O Rio, historicamente consolidado como capital brasileira do petróleo, vive momento de virada estratégica no setor de energia. O estado, que detém 87% das reservas provadas de petróleo e 74% das de gás natural do país, está transformando a dependência fóssil no motor financeiro e tecnológico da transição para fontes renováveis. Com produção que alcançou 3,31 milhões de barris por dia em 2025, o território fluminense vem usando a riqueza do pré-sal para atrair projetos de energia eólica offshore, solar e biometano. — O estado tem liderado aumento consistente na capacidade de energia do país, com adição de 1.600 megawatts (MW), com expectativa de acréscimo subsequente na ordem de 1.700 MW. O crescimento das fontes renováveis é um movimento dinâmico e em constante evolução — disse o subsecretário de Energia e Economia do Mar do Rio, José Eduardo Gerk. Gerk destaca a relevância da cadeia naval, portuária e indústria metal-mecânica altamente capacitada e preparada para dar o suporte necessário à implantação e manutenção de novas fontes no mar. Por meio do seu Painel de Projetos de Energia, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) mapeou um conjunto de empreendimentos potenciais que, se destravados, podem atrair mais de R$ 1 trilhão em investimentos até 2035, carteira que vai diversificar o portfólio de energia do estado. De acordo com levantamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a costa do Rio concentra 16 projetos de eólica offshore em processo de licenciamento ambiental. Segundo a Firjan, o estado tem potencial líquido de 28 GW de capacidade instalada nessas eólicas. Essa potência equivale a duas usinas de Itaipu dedicadas exclusivamente a abastecer o país a partir dos ventos do litoral fluminense. A complexa engenharia necessária para fixar e operar aerogeradores gigantescos em alto-mar compartilha quase o mesmo DNA tecnológico da engenharia submarina e dos serviços marítimos desenvolvidos para o pré-sal. — O Rio tem a vantagem de ter competências já instaladas nas universidades e nos encadeamentos produtivos que hoje atendem ao óleo e gás —afirma Karine Fragoso, gerente geral de Petróleo, Gás, Energias e Naval da Firjan. Karine defende um modelo de transição integrada. Ou seja, no futuro, a energia gerada pelos parques eólicos offshore poderá alimentar eletricamente as plataformas de produção de petróleo, reduzindo as emissões de carbono das operações em alto-mar. No caso do gás natural, uma das estratégias do governo estadual foi a Lei nº 10.456/2024. Ela concede isenção de ICMS para termelétricas a gás, mas impõe uma condição: empresas beneficiadas devem investir anualmente ao menos 2% do custo variável do gás em geração renovável, conservação de energia ou estudos de transição energética no Rio. O gás garante a estabilidade do sistema elétrico para suprir a intermitência de fontes como solar e eólica. — Esse modelo de contrapartidas permitiu ao Rio consolidar o maior parque de energia do país, equivalente a quase 19% da capacidade nacional — afirma o secretário de Desenvolvimento Econômico do Rio, Roberto Gomides. Rio tem 60 pontos de geração fotovoltaica mapeados — Foto: Divulgação/Absolar O CEO do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Roberto Ardenghy, diz que o gás é o combustível da transição por emitir entre 40% a 50% menos gás carbônico que o carvão e 25% a 30% menos que o petróleo, dependendo da tecnologia: — Além disso, sua queima praticamente reduz a liberação de óxidos de nitrogênio, óxidos de enxofre e de material particulado. Vantagem competitiva Felipe Gonçalves, superintendente de pesquisa da FGV Energia, ressalta que o Rio tem vantagem competitiva devido à malha de distribuição de gás altamente capilarizada e interiorizada. O estado aposta no biometano, com destaque para a unidade da Gás Verde em Seropédica, aproveitando a rede de distribuição de gás. No caso da energia solar, Gonçalves aponta que o potencial de geração no Rio é subutilizado para a geração distribuída, a produção de energia elétrica no próprio local de consumo ou bem perto dele. O modelo usa fontes limpas como placas solares em telhados ou pequenas usinas. O Rio já mapeou mais de 60 pontos de geração fotovoltaica, com potencial de geração que pode chegar a 3,4 GW até 2035. — O estado tem plenas condições de ampliar essa modalidade, uma vez que a qualidade da irradiação solar fluminense permite que as placas fotovoltaicas operem com alta eficiência — diz o especialista, destacando o projeto de geração solar no Porto do Açu em larga escala, planejado para ter 200 MW de capacidade. O Porto do Açu desponta como principal polo planejado para o desenvolvimento, produção e futura exportação de hidrogênio de baixo carbono (verde) e derivados (como fertilizantes verdes). Empresas já começam a estudar a produção, e a infraestrutura portuária no Açu é considerada um dos trunfos do Rio para se posicionar como hub exportador, o que deve trazer reflexos positivos para a balança comercial. Mas há desafios. — O hidrogênio verde é uma excelente alternativa de transição, mas o processo de eletrólise (quebra da molécula de água para separar o oxigênio do hidrogênio) é intensivo em eletricidade e financeiramente desafiador. As plantas de hidrogênio verde no estado só se justificarão economicamente se o Rio for capaz de fornecer energia extremamente barata para abastecer o processo — diz Ardenghy, do IBP. Para dar tração a esse ecossistema, a Petrobras conduz um projeto-piloto de testes para eólica offshore especificamente no Porto do Açu. Gonçalves, da FGV Energia, faz um alerta: — Para estruturar e viabilizar economicamente novas fronteiras limpas, o Rio precisa acelerar a digitalização e a eficiência energética de sua própria indústria.
Riqueza do pré-sal vira trunfo do Rio na corrida por novas fontes de energia
Estado aposta na expertise construída com óleo e gás para atrair empreendimentos de eólica no mar, geração fotovoltaica, biometano e hidrogênio de baixo carbono









