A campanha eleitoral de São Paulo tem como principais candidatos ao Palácio dos Bandeirantes dois nomes confiantes na habilidade de transformar dados em discurso político. O governador Tarcísio de Freitas, que busca a reeleição pelo Republicanos, e o ex-ministro Fernando Haddad, candidato do PT, chamam a atenção com a estratégia de não fugir de debates, sabatinas e entrevistas, nos quais buscam apresentar ideias, propostas e planos para o estado. Estão destoando de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial. O presidente já avisou que só vai ao último debate do primeiro turno, na TV Globo, e o senador diz que só vai onde estiver o petista. O que tem sido considerado um sinal de bom nível na campanha para o governo paulista, no entanto, pode não empolgar o eleitor exposto aos apelos emocionais da polarização nacional que tende a se impor no pleito estadual. Principais cabos eleitorais de Lula e Flávio no maior colégio do país, Haddad e Tarcísio são vistos como potenciais protagonistas da disputa nacional em 2030. Chamado de “concurseiro” por Haddad no debate da TV Band, no último dia 9, por se esforçar nas respostas para expor as muitas informações que tinha na cabeça, Tarcísio rebateu dizendo que o opositor não seria bom com números, numa provocação sobre sua passagem pelo Ministério da Fazenda de Lula. Mas ambos têm recorrido cada vez mais a dados públicos em seu favor ou contra o adversário para tentar dar o tom da disputa. Advogado com mestrado em Economia, Haddad tem se referido não só aos indicadores econômicos do governo Lula, com os quais lidou por pouco mais de três anos. Na tentativa de romper o favoritismo do rival, tem citado as estatísticas da área mais sensível para a popularidade do governador, a segurança pública. Já Tarcísio, engenheiro que foi ministro da Infraestrutura do governo de Jair Bolsonaro e não perde uma oportunidade de listar números — da conta de água da Sabesp que sofreu reajuste, passando por isenções fiscais e investimentos em parceria com a iniciativa privada, ao financiamento da saúde — e localidades do estado ao qual chegou em 2022 caracterizado como forasteiro pelo mesmo Haddad. Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, discursos baseados em números têm alcance relativo junto ao eleitorado, não exatamente pelo conteúdo, mas pela expectativa do público, cada vez mais acostumado à polarização, em uma disputa regional que já foi nacionalizada. — É um discurso limitado a uma parcela do eleitorado que entende os números e a importância da racionalidade na gestão pública — diz Prando. — Se você pegar o discurso de Lula e Jair Bolsonaro, vai achar o de Haddad e Tarcísio fracos. Os outros mobilizam pelo sentimento. No fundo, a política dos últimos anos tem sido histriônica, da lacração, do meme e dos cortes para redes sociais. Números em debate O início da campanha já mostrou que Tarcísio e Haddad não soltam dados aleatoriamente. No caso do governador, os temas mais citados em suas redes e discursos são avaliados em pesquisas diárias, chamadas trackings. Com o petista é o mesmo. É a partir de levantamentos e estatísticas que os dois candidatos escolhem os dados que embasam seus discursos. Portanto, não é coincidência que a violência contra a mulher, por exemplo, tenha se tornado frequente nas duas campanhas. Em São Paulo, houve alta de 10% nos feminicídios, no primeiro semestre, em comparação com o mesmo período de 2025, na contramão da queda de 2,5% no país. Esses dados têm sido repetidos por Haddad contra Tarcísio. O governador, que abriu a campanha num evento com mulheres, responde com uma série de índices e ponderações proporcionais para provar que São Paulo tem níveis de mortes violentas de mulheres inferior à média nacional. Lista números para apontar a ampliação da rede de proteção, como 144 Delegacias de Defesa da Mulher (DDM) e 235 salas DDM (áreas especializadas em delegacias comuns) funcionando 24 horas, e afirma que os indicadores tiveram queda em dois meses consecutivos. Dados sobre isenção fiscal também têm aparecido com frequência na boca dos dois candidatos. Ou a falta deles. Na terça-feira, na sabatina promovida por O GLOBO, Valor e CBN, Haddad se queixou de Tarcísio não ter apresentado na internet os benefícios fiscais que o estado concede para 1% das empresas e cobrou transparência dos dados lembrando a promessa não cumprida de cortar amplamente isenções de impostos: — Para quem e por que ele concede esses benefícios? O Tribunal de Contas do Estado (TCE), em votação das contas do exercício de 2025, apontou a necessidade de o governo ser mais transparente, ou, em alguns casos, retirar sigilos de medidas concedidas. É um dos temas que a campanha do PT vê como sensíveis. Outro duelo de números é a chamada tabela SUS paulista. Enquanto o governo estadual diz ter injetado R$ 9 bilhões em redes conveniadas, ampliando o rol de atendimentos e cirurgias, Haddad afirma que 62% dos investimentos vêm da recomposição do orçamento do Ministério da Saúde, o que é contestado pela gestão de Tarcísio. Menos paixão e carisma Na educação, o petista critica resultados ruins do estado em avaliações. Tarcísio repete cifras e até entra nos detalhes do Elefante Letrado, plataforma digital de leitura da rede estadual, para demonstrar seus investimentos em educação. Diz ter aplicado R$ 3,5 bilhões em 7 mil obras em escolas. E promete mais R$ 7,2 milhões para a melhoria da rede. Procurados, Tarcísio e Haddad não quiseram comentar. Apesar da habilidade com dados, Tarcísio e Haddad passam longe dos perfis carismáticos de Lula e Jair Bolsonaro, que lideram os dois polos da política brasileira hoje, observa o cientista político Rodrigo Prando. O resultado, avalia, será uma eleição mais propositiva em São Paulo, mas que tenderá a ficar “morna”: — Não são candidatos que despertam paixões, não é esse o perfil dos dois. Tarcísio é herdeiro do bolsonarismo, mas nunca foi agressivo com a imprensa, por exemplo. Haddad é a mesma coisa. No PT, sempre foi chamado de o mais tucano dos petistas. A discussão está mais técnica, morna, mas tem a sua validade. Procurados, Tarcísio e Haddad não quiseram comentar.
Tarcísio e Haddad transformam corrida de São Paulo em disputa por números
Governador candidato à reeleição e ex-ministro da Fazenda chamam a atenção por não fugirem de debates, destoando de seus candidatos à Presidência, e priorizarem propostas e estatísticas sobre o estado











