Vizinhança da vila onde ele morava conta que Cláudio Rafael era extrovertido, mas se tornou introvertido e "andarilho" após sofrer com transtornos psicológicos decorrentes de uma queda do telhado 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cláudio Rafael, aos 7 anos, brincando na escadaria da vila onde morava, em Botafogo — Foto: Álbum de família RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Cláudio Rafael, que desenvolveu transtornos psicológicos na adolescência, foi agredido até a morte após ser confundido com um ladrão de bicicleta. Imagens de câmeras de segurança registraram a agressão de seis minutos com 57 pauladas, e um dos suspeitos, que atua como segurança na região, se entregou à polícia. No momento do crime, a vítima usava uma bicicleta emprestada de sua irmã e estava sentada em frente a um edifício quando foi cercada pelos agressores. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Subir e descer correndo a escadaria da vila onde morava, em Botafogo, na Zona Sul, era uma das brincadeiras preferidas de Cláudio Rafael Landeiro Moreira quando tinha sete anos. Apaixonado pelo Bart, de "Os Simpsons", e loirinho como o personagem na época, acabou herdando o apelido. Extrovertido, era presença garantida nas festas infantis da vizinhança, sempre ao lado das irmãs — Fabiana, a caçula, e Nathália, a mais velha. Cláudio Rafael foi linchado após ser confundido com um ladrão de bicicleta. Ele morreu na madrugada do último dia 12. A vizinha Genuína da Silva, de 52 anos, abre uma caixa e retira, com cuidado, fotos coloridas em papel, envoltas em plástico, guardadas como um tesouro daquele passado. — É essa a lembrança que vou guardar dele. Ele e a Fabiana vinham para cá e ficavam brincando com o meu filho. Jogavam videogame, viam TV juntos. O Rafael tinha talento para desenhar, era muito bom mesmo. O que fizeram com ele foi uma covardia — conta Genuína, ao relembrar as cenas do espancamento de Cláudio Rafael, flagradas por câmeras de segurança de um prédio em Copacabana e exibidas pela TV. A vizinha não esconde a revolta ao lembrar a cena de barbárie: — Essas pessoas deveriam passar pelo mesmo que fizeram com ele. Ele não fazia mal a ninguém, e mesmo que tivesse roubado alguma coisa, não merecia isso. Todo mundo aqui pelas redondezas conhecia o Rafael. Depois que caiu do telhado na adolescência, ele passou a ter transtornos psicológicos. Ficou introvertido, parou de falar com as pessoas. Perdeu a noção das coisas. Imagens mostram espancamento até a morte de homem em Copacabana Outro vizinho, o estudante Guilherme, que não quis dar o sobrenome, só cruzou com ele três vezes na vila, mas guarda a lembrança de vê-lo perambulando pelo campus da UFRJ, na Praia Vermelha: — Era um andarilho — resume. Um dos seguranças flagrado no linchamento de Cláudio Rafael foi preso na noite desta quinta-feira e levado para 12ª DP (Copacabana) — Foto: Alexandre Cassiano Elizabeth Christina Rojtemberg, amiga de Ana Luíza Landeiro, de 64 anos, mãe de Cláudio Rafael, levou um susto ao saber da morte trágica do rapaz pela própria neta. — Minha neta me ligou e disse: "Vó, o Bart foi assassinado." Eu perguntei que Bart era esse, pois não sabia que esse era o apelido dele, e ela respondeu: "Rafael." Senti como se fosse meu próprio filho. Ele era um rapaz tranquilo, fazia música, rap, na verdade. Saía sempre apressado dizendo que ia produzir o programa dele na internet. Cantava muito bem, tinha voz de locutor de rádio, forte, potente. Eu vivia dizendo que ele deveria seguir essa profissão — relembra Elizabeth. Segundo a amiga da família, Cláudio Rafael também tinha um amor especial por animais. — Vivia grudado num cachorro na adolescência. Sofreu muito quando o bicho morreu — era muito sensível. Percebi que andava deprimido ultimamente. Não tive coragem nem de ir ao enterro. Ele era muito querido por aqui, todo mundo gostava dele — desabafa Elizabeth. Cláudio Rafael tinha saído para passear com a bicicleta da irmã Fabiana emprestada e parou em frente a um edifício, onde ficou sentado até ser agredido por quatro homens. Um dos agressores usava um porrete, conforme mostram as imagens das câmeras de segurança do prédio que flagraram o crime. Foram 57 pauladas em seis minutos de barbárie. Ele seria segurança da região e se entregou na 53ª DP (Mesquita) e levado preso para a 12ªDP (Copacabana), que investiga o caso. — Quando o vi ali sentado, ao assistir às imagens pela TV, me lembrei que ele costumava ficar assim mesmo, em frente à sinagoga aqui de Botafogo. Ele fica com os olhos vidrados. Estava atônito, dá pra perceber. Não tinha noção do que estava acontecendo Tanto que tentava se levantar toda hora — comentou outro vizinho, que preferiu não se identificar.