O sotaque era o mesmo, mas, em vez da marra de sempre, vimos um homem de fala mansa, respostas reflexivas e mensagem conciliadora na primeira coletiva do treinador na volta ao Real Madrid 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 José Mourinho, técnico do Real Madrid — Foto: Josep LAGO / AFP Há uma semana, às 9:27 da manhã, José Mourinho entrava na sala de imprensa do CT do Real Madrid em Valdebebas pela primeira vez depois de 13 anos. Ele chegou três minutos mais cedo do que o anunciado a uma coletiva cujo horário já não era normal, cedo demais para os padrões espanhóis. Chegou com cara amassada e olheiras, a pele queimada pelo sol escaldante do verão madrilenho. Mas o que realmente chamou a atenção foi o discurso, muito diferente do que a maioria de nós esperávamos ouvir. O sotaque era o mesmo, mas, em vez daquela marra de sempre, vimos um homem de fala mansa, respostas longas e reflexivas, e mensagem conciliadora e equilibrada, que falou por mais de 40 minutos. Quem diria, chegou o Mourinho Paz e Amor! Parece brincadeira, mas é o mesmo cara que encarou o Camp Nou, agrediu o técnico do Barcelona, abriu uma guerra interna contra o capitão Iker Casillas, questionou o individualismo de Cristiano Ronaldo e meteu à força o excelente jornalista Antón Meana, da rádio Cadena SER, em um quartinho do Santiago Bernabéu para intimidá-lo e tentar forçá-lo a revelar quem era sua fonte no vestiário. A coluna não teria espaço suficiente para resumir todas as polêmicas dessa conturbada carreira. Pregando união do grupo, respeito, entrega e trabalho, até quando foi dizer que não sente a pressão de voltar a treinar o maior clube do mundo, Mourinho conseguiu se esquivar da arrogância de outrora, botando na conta da tranquilidade e da confiança que um cara calejado como ele vai adquirindo na estrada, muitas vezes esburacada, da carreira. Experiência que serve para que entenda a importância de ganhar a confiança de Vinicius Junior depois do episódio racista no confronto contra o Benfica no começo do ano, em Lisboa, quando Mourinho defendeu seu então jogador, o argentino Gianluca Prestianni. Primeiro, o técnico saiu em defensa de Vini depois da estreia contra o Espanyol, semana passada, acusando os rivais de perseguir o brasileiro de forma sistemática, dentro e fora de campo, comparando essa caça ao bullying. E daí veio a estreia do Real em casa, quarta-feira, quando Mourinho foi além do discurso e mostrou uma sensibilidade ímpar para amparar a estrela brasileira. Depois de um primeiro tempo tenebroso, que fez o time sair sob vaias da própria torcida para o intervalo, quando empatava em 1 a 1 com a Real Sociedad, o Real voltou para o segundo tempo voando, com Mbappé marcando o segundo. Aparentemente ainda fora de ritmo, Vini marcou o terceiro após grande jogada de Bellingham, mas foi vaiado por uma pequena parte da torcida quando errou uma sequência de jogadas pela ponta esquerda. Porém, alguns minutos depois, o Vini deu uma assistência brilhante para Mbappé marcar o quarto e, em seguida, foi substituído por Mourinho — saiu aplaudido de pé pela torcida. O treinador o esperava na lateral com um enorme sorriso, apontando um dedo para o ouvido e o outro para o estádio, reiterando a ovação entusiasmada do estádio para o brasileiro. “Nunca teria tirado Vini do jogo se ele não tivesse feito o que fez, sem aquela energia positiva”, disse ele na coletiva depois da partida: “Falamos a mesma língua, a resenha é fácil. A substituição foi para que ele sentisse o carinho da torcida”. Estou fascinado pelo Mourinho Paz e Amor. Mas não me julgue por ainda ter um pé atrás, uma pulga atrás da orelha. Algo me diz que os resultados serão determinantes para ver quanto tempo esse personagem vai durar...
Quem diria, chegou o Mourinho Paz e Amor!
O sotaque era o mesmo, mas, em vez da marra de sempre, vimos um homem de fala mansa, respostas reflexivas e mensagem conciliadora na primeira coletiva do treinador na volta ao Real Madrid







