0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 EMMY ROSSUM, SCOOT MCNAIRY — Foto: Disney É raro encontrar uma série policial americana que escape aos esquemas e truques das séries policiais americanas. Acontece com “Fúria”, um dos melhores lançamentos no streaming. A primeira temporada tem oito episódios e seis deles já estão disponíveis na Disney+ (os inéditos entram às segundas-feiras). Recomendo com entusiasmo. Quando conhecemos a personagem central, Alice (Emmy Rossum), ela está na geladeira no FBI, onde trabalha. O degredo aconteceu depois que ela denunciou seu então marido e colega policial, Marshall (Jake Lacy), por violência doméstica. Naquele ambiente profissional essencialmente masculino, ninguém acreditou nela. Preferiram a versão dele. Alice foi rebaixada. Passou a atender ligações telefônicas para a delegacia, uma atividade sem importância para uma detetive talentosa. É uma mulher traumatizada e triste. Passa longos períodos sem banho. Não sorri. Entrou num aplicativo de relacionamentos e pede aos homens desconhecidos com quem se encontra para baterem nela. Entre todos os antigos amigos da corporação só sobrou um, Danny (Scoot McNairy). O personagem, protetor e apaixonado pela colega, é o coração da trama. Catherine (Lola Petticrew)/Fúria — Foto: Disney Em outra ponta, acompanhamos Catherine (Lola Petticrew), uma serial killer. Na infância, ela caiu numa rede de tráfico sexual. Na vida adulta, se dedica a assassinar seus antigos abusadores. Eles são figuras proeminentes na sociedade novaiorquina. Catherine aplica uma injeção de veneno e se delicia com a morte lenta das vítimas. “Fúria” avança alternando os malfeitos de Catherine e o esforço da protagonista para retomar um espaço no FBI. Até que Alice consegue o apoio de Nora (Quincy Tyler Bernstine, excelente atriz), uma agente sênior especializada em crianças, e passa a investigar o caso. O suspense prende a atenção, mas o drama empurra a narrativa com a mesma força. Emmy Rossum e Quincy Tyler Bernstine (Nora) — Foto: Disney A crítica aguda ao machismo atravessa tudo. O enredo se equilibra o tempo inteiro na polifonia moral dos personagens. Num dado momento da história, Nora compara Catherine a Medusa, a figura com serpentes no lugar dos cabelos. Numa das versões do mito, ela passa por um estupro cometido por Poseidon. “Ela é uma vítima, mas isso não faz dela uma boa pessoa”, diz Nora. A frase resume o espírito da série. Tanto Alice quanto Catherine são sofridas. De maneiras radicalmente diferentes, ambas estão em busca de Justiça e foram abusadas por homens em alguma situação de poder. Mas “Fúria” não transforma essa origem comum em equivalência entre as duas, nem usa o trauma como salvo-conduto para Catherine. Ao contrário, ela deixa o espectador desconfortavelmente instalado nesse território em que compreender uma personagem não significa absolvê-la. Fora tudo isso, o elenco é excelente e a entrega de Emmy Rossum em cena comove. “Fúria” é feita com suor e emoção.
'Fúria', série na Disney+, escapa dos clichês e vai além do suspense policial
'Fúria', série na Disney+, escapa dos clichês e vai além do suspense policial
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