Este é um enredo já visto antes: Donald Trump faz exigências. Quando o outro lado não lhe dá o que ele quer, ele intensifica a pressão com ameaças bombásticas de punições devastadoras. O outro lado se rende. Só que Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, evidentemente não leu o roteiro. Sua recusa em ceder diante do ultimato comercial do presidente dos Estados Unidos, mesmo que isso signifique arcar com tarifas retaliatórias, mudou o rumo do segundo mandato do republicano. Em vez de ceder, Carney está testando se a resistência é uma estratégia viável contra Trump. A era de capitulação que marcou o retorno de Trump ao cargo pode estar começando a chegar ao fim. Líderes mundiais e instituições nacionais estão, pelo menos em alguns casos, demonstrando menos disposição para se submeter à vontade do republicano. Líderes europeus se recusaram a aderir à sua guerra contra o Irã. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rejeitou categoricamente seu plano para Gaza. Os países árabes do Golfo o forçaram a abandonar os planos de cobrar uma taxa de passagem no Estreito de Ormuz. As universidades e os escritórios de advocacia estão rejeitando suas diretrizes. Os mercados de títulos estão se rebelando contra suas políticas fiscais. Até mesmo a rede de televisão ABC, cujo pagamento de US$ 16 milhões (cerca de R$ 82,4 milhões) para encerrar uma ação judicial movida por Trump foi visto como um dos primeiros exemplos de concessão ao presidente, descobriu que não comprou paz e agora está processando o governo do republicano por ameaçar suas licenças de transmissão. Ele ainda pode conseguir subjugar o Canadá e Israel por meio de sua forte personalidade, tarifas ou outros meios. A Suprema Corte tem lhe concedido uma autorização atrás da outra para usar sua autoridade executiva como bem entender, seja assumindo o controle de órgãos independentes, construindo seu tão sonhado salão de festas ou tentando restringir o voto por correio. E sempre que alguém prevê que os republicanos no Congresso finalmente começarão a demonstrar alguma independência, eles provam que os analistas estão errados. Embora tenham resistido à pressão do presidente em alguns casos recentes, a confirmação pelo Senado de Todd Blanche como procurador-geral deixou claro que Trump ainda domina a ala congressista do partido. Mas, mesmo entre os republicanos, há alguns sinais preocupantes para o presidente. Embora ele tenha conseguido punir com sucesso vários legisladores proeminentes do partido que considerava desleais, mobilizando sua base de apoiadores para derrotá-los nas primárias do partido este ano, os eleitores do Partido Republicano rejeitaram os candidatos endossados por Trump em 10 disputas de indicação, 6 delas somente em agosto. As pesquisas mostram que seu apoio entre os republicanos está diminuindo. — Acho que as últimas semanas representaram, de certa forma, um ponto de inflexão. Tanto no país quanto no exterior, as forças pró-democracia e todos os demais estão se opondo a ele com um vigor muito mais generalizado — afirma Norm Eisen, ex-advogado da Casa Branca durante o governo Obama e fundador de um grupo chamado Democracy Defenders Fund, que vem travando várias disputas judiciais contra Trump. Dentre outros assuntos, Eisen esteve envolvido em disputas judiciais relacionadas ao Centro John F. Kennedy para as Artes Cênicas, à cidadania por direito de nascimento, ao Federal Reserve e ao processo judicial arquivado contra um ex-atleta olímpico acusado de vandalizar o Espelho D’Água do Memorial Lincoln. Na medida em que houve uma mudança, diz Eisen, ela se deve, em parte, à arrogância de Trump. — Trump tem sido seu pior inimigo — observa. Em junho, os funcionários do Kennedy Center estenderam uma grande lona branca como parte de uma operação para remover o nome de Trump da fachada do centro após uma ordem judicial. — Foto: Pete Kiehart / The New York Times Trump e seus assessores rejeitam essa avaliação, é claro, e destacam sua capacidade contínua de influenciar os acontecimentos. Em uma série de postagens nas redes sociais nos últimos dias, o presidente atribuiu a si mesmo o mérito pela queda nos índices de criminalidade e insistiu que está vencendo a guerra contra o Irã. Ele contestou pesquisas que mostram sua impopularidade e rejeitou notícias sobre as recentes derrotas nas primárias. Trump não precisou dar explicações sobre suas derrotas quando voltou à Casa Branca no ano passado. Nos primeiros meses de seu mandato, parecia que ele estava vencendo em todas as frentes. Mesmo sem um mandato sólido — ele conquistou um segundo mandato com apenas 49,9% dos votos populares — conseguiu impor sua vontade em toda a sociedade. Ele ditou para empresas privadas como deveriam tomar decisões e para as universidades como deveriam ensinar. Tornou os programas de