Em sua primeira viagem ao Nordeste desde o início oficial da campanha, Flávio Bolsonaro (PL) suavizou o discurso contra o seu adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e incorporou a defesa de uma das principais marcas dos governos petistas numa tentativa de avançar sobre o eleitorado que sustenta a maior vantagem regional do presidente. Em Maceió, nesta terça-feira, o candidato reconheceu que Lula “fez algo pelo Nordeste” no passado, prometeu manter o Bolsa Família e dirigiu parte de sua fala a quem já votou ou acreditou no petista, mas que, segundo ele, hoje estaria “desiludido” com o governo. A mudança de tom apareceu já na chegada a Alagoas e acompanhou Flávio ao longo do primeiro dia de compromissos na região. Em vez de desqualificar toda a passagem de Lula pelo poder, como costuma fazer em discursos para a base bolsonarista, o senador separou o passado do atual governo e tentou se apresentar como alternativa para um eleitor que não precisa romper com a avaliação positiva que fez anteriormente do petista para mudar de voto agora. — Eu entendo as pessoas que até ontem acreditavam no Lula, uma pessoa que lá no passado fez algo pelo Nordeste. Agora, o legado dele é a desilusão — afirmou Flávio. A aposta responde a uma dificuldade eleitoral concreta. No Nordeste, Lula tem 53% das intenções de voto no primeiro turno, contra 25% de Flávio, segundo o Datafolha. São 28 pontos de vantagem, a maior distância entre os dois nos recortes regionais. Em um território de forte identificação histórica com o petista, a campanha vê pouco espaço para avançar apenas com a mobilização do eleitorado tradicionalmente bolsonarista. Flávio voltou a endurecer o discurso ao afirmar que “o legado de Lula é desilusão, é atraso, é o passado, é o abandono”, mas combinou os ataques com acenos a políticas identificadas com o adversário. O principal deles foi o Bolsa Família, programa criado no primeiro mandato de Lula e que se tornou uma das principais marcas eleitorais do PT, especialmente no Nordeste. O senador assegurou que o benefício será preservado caso vença a eleição. — Vamos garantir o Bolsa Família e melhorar a vida deles. Temos que olhar para o Nordeste e pensar como a solução para o Brasil — disse. Flávio tentou, ao mesmo tempo, argumentar que os programas de transferência de renda não são suficientes para desenvolver a região. A promessa de manutenção do benefício veio acompanhada da defesa de uma agenda voltada a emprego, infraestrutura e produção. — O Nordeste merece mais do que o primeiro estágio que o governo faz, que são os programas sociais — afirmou. A combinação permite ao candidato disputar o eleitor de Lula sem confrontar diretamente uma política popular entre os nordestinos. A tentativa é preservar o Bolsa Família, mas atribuir ao atual governo a incapacidade de oferecer uma etapa seguinte de desenvolvimento econômico e geração de oportunidades. Nesse esforço, Flávio apresentou também propostas voltadas especificamente à região. Uma delas é a construção de um trem ligando as capitais nordestinas, que, segundo ele, serviria para estimular o turismo e facilitar o deslocamento. O senador também defendeu investimentos para ampliar o acesso à água e a produção de alimentos e comparou o potencial econômico do Nordeste à expansão do agronegócio no Centro-Oeste. — A gente tem que olhar para o Nordeste como uma solução para o nosso Brasil. Porque aqui tem tudo, tem sol o ano inteiro, tem vento o ano inteiro, tem energia que pode ser produzida aqui no Nordeste — afirmou. Ao mesmo tempo em que reconheceu realizações passadas de Lula, Flávio procurou disputar com o petista a memória de políticas públicas voltadas à região ao reivindicar o legado do pai. Citou a transposição do Rio São Francisco e o pagamento de benefícios de R$ 600 durante o governo de Jair Bolsonaro. — Foi o presidente Bolsonaro que trouxe efetivamente água para o Nordeste com a transposição do São Francisco; foi o presidente Bolsonaro que botou o Bolsa Família com, no mínimo, R$ 600. Vamos melhorar muito mais a vida das pessoas — afirmou. Palanque