Graças ao trabalho de pesquisadores e jornalistas que, na última década, vêm documentando e analisando todo tipo de violações de direitos individuais e coletivos em escolas militarizadas, conhecemos bem os impactos da militarização sobre o cotidiano e as práticas curriculares nas escolas públicas deste país. Da perda da autonomia pedagógica à gestão autoritária. Do uso dos recursos da educação para remunerar militares ao uso de armas e da brutalidade para o disciplinamento físico de crianças e adolescentes. Da criação de ambientes escolares hostis à imposição de normas de gênero em cortes de cabelo e fardamentos. Constituição Federal e legislação educacional vilipendiadas sistematicamente e à luz do dia.

Ao mesmo tempo, até a divulgação da base de dados de “Escolas de educação básica militarizadas e militares”, coordenada por mim e primeira do tipo no Brasil, conhecíamos muito pouco dos impactos da militarização sobre as redes públicas de ensino. Não conseguíamos sequer estimar quantas escolas estaduais e municipais existiam no Brasil. E, portanto, também não éramos capazes de avaliar os impactos da militarização sobre aspectos muito elementares dos sistemas públicos de ensino.

Sabendo quantas escolas militarizadas de fato existem no País e onde elas se localizam, é possível cruzar essas informações com os microdados do Censo Escolar divulgados anualmente pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) para descobrir quantas matrículas escolares foram comprometidas pela militarização e avaliar os impactos deste comprometimento sobre a oferta pública de educação para as famílias que não desejam que seus filhos frequentem escolas militarizadas.