Miguel, de cerca de 20 anos, perdeu a consciência e foi retirado dos escombros por socorristas; fontes locais afirmam que outras pessoas continuam desaparecidas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 'Bloco de terra caiu sobre mim', diz sobrevivente de desabamento que matou ao menos 49 em mina de ouro na República Centro-Africana — Foto: Reprodução/X "O bloco de terra caiu sobre mim", lembra Miguel, trabalhador de cerca de 20 anos que sobreviveu ao desabamento de uma mina de ouro artesanal na República Centro-Africana. O acidente ocorreu na terça-feira, na mina de Zamboyé, no oeste do país, e deixou pelo menos 49 mortos, segundo o balanço oficial. Miguel contou que perdeu a consciência depois de ser atingido por um bloco de terra, mas foi retirado rapidamente pelos socorristas que já estavam no local. — Felizmente, os socorristas já haviam chegado e conseguiram me retirar rapidamente. Eu tinha perdido a consciência. Entre as vítimas também há mulheres e crianças — conta o sobrevivente. O governo determinou nesta quinta-feira o fechamento provisório do garimpo e anunciou uma investigação para determinar as responsabilidades pelo desastre. O número de vítimas, porém, é contestado por fontes locais, que afirmam que muitas pessoas continuam desaparecidas e podem estar soterradas. O balanço oficial inclui 34 centro-africanos, 13 camaroneses e dois chadianos. As operações de resgate estão suspensas porque o desabamento continuou depois do acidente, enquanto as chuvas inundaram o fundo da mina e dificultaram o acesso às áreas onde podem estar trabalhadores soterrados. Diante das condições, ainda não é possível determinar se há outras vítimas sob os escombros. Sobreviventes relatam momentos de pânico Outro mineiro que sobreviveu descreveu os momentos seguintes ao desabamento como uma situação de pânico. Ele afirmou que trabalhava quando um grande bloco de terra se desprendeu e caiu sobre os trabalhadores. Ao tentar fugir, caiu e quebrou o braço, mas continuou caminhando até conseguir escapar. Ao redor, segundo ele, havia pessoas feridas, algumas cobertas de lama, além de corpos sem vida. — Foi uma cena terrível. Muitas pessoas gritavam e pediam ajuda. Tive muita sorte de sair vivo. O sobrevivente afirmou acreditar que ainda há pessoas presas sob os escombros e defendeu que a segurança do local passe a ser responsabilidade do governo. Feridos chegam a hospital em estado grave A cidade de Baboua, a cerca de 50 quilômetros do local do desastre, continua recebendo sobreviventes nos hospitais. Chancelin Abdon Lakei, médico-chefe do hospital distrital da cidade, informou que nove pessoas feridas na mina foram levadas para a unidade. Uma delas morreu pouco depois de chegar. Os demais pacientes chegaram em estado grave, cobertos de lama e com fraturas e outros traumatismos. Diante da dimensão do acidente, uma equipe médica móvel foi enviada diretamente ao garimpo. Segundo Lakei, a equipe registrou outros 51 casos de ferimentos tratados no próprio local. Alguns pacientes continuam em observação, enquanto outros, que sofreram traumatismos, estão em estado crítico. Governo fecha mina e anuncia investigação Conhecido na República Centro-Africana como “Moscou-RCA”, o complexo de mineração fica próximo ao rio Kadeï, que marca a fronteira entre a República Centro-Africana e Camarões. Trata-se de um garimpo a céu aberto onde trabalham centenas de garimpeiros artesanais. Imagens do acidente analisadas pela AFP mostram uma parte do terreno se desprendendo e soterrando trabalhadores. Depois de visitar o local, o ministro das Minas e Geologia, Rufin Benam-Beltoungou, anunciou que a Justiça será acionada para identificar os responsáveis pelo desastre. Segundo o ministro, o acidente está relacionado, em grande parte, ao desrespeito às regras estabelecidas pelas autoridades para a exploração mineral. O governo também anunciou medidas para ampliar campanhas de informação e conscientização sobre os riscos do garimpo e reforçar a repressão contra pessoas que continuarem trabalhando em áreas proibidas. Tragédia provoca críticas à fiscalização Crescent Beninga, porta-voz do Grupo de Trabalho da Sociedade Civil, afirmou que o desabamento não é um caso isolado. — Não é a primeira vez que assistimos ao desmoronamento do solo em um local de mineração. Em meados de junho, um desabamento semelhante ocorreu na mina de ouro de Bé-Mbari, também no departamento de Nana-Mambéré e próxima à fronteira com Camarões. Na ocasião, várias dezenas de pessoas morreram. Beninga questionou quais medidas foram tomadas depois daquela tragédia para evitar um novo acidente. — A pergunta que fazemos é: o que fizemos para que isso não pudesse se repetir? A resposta é que nada foi feito. Segundo ele, as autoridades deveriam ter impedido o acesso aos locais de mineração mais perigosos durante a temporada de chuvas. — Quando você olha para as imagens que circulam nas redes sociais, é evidente que deveríamos ter proibido o acesso a esses locais durante a estação das chuvas. Mineração artesanal ocorre em condições precárias Desabamentos são frequentes nas minas da República Centro-Africana. O país é descrito como um dos mais pobres do mundo, embora tenha um subsolo rico em recursos minerais. Grande parte da mineração artesanal ocorre em condições precárias e, em muitos casos, fora do controle efetivo do Estado. A localização de Zamboyé, próxima à fronteira com Camarões, atrai trabalhadores de diferentes países da região. O garimpo “Moscou-RCA” reúne centenas de pessoas em busca de ouro, apesar dos riscos relacionados à instabilidade do terreno e às condições de exploração.