Na edição de 6 de junho do C2, do Estadão, há um artigo sobre K. Kaváfis que começa com a referência ao seu poema À espera dos bárbaros (1904). Esse tema, da “espera de algo temível”, é retomado em O deserto dos tártaros (1940), de Dino Buzzati, e no ensaio Quatro esperas (1990), de Antônio Candido. Uma provocação que surge é comparar os “bárbaros” do poema de Kaváfis com a IA. A analogia entre a inteligência artificial e os “bárbaros” dos gregos é, como qualquer analogia, precária; mas vale a pena explorá-la. Originalmente, o termo usado pelos antigos gregos não designava necessariamente povos ignorantes ou selvagens, mas aqueles que não partilhavam de seu contexto cultural e linguístico. Até mesmo os romanos recebiam essa classificação.Visitantes percorrem os estandes de exposição operados com uso de IA, em Pequim (China), em 25 de junho Foto: Andy Wong/APPUBLICIDADENa temerária analogia com a IA, o importante detalhe linguístico não deve entrar, porque, hoje, IA se expressa fluentemente em nosso idioma. Certamente, não seria “bárbara” no sentido grego estrito, mas há mais pontos a considerar. Um crucial é que à IA falta o contexto humano que nos é caro. Como tratei superficialmente antes, a IA Agente parece ignorar uma advertência de G. Bernanos, de que o fim não poderia jamais justificar os meios. Temos aí um reforço à analogia: a IA, lógica e eficiente como é, buscará atingir o objetivo colimado, sem dar necessariamente a mesma atenção que o contexto ético humano provê quanto à escolha dos meios.Vamos aos riscos. A chegada dos bárbaros trazia o clássico perigo da derrubada de muralhas e o domínio do povo e suas leis. No papel de “novo bárbaro”, a IA não ameaça nada físico explicitamente, mas avança de forma sutil sobre aspectos muito íntimos de nossa vida. PublicidadeNo poema de Kaváfis, a expectativa da chegada dos bárbaros faz com que o Senado pare de legislar (“os bárbaros farão as novas leis”), e com que os magistrados deixem de agir. No caso da IA, ela chegou, e já nos ajuda a encontrar e escolher coisas, escrever, julgar, aconselhar, diagnosticar doenças e indicar remédios. Ela organiza a nossa vida, o que, admitamos, nos é bem confortável. Mas qual será o resultado se abrirmos mão de nossa capacidade de julgamento? A IA não teria, a princípio, más intenções, mas segue, assim, “bárbara” no sentido profundo de não partilhar os valores da nossa civilização.O fecho do poema de Kaváfis traz uma inversão assustadoramente pertinente para o nosso tempo: “É já noite, os bárbaros não vêm (...). Sem bárbaros, o que será de nós? Ah! Eles eram uma solução”. No nosso caso, a IA está aqui e podíamos trocar por: “É noite e novos bárbaros já chegaram”. Seriam eles a solução ou a dissolução? Vale ler tambémCaixa já investiu R$ 2,6 bi em tecnologia em 2026Empresas controladas pela XP vão se fundirA mineradora brasileira que salta 74% no ano em NY e surfa nos ganhos do ouro
Opinião | A inteligência artificial seria a solução ou a dissolução?
IA, uma ‘bárbara’ no sentido de não partilhar os valores da nossa civilização, organiza a nossa vida; mas qual será o resultado se abrirmos mão de nossa capacidade de julgamento?







