Caravana do rali ocupa ruas do Morro Encantado, onde moradores dividem espaço com mecânicos, pilotos e máquinas após 651 quilômetros desde Goiânia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Sertões transforma bairro em ‘cidade’ de Cavalcante após primeira etapa — Foto: Duda Bairros O ronco dos motores começou a disputar espaço com os sons habituais do Morro Encantado ainda durante a tarde. Pela Rua São Paulo e nas vias próximas à praça do bairro, cães, gatos e galinhas continuavam circulando enquanto motos, UTVs, caminhões e motorhomes do Sertões ocupavam praticamente todos os espaços disponíveis. No ar seco, poeira e cheiro de óleo queimado anunciavam que a maior prova off-road das Américas havia chegado. A primeira etapa do Sertões terminou neste domingo (23) em Cavalcante, depois de 651 quilômetros desde Goiânia, 343 deles cronometrados para as principais categorias. Mas cruzar a linha de chegada significou apenas o começo de outra corrida: preparar tudo novamente para a largada desta segunda-feira. Na região onde foi instalada a Vila Sertões, o bairro se transformou rapidamente. Sob tendas e ao lado de grandes carretas, mecânicos tiravam rodas, desmontavam peças, lavavam máquinas cobertas pela poeira do percurso e discutiam os problemas encontrados durante a especial. Alguns metros adiante, barracas de camping eram abertas praticamente entre as motocicletas. Uma cidade dentro da cidade A estrutura funciona como uma pequena cidade itinerante. Há quem durma em motorhomes e trailers, mas também integrantes das equipes que passam a noite em barracas montadas ao lado dos veículos. Nas imagens do acampamento das motos, elas aparecem enfileiradas diante das tendas, enquanto ferramentas, pneus e equipamentos dividem o mesmo espaço em que os competidores tentarão descansar por algumas horas. A cozinha também viaja. Chefes e funcionários das equipes preparam as refeições enquanto os mecânicos trabalham. Água, energia, banho, alimentação e manutenção precisam funcionar simultaneamente antes que toda a estrutura volte para a estrada. Em Cavalcante, até as casas entraram nessa logística. Moradores ofereceram pontos de energia elétrica para as equipes, que pagam pelo uso. Uma tomada que normalmente abasteceria apenas uma residência passa temporariamente a ajudar a manter funcionando equipamentos de uma operação que seguirá centenas de quilômetros no dia seguinte. Ao redor, a diferença entre os dois mundos parece diminuir rapidamente. Crianças do bairro circulavam entre caminhões e competidores, reconheciam marcas estampadas nos veículos e corriam atrás das máquinas. Tentavam conversar com mecânicos, pilotos e familiares, recebidas quase sempre com brincadeiras e bom humor. A cena ajuda a explicar uma característica particular do Sertões. Diferentemente de uma corrida realizada dentro de um autódromo, o rali atravessa cidades pequenas e se instala por algumas horas no cotidiano de quem mora nelas. A praça muda de rotina Na praça do Morro Encantado, localizada em um cruzamento do bairro, comerciantes locais montaram barracas de comida, bebida e produtos diversos. Moradores se misturaram aos integrantes das equipes e aos visitantes que chegaram acompanhando a prova. Durante a tarde, enquanto a atividade nas oficinas aumentava, a expectativa local já se deslocava para outro assunto. O forró programado para a noite era comentado entre moradores e integrantes da caravana como uma espécie de encerramento informal do primeiro grande dia de estrada. A descontração contrasta com o ritmo dentro das tendas. Nos boxes dos UTVs, por exemplo, veículos levantados por macacos hidráulicos eram cercados por mecânicos. Cada ruído diferente durante o dia precisava ser investigado antes da manhã seguinte. Porque, no Sertões, a chegada não representa descanso para todos. Quando pilotos e navegadores deixam os veículos, começa o turno de quem precisa devolvê-los em condições de percorrer outra especial. Lucas Moraes larga na frente Dentro da disputa, Lucas Moraes confirmou o favoritismo logo na primeira etapa. Atual campeão mundial de Rally Raid, o brasileiro completou o trecho entre Goiânia e Cavalcante em 5h19min54s, ao lado do navegador Kaique Bentivoglio, e abriu quase cinco minutos de vantagem na liderança dos carros. Marcelo Gastaldi e Cadu Sachs terminaram o dia na segunda colocação. Marcos Baumgart, com 5h26min47s, Guiga Spinelli, com 5h27min09s, e Flávio Lunardi, com 5h36min52s, completaram os cinco primeiros. Nas motos, o espanhol Tosha Schareina abriu a competição na liderança com a Honda, ao marcar 5h23min20s. Bruno Crivilin terminou 2min18s atrás e ficou em segundo, seguido por Gabriel Soares. Martim Ventura e Gabriel Bruning completaram o top-5. Entre os UTVs, Rodrigo Varela e Matheus Mazzei foram os mais rápidos, com 5h20min55s, 1min28s à frente de José Hélio e Ramon Sacilotti. Deni Nascimento e Gunnar Dums ficaram em terceiro. Na Production, João Carlos Cardoso e Frederico Zettel lideraram o primeiro dia. Tudo começa de novo A permanência da caravana em Cavalcante será curta. Nesta segunda-feira, pilotos deixam Goiás rumo a Luís Eduardo Magalhães, na Bahia. O dia terá mais de 600 quilômetros de deslocamentos e competição, enquanto o percurso começa a trocar gradualmente o piso duro pelas regiões de areia. Antes disso, porém, o Morro Encantado terá vivido uma noite pouco habitual. Onde normalmente há moradores sentados diante das casas e animais circulando pelas ruas, apareceram máquinas que custam centenas de milhares de reais, equipes internacionais, oficinas improvisadas e barracas para dormir. Por algumas horas, dois ritmos completamente diferentes passaram a dividir a mesma rua. E, enquanto uns discutiam estratégia para enfrentar a Bahia, outros estavam mais interessados na programação da noite. Afinal, antes de o Sertões acordar cedo e colocar novamente sua cidade sobre rodas em movimento, ainda tinha forró em Cavalcante.