro, Berge manda uma foto do quadro já emoldurado para a lobista acompanhada de emojis de palmas e um coração. Roberta então encaminha links com notícias e informações sobre o autor da obra, também Veronese. “Excepcional!!! Muuuito obrigado”, responde Berge novamente com emojis expressando gratidão. Na sequência, Roberta sugere promover um encontro entre o secretário-executivo e Veronese, proposta com a qual o petista demonstrou entusiasmo. “Maravilha, grande honra!”, respondeu. A relação de benesses entre o auxiliar de Lula e a lobista aproxima ainda mais o caso Lulinha do Palácio do Planalto após a revelação de que o então chefe de gabinete do presidente, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, também recebeu presentes de Roberta como joias e teve despesas como faturas de cartão de crédito e até o financiamento de um carro pagas por ela. Naquele momento, Berge estava em posição-chave para o negócio que Roberta e o Careca do INSS pretendiam emplacar no Ministério da Saúde, a venda de 1,2 milhão de frascos de medicamentos à base de canabidiol pela World Cannabis para o governo federal. As mensagens mostram que uma minuta de contrato chegou a ser enviada pela lobista ao então chefe de gabinete de Lula. O GLOBO mostrou também conversas entre Roberta, Lulinha e Marcola indicando que ela chegou a se reunir presencialmente com Berge e ainda pediu ao filho do presidente Lula que o pressionasse a deslanchar as tratativas do canabidiol, que se estenderam entre 2024 e 2025 Mas a revelação do escândalo dos descontos ilegais em aposentadorias do INSS e a Operação Sem Desconto, no início do ano passado, sustaram os esforços do grupo. Procurado por meio da assessoria de imprensa da Presidência, Swedenberger Barbosa afirmou que a informação de que recebeu o quadro “não procede”. O teor das mensagens trocadas com Marcola sobre a obra foi revelado pelo Estadão na semana passada, mas as mensagens com Berge ainda não tinham vindo à tona. Mas embora já se saiba que Roberta pagou o equivalente a R$ 249 mil em boletos e despesas de Marcola – tudo com recibo – no caso do quadro ela inflacionou bem o valor do presente. Embora tenha dito a ele que cada quadro custava 100 mil euros, na realidade as obras de Antonio Veronese são negociadas no mercado a um valor muito menor. Há quadros dele por R$ 2.800, outros com lance inicial de R$ 800 em leilões, e de acordo com colecionadores de arte ouvidos pela equipe da coluna o preço de suas obras não chega a 5 mil euros. No último dia 6, o Supremo Tribunal Federal (STF) inaugurou um painel assinado por Veronese com a presença do presidente da Corte, Edson Fachin. Segundo comunicado divulgado pelo tribunal, a obra foi “concebida como um manifesto artístico contra o feminicídio e a violência de gênero” e a instalação “reforça o diálogo entre arte e instituições públicas na promoção dos direitos fundamentais”. Lobby e inquérito no STF Marcola deixou o cargo depois que rumores sobre seu envolvimento no caso passaram a circular em Brasília. Posteriormente, acabou dispensado da campanha à reeleição de Lula quando detalhes de sua relação com Roberta vieram à tona. Já Berge segue despachando no Planalto. Lulinha já estava na mira da Operação Sem Desconto, relatada no STF pelo ministro André Mendonça, por suspeita de que ele atuasse como sócio oculto do Careca do INSS e de Roberta. Mas a Polícia Federal decidiu abrir um inquérito específico para apurar possível tráfico de influência nas negociações envolvendo a cannabis medicinal. Isso porque a PF descobriu que o filho de Lula viajou à Europa bancado pelo Careca do INSS no fim de 2024 no curso das investigações sobre a fraude nas pensões, mas apontou que não havia conexão do inquérito com a operação do canabidiol e solicitou a divisão do inquérito. Porém, em meio à tensão entre setores da corporação e o gabinete de Mendonça, a PF tentou driblar a distribuição automática do pedido para o magistrado e defendeu que um relator fosse sorteado livremente, ou seja, que fosse descartada a chamada prevenção. O pleito chegou ao Supremo durante o recesso judiciário, quando o ministro Alexandre de Moraes estava na presidência da Corte em um revezamento com Fachin. Após ser provocado a se manifestar por Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, concordou com a posição da Polícia Federal. O presidente interino do Supremo ordenou então que a área técnica do tribunal realizasse o sorteio eletrônico, que acabou selecionando justamente Mendonça, que autorizou a abertura da investigação.