Cardiomiopatia de takotsubo foi registrado em uma mulher de 65 anos no Catar; condição pode ser desencadeada por emoções intensas, tanto positivas quanto negativas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Foto ilustrativa de mãe e filha em casamento — Foto: Reprodução | Magnific Uma mulher de 65 anos desenvolveu uma rara síndrome cardíaca após vivenciar a emoção do casamento da filha. Durante três dias, ela teve dores no peito e falta de ar e procurou atendimento médico com sintomas semelhantes aos de um infarto. Exames mostraram alterações no funcionamento do coração, mas não encontraram obstruções nas artérias, o que resultou no diagnóstico de cardiomiopatia de takotsubo, conhecida neste caso como síndrome do "coração feliz". O caso foi descrito em um estudo publicado na revista Oxford Medical Case Reports no último mês. Segundo os pesquisadores, a condição é normalmente associada a situações de forte estresse emocional, como a morte de uma pessoa próxima, um diagnóstico grave ou o fim de um relacionamento. Em situações mais raras, porém, emoções positivas intensas, como a alegria de participar de um casamento, também podem desencadear a doença. A mulher já apresentava dores no peito havia alguns meses, mas exames anteriores não haviam identificado alterações cardíacas relevantes, o que fez com que ela deixasse de comparecer às consultas de acompanhamento. Após participar do casamento da filha, os sintomas pioraram e passaram a incluir falta de ar durante atividades físicas. Inicialmente, um eletrocardiograma realizado em uma clínica mostrou alterações na atividade elétrica do coração, o que levou os médicos a decidirem pelo encaminhamento com urgência a um pronto-socorro. Quando chegou ao hospital, a dor havia diminuído, mas um novo eletrocardiograma apresentou outras alterações. Exames de sangue também mostraram níveis elevados de troponina, uma proteína liberada na circulação quando há lesão no músculo cardíaco. Em seguida, uma ultrassonografia revelou que o ventrículo esquerdo, principal câmara responsável pelo bombeamento do sangue, estava com a capacidade de contração reduzida. Cinco meses antes, a fração de ejeção do coração da paciente era de 58%. No momento do atendimento, havia caído para 35%, enquanto a faixa considerada normal costuma ficar entre 50% e 70%. O exame também mostrou um abaulamento na ponta do ventrículo esquerdo. Fortes emoções Com os resultados, a equipe diagnosticou a cardiomiopatia de takotsubo, também chamada de cardiomiopatia por estresse. A doença provoca um enfraquecimento temporário do músculo do coração e uma alteração no formato do ventrículo esquerdo, fazendo com que o órgão assuma uma aparência semelhante a uma armadilha japonesa para polvos — origem do nome "takotsubo". Transplante de coração: veja fotos de procedimento realizado no Instituto do Coração, em São Paulo 1 de 7 Coração saudável chega em geladeira para cirurgia de transplante — Foto: Maria Isabel Oliveira 2 de 7 Profissional de saúde manipula coração saudável que será transplantado, ao lado do coração doente — Foto: Maria Isabel Oliveira X de 7 Publicidade 7 fotos 3 de 7 Transplante de coração no Instituto do Coração (InCor), em São Paulo. Hospital é o que mais realiza o procedimento no país — Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo 4 de 7 O cirurgião Samuel Steffen e sua equipe médica durante cirurgia de transplante de coração no Instituto do Coração (InCor), SP — Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo X de 7 Publicidade 5 de 7 Coração saudável chega ao Incor e é preparado para transplante — Foto: Maria Isabel Oliveira 6 de 7 Coração retirado do paciente durante transplante no InCor — Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo X de 7 Publicidade 7 de 7 Equipe médica do núcleo de transplante: Roberto Kalil, diretor clínico do Incor, Fernando Bacal, diretor do núcleo de transplantes, Fábio Jatene, vice-presidente do hospital, Paulo Manuel Pêgo Fernandes, diretor da divisão de cirurgia torácica, Samuel Steffen, cirurgião, enfermeiras do núcleo de transplante; — Foto: Maria Isabel Oliveira Equipe médica realiza procedimento com cautela e precisão A síndrome pode surgir depois de uma descarga súbita de hormônios relacionados ao estresse, como a adrenalina. Apesar de os mecanismos exatos ainda não serem completamente compreendidos, os pesquisadores afirmam que tanto emoções negativas quanto positivas podem ativar o sistema nervoso simpático e provocar uma elevação desses hormônios. Quando desencadeada por acontecimentos positivos, a condição é chamada de "happy heart syndrome", ou síndrome do "coração feliz". Já a forma mais conhecida, provocada por situações emocionalmente negativas, é popularmente chamada de "síndrome do coração partido". A cardiomiopatia de takotsubo representa cerca de 1% a 3% dos casos de síndromes coronarianas agudas. Dentro desse grupo, os casos provocados por emoções positivas são ainda mais raros. Uma análise do Registro Internacional de Takotsubo, que reuniu dados de mais de 1,7 mil pacientes, apontou que emoções positivas estavam associadas a cerca de 4,1% dos casos desencadeados por fatores emocionais. A proporção, no entanto, pode não representar a frequência real da síndrome do "coração feliz", já que há poucos casos documentados e a condição pode ser subdiagnosticada. Apesar de geralmente ser reversível, a cardiomiopatia de takotsubo não é considerada uma doença inofensiva. Em casos graves, pode provocar insuficiência cardíaca e outras complicações potencialmente fatais. Os pesquisadores ressaltam que médicos devem considerar a possibilidade mesmo quando o paciente não apresenta os fatores de risco cardiovasculares mais comuns. No caso da mulher de 65 anos, o tratamento incluiu medicamentos normalmente utilizados em pacientes com insuficiência cardíaca, como betabloqueadores. Depois de estabilizada, ela recebeu alta e passou a ser acompanhada em uma clínica especializada. Em uma avaliação posterior, a função de bombeamento do coração havia se recuperado para 56%, próxima do nível registrado antes do episódio. A paciente retomou suas atividades cotidianas sem limitações. Segundo os autores do estudo, ela se recuperou completamente e agora espera acompanhar "os momentos mais felizes" dos outros filhos nos próximos anos.