Havia um outdoor na estrada litorânea ao longo da costa norte da Venezuela com uma foto gigantesca do ex-líder do país, Nicolás Maduro, sorrindo junto as palavras "uma terra onde correm leite e mel", uma expressão bíblica que descreve uma terra abençoada.

Mas atrás da placa não havia Maduro, nem leite, nem mel. Apenas montanhas de escombros, sacos mortuários e acampamentos improvisados para milhares de venezuelanos que ficaram desabrigados após os devastadores terremotos consecutivos de junho.

La Guaira, antes um animado refúgio à beira-mar e o estado mais atingido pelo desastre, foi completamente desfigurada. Altas torres residenciais com vista para o Caribe se transformaram em pilhas empoeiradas de destroços retorcidos.

Com cerca de 24 mil desabrigados e centenas de edifícios danificados ou destruídos, segundo o regime, a faixa litorânea tornou-se um imenso acampamento humanitário, onde muitos vivem em barracas próximas aos escombros.

A presença incontornável do mar e de sua brisa salgada de verão contrastava com a presença quase constante da morte —nos corpos que continuavam a emergir dos escombros, nos sacos mortuários sobre caminhonetes, nas caixas com cinzas levadas do necrotério para carros, casas, abrigos ou altares de igrejas.