Recusa de Lula e Bolsonaro em passar o bastão para Haddad e Tarcísio transfere para o Estado debate sobre os principais temas nacionais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad se enfrentam em debate da TV Band — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo À medida que a campanha se desenrola, vai ficando claro quanto a disputa travada em São Paulo entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad tem mais consistência programática do que aquela de que Lula e Flávio Bolsonaro se escondem e representa o que deveria ser a discussão nacional, não fossem os desígnios em grande medida personalistas do próprio petista e do pai e mentor do senador do PL. Todo mundo lembra a profusão de vezes em que Lula disse, em 2022, que não disputaria a reeleição e que aquela seria uma eleição de “transição”, cuja circunstância principal era preservar a democracia e derrotar o bolsonarismo. Boa parte do poder de atração que teve sobre o eleitor liberal que já tinha prometido nunca mais votar no PT residiu nesse canto da sereia. Lá na outra ponta do espectro, a perda de direitos políticos de Jair Bolsonaro e posteriormente sua condenação e prisão pareciam virar essa página e abrir espaço ao governador de São Paulo no cenário nacional. Não demorou muitos meses depois de Lula subir a rampa para ficar claro que a promessa de não concorrer ao quarto mandato era para inglês ver. O 8 de Janeiro e as revelações da macabra trama golpista que se desenrolou no governo do capitão serviram à perfeição para alimentar a mística de que apenas ele, e mais ninguém, seria capaz de derrotar de novo o bolsonarismo. Enquanto isso, o chefe do clã demonstrou mais uma vez, como se ainda precisasse, não ter projeto algum de país ou de consolidação da direita no Brasil, mas apenas uma lógica familiar a ditar seus desígnios — e elegeu o próprio filho para concorrer a presidente e, se vitorioso, lhe dar o indulto e a liberdade que são suas únicas preocupações. Antes que alguém se apresse a lançar o argumento de que se trata de falsa equivalência traçar paralelo na forma como os dois principais líderes populares no Brasil mexeram as peças da sucessão, não custa dizer o óbvio: não se está aqui a comparar história de vida de um e de outro, mas a atestar a evidente dificuldade que têm de passar o bastão do que hoje são os dois polos em que se organiza a política brasileira. Nem Tarcísio nem Haddad conseguem esconder a frustração com o papel que lhes foi reservado na trama por seus mentores. O governador, franco favorito numa disputa em que amealhou o apoio de partidos que não se animaram a marchar com Flávio, deixou claro na sabatina do GLOBO, Valor e CBN considerar que os grandes temas do Brasil não são tratados na disputa nacional. E o petista não negou que tenha aceitado disputar mais uma eleição fadada a resultar em derrota por pura lealdade a Lula. Caso o presidente tivesse aberto a própria sucessão, a vida de Haddad não seria fácil. Como também nada indica que os acenos do ex-chefe para 2030 lhe garantirão a vaga. Como ele mesmo disse, quatro anos é muito tempo, e as eleições ao redor do mundo têm sido pródigas em revelar vencedores surgidos do nada. Da mesma forma, Tarcísio tem consciência de que pode ter perdido o bonde, a depender do resultado do pleito de outubro. Nem ele nem ninguém bota fé nas surradas promessas de fim da reeleição por parte do filho de Bolsonaro. Ao partir para sua sétima campanha, Lula praticamente interdita o debate sobre ajuste fiscal, novas reformas e equalização de programas sociais, de cuja urgência seu ex-ministro da Fazenda tem consciência. Flávio não tem o menor repertório e preparo para tratar desses temas complexos ou conhecimento sobre as realidades distintas do Brasil, como mostra sua campanha 100% dedicada a emular a do pai oito anos atrás. Ao atarem o destino do país ao próprio, os dois campeões de amor e ódio do brasileiro reduziram a disputa a um duelo de rejeições e denúncias, e a vitória de um ou de outro não projeta um cenário de superação das graves crises institucionais que o Brasil vive há pelo menos uma década. O futuro foi, mais uma vez, adiado.
SP vê disputa que o Brasil adiou
Recusa de Lula e Bolsonaro em passar o bastão para Haddad e Tarcísio transfere para o Estado debate sobre os principais temas nacionais









