Na medicina, silenciar um sintoma nunca é tão importante quanto entender por que ele apareceu 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Não tampe a boca para dormir — Foto: Magnific Dormir com a boca fechada virou uma espécie de ritual de saúde nas redes sociais. Antes de apagar a luz, coloca-se uma pequena fita sobre os lábios. A promessa é tentadora: respirar melhor, roncar menos, acordar sem a boca seca e ter um sono mais profundo. Há quem diga que a prática melhora até o contorno do rosto. Basta procurar por “mouth taping” para encontrar milhões de pessoas indo para a cama de boca tampada. Mas será que funciona? Talvez para algumas pessoas, mas não para todas. E, em determinados casos, tampar a boca pode até piorar a respiração durante o sono. A ideia por trás da prática não nasceu do nada. Nosso nariz foi projetado para participar da respiração. Ele aquece, umidifica e filtra o ar antes que ele chegue aos pulmões. Respirar predominantemente pela boca durante o sono também pode estar associado a maior resistência das vias aéreas e pior qualidade da respiração. Um experimento mostrou isso de forma impressionante. Quando voluntários saudáveis foram obrigados a respirar pela boca durante o sono, a resistência das vias aéreas aumentou cerca de duas vezes e meia. O número de episódios de apneia e hipopneia também aumentou dramaticamente. Ou seja, manter a boca fechada pode, pelo menos do ponto de vista da mecânica respiratória, fazer sentido. O problema começa quando essa observação vira uma receita para todo mundo. Em pessoas com apneia obstrutiva do sono, pesquisadores observaram que fechar a boca melhorou o fluxo de ar, em média. Mas a palavra importante aqui é “média”. Em alguns pacientes, aconteceu exatamente o contrário: a passagem de ar piorou. Isso acontece porque respirar pela boca nem sempre é um hábito ruim que precisa ser corrigido. Às vezes é uma saída de emergência. Imagine alguém com nariz muito congestionado, rinite importante, desvio de septo ou outra obstrução das vias aéreas superiores. Durante a noite, abrir a boca pode ser a maneira que o organismo encontra para continuar recebendo ar. Fechar essa porta sem descobrir por que a principal está obstruída pode ser uma péssima ideia. Uma revisão sistemática publicada em 2025 chamou atenção exatamente para esse ponto. Os estudos disponíveis sobre “mouth taping” ainda são poucos, pequenos e muito diferentes entre si. Além disso, muitos excluíram pacientes com doenças nasais, justamente aqueles que podem correr mais risco com a prática. Os autores alertaram inclusive para a possibilidade de asfixia em pessoas com obstrução nasal. Existe, porém, uma situação em que a fita sobre a boca parece ter alguma utilidade mais concreta. Em pacientes com apneia do sono que já usam CPAP, aquela máscara que fornece pressão positiva durante a noite, dormir com a boca aberta pode provocar vazamento de ar, ressecamento e dificuldade de adaptação ao tratamento. Um estudo mostrou que, nesse grupo específico, a fita aumentou o tempo de uso diário do CPAP em quase uma hora e também melhorou ronco, sonolência e sensação de boca seca. Perceba a diferença. Não é uma pessoa saudável que viu um vídeo na internet e decidiu colar os lábios. Estamos falando de pacientes selecionados, com diagnóstico, tratamento estabelecido e uma razão específica para impedir a abertura da boca. Há ainda uma questão maior escondida nessa moda. Roncar muito, acordar sufocado, ter pausas respiratórias durante a noite, levantar com dor de cabeça ou passar o dia sonolento não são sinais que deveriam ser mascarados com uma fita adesiva. Podem ser sintomas de apneia do sono, condição associada a hipertensão, arritmias, doença cardiovascular e maior risco de acidentes por sonolência. A boca aberta durante a noite pode ser o problema. Mas também pode ser apenas a pista. Por isso, antes de tentar fechá-la, talvez valha mais a pena descobrir o que o corpo está tentando dizer. Na medicina, silenciar um sintoma nunca é tão importante quanto entender por que ele apareceu.