Por algumas horas, uma cidade de aproximadamente 2,5 mil habitantes surgiu dentro de Cavalcante, no interior de Goiás. Tinha oficina, cozinha, dormitórios, posto médico, geradores, caminhões e até moradores fornecendo energia elétrica. Na manhã seguinte, quase tudo desapareceria. É assim, etapa após etapa, que funciona uma das operações menos visíveis do Sertões: transportar uma pequena cidade pelo interior do Brasil. A comparação não é apenas uma figura de linguagem. Embora sejam cerca de 300 competidores, o rali mobiliza uma caravana muito maior formada por mecânicos, engenheiros, médicos, cozinheiros, profissionais de comunicação, familiares e funcionários da organização. São pessoas que precisam comer, dormir, tomar banho, abastecer veículos e trabalhar todos os dias — muitas vezes em municípios pequenos, onde a infraestrutura disponível é limitada. — É uma loucura. Quando a gente fala da nossa modalidade, quanto mais inóspito o local, melhor para fazer um rali de velocidade. Mas, quando você fala em local inóspito, geralmente não tem estrutura — resume Leonora Guedes, CEO do Sertões, ao GLOBO. A operação começa muito antes de os carros entrarem na trilha. Segundo Leonora, o planejamento de uma edição começa cerca de um ano antes. Para receber a estrutura, são necessárias áreas de aproximadamente 60 mil a 70 mil metros quadrados nas cidades anfitriãs, além de água, energia, hospedagem, alimentação e condições para a circulação de centenas de veículos. Sertões transforma bairro em ‘cidade’ de Cavalcante após primeira etapa — Foto: Lucas g Uma equipe chega antes da outra sair A organização trabalha praticamente em duplicidade. Enquanto uma estrutura ainda está funcionando na cidade que recebeu a etapa, outra já prepara o destino seguinte. — A gente tem duas equipes espelhadas. Enquanto estamos aqui, já tem outra estrutura na próxima cidade. De fato, somos um circo itinerante — explica Edgar Fabre, diretor técnico do Sertões. No núcleo da organização são aproximadamente 350 profissionais. Para quem acompanha o rali, a velocidade da desmontagem chama atenção. Caminhões, equipamentos e funcionários deixam uma cidade enquanto os competidores ainda se preparam para seguir viagem. Sertões transforma bairro em ‘cidade’ de Cavalcante após primeira etapa — Foto: Duda Bairros A logística também vale para as equipes. Um erro de planejamento pode significar um piloto chegar ao destino antes dos próprios mecânicos. A situação é especialmente delicada para motociclistas, que costumam largar cedo e podem completar uma etapa no início da tarde. — Já aconteceu de o piloto chegar e a equipe não estar lá. O cara está cansado, quer descansar, tomar banho, almoçar. E precisa acordar muito cedo no dia seguinte — conta Edgar. Quando 2,5 mil pessoas chegam de uma vez O impacto fica mais evidente quando a caravana desembarca em cidades pequenas. Hotéis e pousadas lotam, restaurantes recebem uma demanda incomum e postos de combustível, supermercados, lavanderias e pequenos comerciantes passam a atender milhares de novos consumidores simultaneamente. Leonora conta que a organização chega a avisar previamente comerciantes sobre a passagem da prova para que estoques sejam reforçados. Mesmo em Goiânia, na largada, ela recebeu o relato de que um atacadista ficou sem água depois da chegada das equipes. — A gente avisa a padaria, o posto de combustível. Porque vai chegar uma cidade móvel com 2,5 mil pessoas que vai usar toda a cadeia produtiva do turismo — afirma a CEO. Em Cavalcante, essa engrenagem chegou até os pequenos vendedores. Éder Araújo, de 40 anos, trabalha há 26 com comércio de bebidas em festas e eventos da região. Soube três dias antes que poderia trabalhar na passagem do Sertões e montou seu ponto na praça próxima às equipes. Éder Araújo, de 40 anos, — Foto: Lucas Guimarães Era a primeira vez que acompanhava o rali. No fim da tarde, enquanto mecânicos ainda trabalhavam e moradores começavam a ocupar a praça, ele esperava que o movimento aumentasse com a chegada da noite. — Está legal, muito legal. Vai vender melhor daqui a pouco, quando escurecer e a galera esquentar mais — brincou. Do doce de caju à energia das casas Para Irene Francisca, de 59 anos, a passagem do Sertões também exigiu uma pequena operação particular. Moradora da zona rural, ela foi avisada três dias antes do evento e correu para preparar doces de caju e outros produtos para vender aos visitantes. Irene Francisca, de 59 anos — Foto: Lucas Guimarães — Fiz as coisas tudo nas carreiras para vir. Fiz meu docinho de caju. A gente sofre muito para pegar os cajus, no sol quente. A gente faz com muito amor e carinho para trazer para vender para vocês — contou. Irene decidiu permanecer em Cavalcante durante todo o fim de semana e dormir em uma casa próxima ao local do evento. Para ela, o barulho de motores, caminhões e pessoas circulando pelo bairro não foi um incômodo. — A gente acha muito bom. É muito maravilhoso. A integração chegou também à infraestrutura. Com a demanda das equipes, moradores disponibilizaram pontos de energia elétrica de suas próprias casas, mediante pagamento. Na mesma região, cozinhas improvisadas preparavam refeições, barracas serviam de dormitório e mecânicos trabalhavam até a noite na recuperação de carros, motos e UTVs. Quando o dia amanhece, entretanto, a cidade começa a desaparecer. Barracas são desmontadas, caminhões partem e oficinas inteiras voltam para a estrada. Nesta segunda-feira (24), a caravana deixou Cavalcante rumo a Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, em um percurso total de 635 quilômetros. Para a população, ficam algumas horas de movimento incomum e o dinheiro que circulou pelo comércio. Para quem acompanha o Sertões, começa tudo novamente. Ao fim da próxima etapa, as mesmas 2,5 mil pessoas precisarão encontrar outro lugar para comer, dormir, abastecer e trabalhar.