Quão a sério devemos levar a promessa do candidato Flávio Bolsonaro de que, se for eleito, um de seus primeiros atos será decretar que "O Brasil é do Senhor Jesus"? Frei Henrique de Coimbra, que celebrou a primeira missa, em 26 de abril de 1500, poderá processá-lo por plágio? Afinal, a ideia de apresentar o território como espaço de uma soberania cristã já acompanhava a chegada portuguesa à terra de Vera Cruz, depois chamada de Terra de Santa Cruz.

Comecemos pelo óbvio: Flávio Bolsonaro busca ampliar sua vantagem entre os eleitores evangélicos. A expressão "O Brasil é do Senhor Jesus" circula há décadas em ambientes pentecostais, neopentecostais e de avivamento.

Em certos contextos, ela se articula à teologia da batalha espiritual: pobreza, violência, drogas e outros males sociais passam a ser lidos como sinais da ação de forças demoníacas sobre o território. Declarar que o Brasil pertence a Jesus seria, então, uma forma simbólica de transferir a soberania do país do domínio do mal para o domínio de Cristo.

O problema é que essa linguagem religiosa, quando convertida em promessa de decreto presidencial, deixa de ser apenas uma confissão de fé. Ela passa a insinuar que o Estado pode declarar a identidade religiosa da nação. A Constituição protege o direito de cada pessoa professar sua religião, mas impede que o Estado estabeleça uma confissão oficial ou trate os cidadãos como mais ou menos legítimos conforme sua fé.