O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vão estrear no horário eleitoral na sexta-feira com estratégias distintas para tentar atrair uma parcela maior de votos. O petista apostará, em seu primeiro programa, em uma comparação de biografias com o adversário e dará destaque às mulheres. Flávio, por sua vez, decidiu adotar um tom mais leve na largada, deixar para os programas seguintes o caso envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e concentrar sua primeira apresentação em segurança pública, custo de vida e na associação com o pai. As escolhas antecipam caminhos diferentes para o início da disputa na televisão. O PT quer apostar na desconstrução da imagem de Flávio. Por isso apresentará a trajetória do adversário em formato de ficha corrida com citações ao caso das rachadinhas em seus tempos de deputado estadual, à compra de uma mansão em Brasília e a sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Já o QG do candidato do PL avalia que o senador precisa primeiro criar identificação com problemas cotidianos e construir uma imagem que vá além da ligação com Bolsonaro antes de aumentar a carga contra o presidente. Para a sequência de a programas, os dois lados guardam munição para o confronto: os petistas preparam uma ofensiva específica sobre o filme “Dark Horse” e negócios imobiliários da família Bolsonaro, enquanto o PL pretende explorar mais adiante as investigações envolvendo Lulinha. Com o objetivo de se contrapor a Flávio, a campanha petista apresentará a história de Lula em formato de clipe musical com referências à sua infância pobre, à entrada na política como líder sindical e aos seus três mandatos como presidente da República. Do lado de Flávio, a aposta em uma questão presente no cotidiano virá principalmente pelo bolso. Na semana passada, o candidato gravou parte de seu material em um supermercado, cenário escolhido para falar sobre preço dos alimentos, combustíveis, endividamento das famílias e perda de poder de compra. A intenção é evitar que o debate econômico fique restrito a indicadores e discussões fiscais e traduzi-lo em situações que o eleitor reconheça facilmente. Aliados resumem os dois principais eixos escolhidos para a estreia como as preocupações de “sair de casa sem ter o celular roubado” e de saber “como vão fazer para pagar as contas no final do mês”. Na avaliação desse grupo, segurança e custo de vida têm, neste momento, maior capacidade de gerar identificação com o eleitor do que as suspeitas envolvendo o filho do presidente. A campanha também prepara uma proposta voltada aos endividados. O desenho vem sendo elaborado pela equipe econômica e deverá ser detalhado pelo próprio Flávio durante a campanha. A iniciativa faz parte da tentativa de deslocar o discurso econômico para a situação financeira das famílias e oferecer uma resposta própria ao problema do endividamento. Outra aposta é recorrer a exemplos concretos para transmitir uma percepção de deterioração econômica. Integrantes das discussões sobre a campanha citam a recuperação judicial das Casas Bahia como uma imagem de fácil reconhecimento pelo público e capaz, na avaliação deles, de reforçar a mensagem de que empresas e famílias enfrentam dificuldades. A lógica é transformar indicadores econômicos abstratos em situações que o eleitor reconheça no cotidiano. Mulheres ganham espaço com Lula No programa petista, as mulheres ocuparão uma posição de destaque. Lula apresentará ações de seu governo voltadas ao público feminino, ressaltará medidas de combate ao feminicídio e associará propostas para um eventual quarto mandato à melhora da qualidade de vida desse eleitorado. Lula já fez gravações sobre diversos temas, como emprego, educação e saúde, numa série de filmagens realizadas desde a semana passada em uma casa no Lago Sul, em Brasília, onde funciona o QG de comunicação da campanha. Os temas que serão levados ao ar nos demais programas serão decididos mais adiante. Flávio também recorrerá a Bolsonaro, mas no sentido inverso. O ex-presidente terá espaço relevante na estreia do filho, que pretende usar sua trajetória e ações de seu governo para reforçar a ligação com o eleitorado bolsonarista e, ao mesmo tempo, apresentar Flávio a quem ainda o conhece principalmente pelo vínculo familiar. Michelle Bolsonaro aparecerá nesta sexta-feira, mas fará apenas uma ponta. A ex-primeira-dama é considerada um ativo para dialogar com segmentos nos quais Flávio enfrenta maior resistência, sobretudo as mulheres, mas não dividirá o protagonismo da estreia com o enteado. O vice Alfredo Gaspar (PL) também terá espaço, principalmente na frente de segurança pública. Ex-promotor e ex-secretário de Segurança de Alagoas, ele ajudará a sustentar o discurso de endurecimento contra a criminalidade. Sua atuação como relator da CPI do INSS e fiscalizador do governo Lula deverá ser explorada de forma mais incisiva posteriormente. Outros aliados serão incorporados ao longo das próximas semanas. