0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro com o líder dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca em maio de 2026 — Foto: Ricardo Stuckert / PR O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já tem um encontro marcado com o líder dos Estados Unidos, Donald Trump, após o telefonema de uma hora e vinte entre os chefes de Estado realizado na última sexta-feira (21). O brasileiro e o dirigente da Casa Branca discursarão em sequência na abertura da Assembleia-Geral da ONU em 22 de setembro, um ano após o surpreendente discurso em que Trump elogiou a “excelente química” que teve com Lula na mesma ocasião. Por tradição, o Brasil é o primeiro país a discursar no evento, que reúne autoridades de todos os países que compõem as Nações Unidas anualmente na sede da entidade em Nova York. O presidente dos EUA, por sua vez, fala em seguida. A não ser que busquem ativamente evitar um ao outro, Lula e Trump fatalmente se encontrarão nos bastidores da Assembleia-Geral sob influência do telefonema de sexta-feira que o Palácio do Planalto definiu como “amistoso e cordial”. A Casa Branca, por sua vez, não qualificou a ligação entre os presidentes, que pode servir como pretexto para uma reunião informal entre os dois em NY. O evento se dará a apenas 12 dias do primeiro turno da eleição brasileira, quando Donald Trump e seus encarregados diplomáticos e comerciais terão um diagnóstico mais preciso sobre o cenário da disputa polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL). Não há um protocolo formal que force o contato entre as duas lideranças, mas os chefes de Estado usam uma sala de reuniões nos fundos do imponente salão da Assembleia-Geral para aguardar até o momento de suas falas. Neste intervalo, é comum que presidentes usem o espaço para ensaiar o discurso e acertar detalhes de última hora com ministros e assessores, e normalmente líderes que discursam em sequência acabam se esbarrando no espaço. Foi exatamente o que ocorreu em 2025, quando Lula e Trump se encontraram por 39 segundos na chamada Sala GA-0200, como é denominada pela ONU. O encontro, como a revista piauí revelou meses depois, foi previamente articulado entre o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e Richard Grenell, assessor próximo de Trump que intercedeu à época pelo distensionamento das relações entre Brasília e Washington diante do tarifaço americano à economia brasileira em contraponto à posição do secretário de Estado, Marco Rubio, crítico da esquerda e aliado da família Bolsonaro. “Eu estava entrando [no plenário da Assembleia Geral] e o líder do Brasil estava saindo. Eu o vi, ele me viu, e nos abraçamos”, declarou o presidente americano no meio de seu discurso para a surpresa da delegação do Brasil, captada pelas câmeras da ONU. “Na verdade, ele gostou de mim, eu gostei dele. Eu só faço negócios com pessoas de quem eu gosto. Quando eu não gosto, eu não gosto”, vaticinou. Foi o primeiro encontro presencial entre os dois desde que Trump voltou à Casa Branca, em janeiro do ano passado. A conversa e os elogios do americano abriram caminho para uma vídeochamada amistosa pouco mais de duas semanas depois e, finalmente, uma agenda diplomática às margens de um evento na Malásia no fim de outubro que ampliaram as negociações por um armistício político e econômico. Depois disso, as tensões entre os dois países diminuíram e levaram à retirada do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, e a holding familiar do casal da lista de sancionados pela Lei Magnitsky. As retaliações haviam sido articuladas por Eduardo Bolsonaro, autoexilado nos EUA desde o início de 2025. O tarifaço, por sua vez, foi derrubado por decisão da Justiça americana. Após a trégua firmada em 2025 e uma visita de trabalho de Lula à Casa Branca a convite de Trump em maio deste ano, as relações entre Brasília e Washington voltaram a enfrentar turbulências depois que o americano recebeu Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca semanas depois. O republicano também anunciou dois novos tarifaços sobre o Brasil, desta vez amparados por uma ofensiva comercial amparada na chamada Seção 301 na qual os EUA se dizem prejudicados por políticas supostamente desleais da economia brasileira. Na sequência, em uma audiência no Senado americano, Rubio excluiu o Brasil da lista de aliados dos EUA e equiparou o país às ditaduras de Cuba, Venezuela e Nicarágua, historicamente rivais de Washington. Em julho passado, o Washington Post revelou que dois assessores do alto escalão do Departamento de Estado chefiado por Rubio viajariam ao Brasil para, entre outras agendas, questionar o sistema eleitoral brasileiro e a integridade das urnas, o que acirrou a crise. O Brasil posteriormente negou o visto dos auxiliares, que têm um histórico de atuação em países estrangeiros para fomentar lideranças e pautas de extrema direita em nome de Washington. Segundo o G1, Trump perguntou sobre as eleições de outubro no Brasil e Lula respondeu que a campanha tem transcorrido normalmente, ao que o presidente americano não teria rebatido. Em outro gesto de retomada do diálogo, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, anunciou na sexta que fará uma videoconferência com o chefe do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, arquiteto das sanções americanas. Não se sabe se o clima cortês e afável se repetirá nos bastidores da já famigerada Sala GA-0200 do prédio da Assembleia-Geral da ONU no mês que vem. A administração Trump é conhecida pela fragmentação entre diferentes facções de interesses distintos, com Rubio à frente da tentativa de interferir na eleição brasileira. A proximidade entre o telefonema com Lula e a Assembleia-Geral das Nações Unidas, porém, certamente ajuda a quebrar o gelo entre os dois líderes octogenários que retornaram ao poder após enfrentarem diversos processos criminais.