dividido A tentativa de conquistar antigos eleitores de Lula ocorre ao mesmo tempo em que Flávio enfrenta dificuldades para transformar alianças estaduais em palanques presidenciais no Nordeste. O senador escolheu Alagoas, estado de seu candidato a vice, Alfredo Gaspar (PL), para abrir a agenda na região, mas passou o primeiro dia sem JHC (PSDB), candidato ao governo apoiado pelo PL. Arthur Lira (PP), candidato ao Senado, ficou fora das agendas político-eleitorais durante o dia, mas compareceu à noite à convenção que celebrou os 111 anos da Assembleia de Deus em Alagoas. Questionado sobre a ausência de JHC, Flávio minimizou a distância e afirmou que o tucano participará de sua campanha. — O nosso candidato a governador é o JHC. É um palanque importante. O JHC vai estar conosco na campanha. Fizemos essa composição por intermédio de Alfredo Gaspar. O mais importante é que tenho Gaspar e Deus, que está com a gente — disse. A declaração provocou incômodo entre aliados de JHC, que vinham tentando evitar uma associação direta com Flávio. O ex-prefeito deixou o PL neste ano e migrou para o PSDB, partido que adotou neutralidade na disputa pelo Planalto. Seu entorno busca preservar espaço entre eleitores que não necessariamente apoiam o candidato do PL à Presidência. O cálculo ganhou peso com o cenário apertado na disputa pelo governo de Alagoas. Pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira mostrou Renan Filho com 42% das intenções de voto, contra 40% de JHC. Diante do empate técnico, aliados do tucano consideraram inconveniente que Flávio o apresentasse como integrante de seu palanque presidencial justamente durante sua passagem pelo estado. Lira, por sua vez, manteve distância das agendas de campanha durante o dia, mas compareceu ao último compromisso de Flávio em Maceió. O ex-presidente da Câmara não esteve na recepção no aeroporto, na carreata ou no encontro com empresários, mas foi à noite à convenção de ministros das Assembleias de Deus. Aliados do deputado atribuíram sua presença à celebração dos 111 anos da igreja, número que também coincide com o usado por ele na disputa pelo Senado. Nesta quarta-feira, as agendas voltam a se separar. Enquanto Flávio segue para Arapiraca, no interior do estado, para a segunda etapa de sua passagem por Alagoas, Lira tem compromisso eleitoral próprio marcado em Feliz Deserto. Flávio desembarcou na manhã de terça-feira no Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, onde foi recebido por apoiadores e falou com jornalistas. De lá, participou de uma carreata de aproximadamente oito quilômetros por Maceió, com percurso pela BR-104 e pelos corredores Durval de Góes Monteiro e Fernandes Lima. À tarde, o candidato se reuniu com empresários e representantes do setor produtivo na Associação Comercial de Maceió. A agenda serviu para apresentar propostas econômicas e de infraestrutura e reforçar o discurso de que o Nordeste deve ser tratado como um polo de desenvolvimento, e não apenas como destino de programas sociais. O primeiro dia terminou com uma incursão em outro eleitorado estratégico para o PL. Flávio participou, ao lado de Gaspar, da convenção de ministros das Assembleias de Deus, que marcou os 111 anos da denominação em Alagoas, no templo-sede da igreja em Maceió. A aproximação com lideranças evangélicas integra a tentativa da campanha de mobilizar na região um segmento em que o bolsonarismo historicamente encontra terreno mais favorável. Nesta quarta-feira, Flávio segue para Arapiraca para concluir a passagem por Alagoas. A viagem abre uma agenda que o presidenciável pretende estender a outros estados nordestinos até o primeiro turno, numa tentativa de reduzir a diferença para Lula justamente na região em que o petista mantém sua maior vantagem eleitoral.
Flávio suaviza tom ao abrir campanha no Nordeste, defende programa que é marca do PT e mira eleitor que já votou em Lula
Em Alagoas, candidato do PL reconhece que adversário 'fez algo' pela região, promete manter Bolsa Família e tenta convencer antigos eleitores do petista de que ciclo se esgotou








