"A Pequena Prisão" aproxima a história de Igor Mendes de uma reflexão direta sobre a função estrutural do cárcere e os limites da liberdade civil. Preso em dezembro de 2014, no contexto de criminalização das manifestações de 2013, o estudante de Geografia da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) passou quase sete meses encarcerado, acusado de descumprir medidas cautelares e tornando-se o ativista que mais tempo permaneceu privado de liberdade entre os 23 réus do processo.
Anos antes da absolvição sumária do grupo pela Justiça, que reconheceu a denúncia forjada sobre provas ilegais, a experiência no complexo penitenciário virou testemunho literário e, agora, matéria cênica.
A adaptação dramatúrgica de Daniela Pereira de Carvalho converte a narrativa confessional de Mendes em partitura polifônica. A escrita encadeia com precisão a alternância de registros: da crueza da violência institucional ao humor ácido e à memória afetiva, humanizando figuras que o senso comum costuma reduzir à estatística carcerária.
Dessa forma, a peça expõe a dupla camada de confinamento: a prisão interna de Bangu, regida pela despersonalização burocrática e por violências codificadas; e a prisão externa da dita sociedade livre, sustentada pela seletividade penal, pela criminalização dos movimentos sociais e pela indiferença cotidiana.






