Mistério e beleza se misturam nos campos alagados do Brasil Central. Pois, pela primeira vez, pesquisadores documentaram a existência de cervos-do-pantanal melânicos. A espécie é o maior veado do país. Mas até agora, veados pretos eram considerados criaturas lendárias, que viviam apenas nas histórias de pescadores pantaneiros. O cervo-do-pantanal normalmente tem coloração castanha-avermelhada. Mas a pelagem dos animais melânicos é profundamente escura. Um tom fechado de castanho que se torna preto, dependendo da distância. Ninguém sabe explicar ainda a origem dos animais escuros. Existe no Pantanal uma baía chamada Cervo Preto. Ela fica perto da Estação Ecológica Taiamã (MT) e, até agora, o nome não passava de referência a um animal imaginário. Três exemplares de cervo-do-Pantanal (Blastocerus dichotomus) melânicos foram flagrados com o emprego de drones e armadilhas fotográficas. Uma fêmea no Pantanal e dois machos no Cerrado. Eles foram descobertos, por acaso, graças a um monitoramento de longo prazo da fauna. Ciência confirma pela 1ª vez a existência do veado preto no Pantanal — Foto: Eduardo Fragoso / Onçafari A fêmea pantaneira foi avistada uma única vez, mas os dois machos reapareceram. Após a realização do estudo, um terceiro macho, mais jovem, foi visto no Cerrado, destaca o biólogo Eduardo Fragoso, da Onçafari, uma ONG dedicada à conservação, e um dos autores do estudo. O caráter excepcional da descoberta mereceu registro na publicação científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos, em estudo realizado por pesquisadores da Onçafari e da Embrapa Pantanal. O cervo escuro inspira assombro. Sua existência evidencia como a biodiversidade brasileira segue pouco conhecida. — O Brasil tem muito a revelar. Mesmo um animal grande e vistoso como esse, que vive em áreas abertas, conseguiu passar despercebido por tanto tempo — salienta Fragoso. O cervo-do-Pantanal, que chega a 1,30 metro de altura, sem contar a galhada dos machos, é um dos maiores e o mais alto dos mamíferos do Brasil. — A imagem de um animal desses, tão escuro e majestoso, causa enorme impacto. Não à toa há uma mística em torno dele — afirma Walfrido Tomas, um dos autores do estudo, especialista em cervos e pesquisador da Embrapa Pantanal, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul. É também uma visão que desafia probabilidades. O melanismo é associado a uma mutação no gene da melanina, que passa a ser produzida em excesso, escurecendo os pelos. Porém, em algumas espécies é considerado uma desvantagem e, por isso, se torna extremamente raro ou inexistente. Não é vantajoso ser escuro num ambiente em que o tom avermelhado, característico do cervo-do-pantanal, traz vantagens. O avermelhado, castanho claro ou médio, é do mesmo tom da vegetação, sobretudo do capim-rabo-de-porco. Isso ajuda os veados a se camuflarem e se esconderem de predadores naturais, as onças, e de caçadores ilegais. Além disso, a pelagem escura absorve mais calor, uma desvantagem nos lugares extremamente quentes onde vivem esses cervos. A fêmea foi observada na Caiman Pantanal, base da Onçafari no Mato Grosso do Sul. Já os machos são dos campos úmidos do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, entre Minas Gerais e Bahia. O Pantanal dá nome à espécie e abriga 88% da população de cervos no país, com 40 mil animais. Lá o cervo não está ameaçado de extinção, embora a população tenha diminuído devido à perda de habitat, diz Tomas. O veado se alimenta da vegetação de alagados e as áreas úmidas têm encolhido no bioma. Tomas chama a atenção que a fêmea é o primeiro caso de melanismo em quatro décadas de estudo. Já o Parque Nacional Grande Sertão Veredas fica no Cerrado, onde o cervo-do-pantanal está criticamente ameaçado de extinção. E lá, para surpresa dos pesquisadores, os cervos escuros representaram 66,7% das observações da espécie, realizadas entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026. Uma das explicações seria que o melanismo é resultado de um gargalo genético causado pela endogamia (cruzamento entre parentes próximos). O isolamento e a pequena população deixam os cervos sem escolha de parceiros. Essa hipótese faz sentido para o Cerrado, mas não para o Pantanal, onde os cervos são numerosos e espalhados pelo bioma. Há ainda o fato de que o parque tem uma expressiva população de onças-pintadas pretas, o que também é contraintuitivo num lugar muito quente e aberto. Somado a isso, diz Fragoso, lá foram registrados um gato-palheiro e um gato-do-mato-pequeno melânicos. E, para surpresa dos cientistas, esses animais escuros não se refugiam da inclemência do sol em áreas mais frescas, como veredas e grotas. Ao contrário, são vistos sob sol a pino em áreas abertas, sem qualquer abrigo. E todos parecem fortes e saudáveis. — O que animais escuros fazem em lugares tão claros e quentes? Não temos boas hipóteses para isso até agora — observa Fragoso. Os cervos pretos são misteriosos, mas representam bem mais do que belas curiosidades. Fragoso enfatiza que estudos como esse são fundamentais não apenas para a compreensão da biodiversidade, mas para o desenvolvimento de estratégias de conservação.
A lenda é real: ciência confirma pela primeira vez a existência do veado preto no Pantanal; veja imagens
Monitoramento com drones flagra espécimes melânicos do cervo no bioma, provando que lenda popular no bioma era real






