O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma ofensiva para acelerar o acesso de motoristas de aplicativo e de táxi ao programa Move Brasil, linha de crédito subsidiada para a compra de veículos. Com cerca de R$ 4 bilhões emprestados em um total de R$ 30 bilhões disponíveis, o Executivo vê potencial para acelerar os empréstimos e começou a cobrar uma postura menos retraída dos bancos privados. Em meio a essa queda de braço, o governo deve publicar portaria ampliando as possibilidades de veículos a serem adquiridos, elevando o teto de preço de R$ 150 mil para 200 mil e permitindo compra de veículos híbridos a gasolina. Apesar de o volume de R$ 4 bilhões representar cerca de 40 mil veículos vendidos, equivalente a dois meses das aquisições normalmente feitas pelo público alvo do programa, há uma percepção de que as burocracias do sistema financeiro estão prejudicando o programa. Com um olho na eleição e outro na desaceleração econômica que fica cada vez mais evidente, o próprio presidente Lula tem se queixado a auxiliares do que considera burocracias impostas por bancos que dificultam o acesso ao programa e cobrado soluções. Nesta semana, o programa foi tema de duas reuniões realizadas por Lula e auxiliares no Palácio da Alvorada. Um ministro que acompanhou a conversa na terça-feira diz que o presidente está empenhado em “aumentar os números do programa”, ampliando as vias de acesso às linhas de crédito. Nas palavras desse auxiliar, o presidente deseja potencializar a iniciativa e tem sido incisivo em reuniões com integrantes do governo sobre o tema. O governo não aceita elevar os juros, apesar da insistência dos bancos, segundo relatos. A taxa é de 8,5% definidos para os repassadores. Recentemente, foi retirada uma taxa que era cobrada para as instituições acessarem o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI), que garante as operações, o que reduz um custo do setor. A defesa de spreads mais altos é que o perfil desses tomadores de crédito é de alto risco e a proteção do FGI é para apenas parte da carteira de crédito. No encontro de ontem, participaram os ministros Dario Durigan (Fazenda), Miriam Belchior (Casa Civil), Bruno Moretti (Planejamento), Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência) e Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação Social da Presidência), além dos presidentes do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, e da Caixa, Carlos Vieira. A atuação dos dois bancos está sendo elogiada dentro do governo. Desde julho, Lula tem cobrado maior celeridade para a liberação do crédito nessa iniciativa. No último dia 8, por exemplo, o petista admitiu a baixa adesão ao programa e atribuiu o problema a exigências bancárias para a aprovação dos financiamentos. — Resolvemos liberar dinheiro para financiar motocicleta aos entregadores, carro para Uber e táxi. Uma coisa maravilhosa, uma festa, todo mundo ficou muito feliz. Aí, quando a gente começa a colocar em prática, a coisa não anda. O cara vai no banco, fala, explica, aí exige uma coisa de rating (de crédito), exige uma coisa de não ter a conta — criticou o presidente em ato em São Paulo. No dia 5, ele já tinha se reunido com um grupo de motoristas que não conseguiu acesso às linhas de crédito. O ministro Guilherme Boulos também tem sido vocal nesse tema, se queixando da atuação dos bancos. Como O GLOBO mostrou, no entanto, apesar das queixas de governistas e do próprio Lula, interlocutores do presidente falam que mesmo em um cenário mais otimista, a liberação não deve ficar muito acima de R$ 10 bilhões, cerca de um terço do total disponível. Aliados do petista reconhecem que o programa tem potencial de se tornar vitrine eleitoral para a campanha à reeleição do presidente, por se tratar de um gesto do governo a um segmento que apresenta mais resistência a Lula. Nesse sentido, defendem buscar alternativas para impulsionar a iniciativa. Um vídeo da campanha de Lula divulgado nesta semana, por exemplo, lista o Move como uma das bandeiras do governo, junto com a proposta que acaba com a escala de trabalho 6x1, a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e o Programa Universidade para Todos (Prouni). A elevação do limite de preço para aquisição de veículos, que deve ser formalizada em portaria, atende à atualização dos modelos de veículos aceitos nas categorias Black e Comfort dos aplicativos, que passaram a incluir carros de maior valor.