diversidade tão polêmicos que empregadores em todo o país os abandonaram. Desmantelou agências federais sem consultar o Congresso, assumiu o controle do Kennedy Center e usou o poder do governo para perseguir seus inimigos. E, nesse processo, conseguiu pressionar os outros a seguirem seus desejos. Escritórios de advocacia, universidades, empresas de comunicação e bilionários do setor de tecnologia fizeram de tudo para demonstrar obediência, alterando políticas para atendê-lo ou concordando com acordos multimilionários que ele exigia. Jacob Weisberg, que registrou essa tendência de submissão em um novo livro que será lançado no mês que vem, intitulado “Profiles in Cowardice”, afirmou que as motivações começaram a se inverter e que ceder a Trump agora pode gerar uma reação adversa que sai cara. — O preço da capitulação aumentou para o outro lado — ressalta, citando como exemplo a onda de críticas que se seguiu quando a Universidade de Yale começou a negociar com o governo Trump. Ainda assim, ele alerta que não se pode exagerar o quanto as coisas já mudaram. — Há alguns sinais, mas já houve sinais antes e as pessoas se precipitaram. Acredito que a situação começará a mudar em algum momento, e acho que isso está ligado à popularidade de Trump. Sempre achei que, quando ele cair para menos de 30% [de aprovação], começaremos a ver um comportamento diferente. E há alguns indícios de que isso está acontecendo — afirma Weisberg. Há indícios de que isso também está ocorrendo no exterior, pelo menos na Europa e, em menor grau, no Oriente Médio. Quando Trump voltou a assumir a presidência no ano passado, os aliados da Otan cederam à sua pressão e concordaram em aumentar os gastos militares. Mas, agora, líderes de ambos os lados do espectro político estão mais resistentes às suas exigências, desde o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, da esquerda, até a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, da direita. — Para muitos desses líderes europeus, é uma boa estratégia política enfrentá-lo. Vemos isso com mais clareza na Espanha, mas também em outros lugares da Europa — explica Matthew Kroenig, pesquisador sênior do Centro Scowcroft para Estratégia e Segurança do Atlantic Council e ex-funcionário de segurança nacional durante os mandatos de três presidentes de ambos os partidos, incluindo Trump. Isso pareceu mudar no início do ano, quando Trump fez pressão para tomar posse da Groenlândia, que faz parte da Dinamarca, um membro da Otan. Trump chegou a sugerir a possibilidade de usar força militar para tomar a ilha, levantando a perspectiva de uma guerra interna na Otan. Em vez de tentar apaziguá-lo, como haviam feito no passado, os líderes europeus se manifestaram veementemente contra Trump e alguns até enviaram um pequeno contingente de soldados à Groenlândia para realizar exercícios militares, a fim de deixar sua posição clara. — A Groenlândia foi um ponto de inflexão, em parte porque representou um ataque à própria soberania da Europa, e os europeus começaram a compreender, naquele momento, que simplesmente não havia fim para a ganância de Trump e para suas exigências — lembra Jeremy Shapiro, ex-funcionário do Departamento de Estado que agora trabalha no Conselho Europeu de Relações Exteriores. O confronto com o Canadá traz grande parte dessa história à tona. Ambos os lados continuaram a intensificar as tensões nos últimos dias. Em um discurso anunciando que havia rompido as negociações na semana passada, Carney disse que há muito tempo vinha alertando que “os EUA estão tentando nos quebrar para que possam nos dominar, e eu prometi que isso nunca, jamais acontecerá”. Na terça-feira, Trump criticou Carney, chamando-o de “primeiro-ministro fraco e ineficaz”, e ameaçou mudar o nome do Lago Ontário para Lago América, já que “não esperamos mais fazer muitos negócios com Ontário”. Kush Desai, porta-voz da Casa Branca, afirmou que Trump havia oferecido ao Canadá um acordo atraente. “Com grande parte da economia do Canadá dependente das exportações para os EUA — cuja economia é mais de 12 vezes maior e cuja população é sete vezes maior —, a postura do Canadá tem menos a ver com rebeldia e mais com imprudência de curto prazo”, afirmou ele em um e-mail. Líderes de todo o mundo estão de olho na situação. Shapiro afirmou que eles “agora acreditam, em sua maioria, que recuar diante da agressão ou dos insultos de Trump apenas incentiva mais exigências”. — Acho que Carney está estabelecendo o modelo de como eles responderão a futuras ameaças tarifárias de Trump — acrescenta.
Análise: Resistência começa a substituir era de capitulação a Trump nos EUA e no exterior
Confronto com o Canadá é o exemplo mais recente de uma mudança de postura de líderes, empresas e instituições diante das ameaças e exigências do presidente americano