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), está entre os nomes previstos para aparecer mais à frente. A estratégia é distribuir os principais cabos eleitorais durante o período de propaganda, em vez de concentrá-los todos no primeiro programa. Campanhas testam a dosagem do confronto Um ponto ainda em discussão no QG petista é se Lula fará ataques diretos a Flávio já na estreia. Quando o senador passar a ser alvo mais frequente da propaganda, o PT pretende “apresentá-lo” ao eleitor a partir de episódios considerados vulnerabilidades do adversário. Entre os temas preparados estão o financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, a relação de Flávio com Daniel Vorcaro e negócios imobiliários da família Bolsonaro. A decisão sobre quando e como usar esse material vem sendo calibrada também com base em pesquisas qualitativas. No PL, o movimento para a largada é semelhante na dosagem, embora com um alvo diferente. O caso Lulinha, que vinha sendo preparado para chegar à televisão desde a semana passada, deve ficar fora da estreia. A decisão representa uma mudança de momento, e não de estratégia. Flávio já explora nas redes sociais mensagens obtidas pela Polícia Federal envolvendo Lulinha e a empresária Roberta Luchsinger. As conversas encontradas pelos investigadores tratam de negócios e mencionam interlocuções dela com integrantes do entorno de Lula. O filho do presidente é investigado em três inquéritos por suspeita de tráfico de influência e nega irregularidades. Com a propaganda prevista até 1º de outubro, o QG de Flávio considera que há tempo para alternar programas voltados à apresentação do candidato e de propostas com peças mais duras contra o adversário. A intenção é construir primeiro uma identificação com o público antes de transportar para a televisão a intensidade do confronto já presente nas redes sociais. Lula testa falas livres e teleprompter A campanha petista também vem usando pesquisas qualitativas para definir o conteúdo e a forma da propaganda. Lula iniciou na semana passada uma série de gravações individuais divididas por eixos temáticos para formar um banco de imagens e falas que poderá ser usado até o fim do primeiro turno. O presidente grava enquanto é entrevistado pela equipe de marketing e já falou sobre emprego, soberania, educação e saúde, além de apresentar números e realizações do governo. A orientação é combinar a prestação de contas com uma mensagem de “sonho e esperança”. As gravações são submetidas a pesquisas qualitativas para medir a reação do público e até a forma como Lula fala diante da câmera vem sendo testada. O presidente gravou tanto falas livres quanto trechos usando teleprompter. Auxiliares avaliam que, depois de receber um briefing, Lula costuma ter melhor desempenho quando fala espontaneamente. O ambiente controlado da propaganda, o tempo limitado e a necessidade de ajustar a mensagem, porém, devem levá-lo a ler textos em alguns momentos. Nas filmagens, Lula tem aparecido de chapéu panamá e camisas sociais de cores claras. As gravações ocorrem em uma sala que permite mudanças de cenário sem o uso de chroma key. No primeiro vídeo divulgado a partir do QG, em que fez um apelo ao Congresso pelo fim da chamada taxa das blusinhas, o presidente apareceu diante de uma estante de livros. Os trabalhos são acompanhados pelo marqueteiro Raul Rabelo e pelo fotógrafo Ricardo Stuckert. O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, também tem vistoriado a produção. Lula terá o maior tempo de propaganda entre os candidatos à Presidência, com 5 minutos e 31 segundos por bloco. Flávio terá 4 minutos e 20 segundos.
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Presidente e senador adotam estratégias distintas na tentativa de fisgar uma parcela maior de votos









