O índice de confiança do FGV-IBRE do consumidor de baixa renda, com renda familiar até R$ 2100, caiu de 90,3 em junho para 78,4 em agosto (100 é o nível neutro). A confiança dessa faixa, em agosto, é a mais baixa entre todos os níveis de renda, num sinal que pode ser preocupante para a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.PUBLICIDADESegundo Anna Carolina Gouveia, pesquisadora do IBRE responsável por essa área, uma série de políticas de incentivo do governo influenciou positivamente os índices de confiança dessa faixa salarial entre março e junho, quando houve alta de 85,3 para 90,3. Ela cita a valorização do salário mínimo, a isenção do Imposto de Renda e o Desenrola 2 como exemplos dessas políticas, que melhoraram a percepção sobre a 'situação financeira atual' até junho."Mas desde o mês passado parece haver um esgotamento do efeito dessas políticas, e esse consumidor está mais pessimista sobre a economia", diz a economista.Ela acrescenta que outros fatores que podem estar contribuindo para minar a confiança dessa faixa mais pobre são o endividamento e a inadimplência e os primeiros leves sinais de desaceleração no mercado de trabalho.Mas a queda da confiança do consumidor nos últimos meses, na verdade, tem sido generalizada, afetando todas as faixas de renda. O pico recente do índice total foi em abril, quando a confiança atingiu 89,1. Desde lá, houve quedas consecutivas, que levaram o índice para 84,7 em agosto.PublicidadeEm agosto, aliás, o recuo da confiança do consumidor com renda familiar até R$ 2100, de 79,8 em julho para 78,4, nem foi o mais pronunciado entre as faixas de renda. A queda da faixa de renda entre R$ 2100 e R$ 4800 no mesmo período foi de 87 para 82,8; e a da faixa entre R$ 4800 e R$ 9600 foi de 92,1 para 86,8. Já na faixa mais rica, acima de R$ 9600, o recuo foi discreto, de 92,1 para 91,2.Pode-se notar nessa última leitura dos indicadores de confiança do consumidor uma inversão do padrão histórico ao qual Lula e o PT gostam de se associar, o de governar para os pobres. Na confiança, ao contrário, quanto menor a faixa de renda, pior o indicador.Segundo Gouveia, nas três faixas de renda superiores tem havido uma queda bem forte das compras previstas de bens duráveis, que foi o subindicador que mais recuou em agosto. Esses duráveis incluem eletrodomésticos, móveis e até carros. São bens que têm parcelamento na venda, e o alto nível de endividamento (que atinge todas as faixas de renda) e os juros elevados podem estar contribuindo para uma postura mais pessimista.Outro fator que pode estar pesando na confiança é a previsão de maior inflação de alimentos no futuro, pelo El Niño mas também pela alta dos combustíveis. Essa percepção, ela assinala, provavelmente está presente nas faixas de renda mais altas, que são mais bem informadas, e menos nos que têm renda familiar até R$ 2100.Olhando à frente, Gouveia pensa que a confiança pode continuar a cair ou "caminhar de lado". Referindo-se ao índice geral, ela nota que as três quedas entre abril e julho foram pequenas (ao longo desse período, o índice foi de 89,1 para 88,3), mas a queda de agosto, para 84,7, foi abrupta.PublicidadePara a pesquisadora, o esgotamento das políticas de incentivo eleitorais, o endividamento e inadimplência e a perspectiva de alta da inflação de alimentos devem ser fatores que pesarão na confiança nos próximos meses.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/8/2026, terça-feira.Vale ler tambémA inteligência artificial começa a redesenhar o combate ao câncerCaixa já investiu R$ 2,6 bi em tecnologia em 2026A inteligência artificial seria a solução ou a dissolução?