Muita gente lembra de ter visto "Ilha das Flores" quando era estudante. O curta de Jorge Furtado, conhecido por roteiros sagazes, traz temas espinhosos e latentes da realidade brasileira, como a fome e a desigualdade, com a leveza de uma brincadeira.

Ao menos é a impressão causada pelos arquivos, esquetes, colagens e a narração que o filme usa, em poucos minutos, para falar sobre aquela ilha do delta em Porto Alegre, marcada pela pobreza.

Nos anos seguintes, personagens do cineasta continuaram a fazer reflexões parecidas, em filmes como "Saneamento Básico". Com Fernanda Torres e Wagner Moura, a comédia acompanha moradores de uma cidade do Rio Grande do Sul que decidem rodar um filme sobre um monstro que ganha vida após o acúmulo de lixo na região.

Os personagens do novo longa de Furtado seguem fazendo vídeos, agora por razões menos altruístas —eles vendem gravações íntimas dos clientes do motel que administram, sem consentimento. Em "Muito Prazer", que chega aos cinemas nesta quinta-feira, quem ocupa os quartos do Motel Pérola nem imagina que eles estão repletos de câmeras.

"A pornografia sempre seguiu tecnologias", diz o diretor e roteirista, que teve a ideia para o longa a partir do desejo de pôr paixões humanas e algoritmos do mundo virtual em rota de colisão. "Calcula-se que 30% do fluxo digital diz respeito à pornografia. Hoje, sites tentam oferecer um cardápio do que nos excita. Isso tem um potencial cômico enorme."