Diferença entre as medianas salariais chega a quase R$ 57 mil, segundo dados da organização Justa 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), único que em 2025 tinha mais mulheres que homens como juízes — Foto: Divulgação / TJRJ Uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira mostra que 86% das juízas e desembargadoras do país trabalha em tribunais em que mulheres recebem menos que homens no mesmo cargo. Os dados são do levantamento "Gênero, poder e remuneração nos Tribunais de Justiça brasileiros", realizado pelo Justa, especializado em estudos focados no Judiciário. A análise coletou dados de remuneração do período de janeiro de 2024 a dezembro de 2025. Os pesquisadores calcularam a mediana dos salários, ou seja, os valores intermediários pagos para os diferentes cargos, para verificar a diferença entre homens e mulheres. Entre as juízas de primeiro grau, o estado de Minas Gerais é o que conta com a maior diferença de pagamentos medianos entre os gêneros, chegando a R$ 18.128,18 anuais a menos para as mulheres. Para as desembargadoras a diferença é mais acentuada em Rondônia, com um valor anual de R$ 56.863,92 a menos para elas. — O que a gente mostra aqui é um impacto em 86% das mulheres que integram a magistratura. Isso merece uma revisão imediata dos tribunais do próprio Conselho Nacional de Justiça (CNJ) — diz Luciana Zaffalon, diretora executiva do Justa. O estudo também identificou mudanças em consequência de uma resolução do CNJ, de 2023, que estabeleceu uma meta de 40% a 60% de desembargadoras em cada tribunal. O número de desembargadoras foi o que mais cresceu entre 2024 e 2025, com um aumento de 14%, ante um crescimento de 5% de juízas. Rondônia, por exemplo, antes não tinha nenhuma desembargadora e, no fim do ano passado, contava com três. A chegada recente das mulheres nessa etapa da carreira ajuda a explicar a diferença salarial identificada pela pesquisa. A diferença salarial líquida entre homens e mulheres é menor para as desembargadoras. No ano passado, 48% das desembargadoras ganhavam menos que os homens, enquanto o mesmo índice chega a 56% entre as juízas de primeiro grau. — A resolução (do CNJ de 2023) está gerando resultados concretos. O percentual de juízas com rendimento líquido inferior ao de juízes é de 56%. Quando a gente olha para o universo das desembargadoras, esse percentual diminuiu de 56% para 48%. Ou seja, progredir na carreira também significa sofrer menos com as desigualdades remuneratórias — afirma Luciana. Durante o levantamento também foram encontrados 14 pagamentos mensais superiores a R$1 milhão em um único mês. Todos esses supersalários foram pagos para homens. Também foram identificados 83 repasses entre R$500 mil e R$1,7. Em 82% dos casos, os destinatários eram do sexo masculino. Os dados identificaram que a proporção de juízas nos tribunais é menor que a proporção de mulheres na população brasileira (51,5%) em 24 dos 25 estados analisados. O único estado que foge à regra é o Rio de Janeiro, onde 52% dos juízes são mulheres. Os tribunais Tocantins e Piauí, com 29%, têm as piores distribuições de gênero para a função. Para desembargadoras, nenhum estado atingiu alcançou o percentual de mulheres na população. Até 2024, o TJ do Pará tinha 55% de mulheres nessa etapa da carreira, mas em 2025 o índice caiu para 48%. No Mato Grosso do Sul, apenas 6% dos desembargadores eram mulheres no ano passado. Dos tribunais analisados, em apenas quatro deles mulheres ocupavam cargos de presidência até junho de 2026: Espírito Santo, Paraná, Sergipe e Tocantins. — A desigualdade de acesso a cargos de poder também desemboca em desigualdade remuneratória. Só termos quatro tribunais são presididos por mulheres é uma evidência muito forte de gabinetes de homens que distribuem poder e, portanto, remuneração — afirma a diretora executiva do Justa. Os únicos estados que não tiveram dados coletados pelo estudo, por falta de transparência ou indisponibilidade das informações em um formato que permita análises, foram Amapá e Santa Catarina. Os pesquisadores também não conseguiram analisar variáveis como raça, por falta de detalhamento por parte dos tribunais. O CNJ realizou, até o dia 14 de agosto, uma consulta pública para aprimorar o painel de remuneração dos magistrados, que disponibiliza informações sobre os salários dos tribunais. Luciana vê o momento como uma oportunidade para ampliar a qualidade das informações sobre a magistratura e obter dados sobre gênero e raça. O Justa encaminhou ao CNJ uma série de sugestões para o aprimoramento da ferramenta, como, além dos dados sobre a cor dos magistrados, a inclusão de informações sobre cargos exercidos e a disponibilização também da base de dados que alimenta o painel de forma pública. — Muito tem se falado sobre uma mulher negra no Supremo Tribunal Federal. Vale dizer que o Brasil tem dois tribunais superiores. O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) tem 33 ministros, só 18% de mulheres. Ainda em 2026, três vagas do STJ terão que ser preenchidas, oriundas dos Tribunais de Justiça. E uma delas é a do Marco Buzzi, que acabou de ser afastado por assédio e diversas questões vinculadas a gênero. Nossa pesquisa mostra precisamente a realidade dos Tribunais de Justiça, que darão origem a esses novos ministros. É a chance de mostrar o quão urgente é que os processos do STJ para a composição dessas três vagas se orientem pela redução das desigualdades — finaliza Luciana. Desigualdade também atinge Ministérios Públicos A pesquisa levou em consideração a média anual de rendimento líquido pago a cada membro ativo do MPF e de 21 dos 27 MPs estaduais, uma vez que parte dos estados não fornece bases salariais estruturadas para a realização da pesquisa. Como parte da metodologia, analisaram 113.112 registros de remuneração ao longo de 2024, excluindo distorções, e um cruzamento de dados com o Portal de Transparência, para aferir dados censitários entre homens e mulheres. No ramo federal, as mulheres são apenas 30% da força de trabalho. São minoria nos cargos de procuradores federais (29%), procuradores regionais da República (32%) e subprocuradores-gerais (29%). Já no âmbito estadual, são 41%, apesar de os únicos estados com procuradoras-gerais de Justiça serem Piauí, Santa Catarina e Amazonas. Além disso, o único MP com a proporção de promotoras e procuradoras superior ao número de mulheres da população brasileira (51,5%, segundo o IBGE) é o Rio de Janeiro, onde elas são 57% da força de trabalho. Também é nos estados em que os impactos das diferenças salariais são mais sentidos. Em 13 dos 21 MPs estaduais analisados, mais da metade das mulheres é impactada por salários inferiores que os recebidos pelos homens. Em localidades como Alagoas, Piauí e Paraíba, todas as promotoras e procuradoras tiveram média anual de rendimento líquido total inferior à contabilizada por homens que ocupam os mesmos cargos.
Nove em cada dez juízas ou desembargadoras trabalham em tribunais que pagam menos às mulheres, mostra pesquisa
Diferença entre as medianas salariais chega a quase R$ 57 mil, segundo dados da organização Justa







