Dos 39 candidatos que registraram Lula ou Bolsonaro no nome que pretendem levar às urnas neste ano, ao menos sete estão na mira do Ministério Público Eleitoral (MPE). Procuradores em diferentes estados pediram à Justiça Eleitoral que impeça o uso das referências aos dois líderes políticos sob o argumento de que candidatos sem vínculo familiar podem confundir o eleitor, sugerir uma relação inexistente e provocar migração indevida de votos. Os pedidos atingem seis candidatos que incorporaram Bolsonaro ao nome de urna e um que recorreu a Lula. Estão na lista “Alessandro Bolsonaro”, no Distrito Federal; “Negona do Bolsonaro” e “Renato Araújo do Bolsonaro”, no Rio de Janeiro; “Rodrigo Bolsonaro”, no Rio Grande do Norte; “Bruno Bolsonaro Scheid”, em Rondônia; “Fabiana Bolsonaro”, em São Paulo; e “Cadu de Lula”, também no Rio Grande do Norte. Os sete fazem parte do grupo identificado em levantamento do GLOBO a partir dos dados da Justiça Eleitoral. Ao todo, Bolsonaro aparece no nome de urna de 29 candidatos neste ano, enquanto Lula está em outros dez registros, sem contar o próprio presidente. A lista vai de integrantes da família do ex-presidente a candidatos sem parentesco que adotaram identificações como “Bolsonaro da Shopee”, “Lula da Tapioca” e “Lula Tio do Biscoito”. Agora, parte desses nomes pode não chegar à urna da forma como foi registrada. Os pareceres são apresentados pelo Ministério Público Eleitoral aos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) de cada estado, a quem cabe a decisão sobre os registros. Embora sejam casos distintos, os procuradores têm recorrido a uma tese semelhante: a legislação permite o uso de apelidos ou nomes pelos quais os candidatos sejam conhecidos, mas impõe como limite que a escolha não provoque dúvida sobre sua identidade. No Rio Grande do Norte, a discussão colocou os nomes dos dois principais líderes políticos do país em lados opostos da mesma disputa. O MPE pediu que Carlos Eduardo Xavier, candidato do PT ao governo, seja impedido de concorrer como “Cadu de Lula”. Também se manifestou contra “Rodrigo Bolsonaro”, nome escolhido por Karlo Rodrigo Lucio Vieira, do Agir, para disputar o mesmo cargo. No caso de Cadu, o procurador regional eleitoral Fernando Rocha de Andrade argumentou que o candidato não possui relação familiar com Lula e que, antes da eleição, já era identificado como “Cadu Xavier” em registros oficiais e na imprensa. Na avaliação do MPE, acrescentar o nome do presidente pode gerar dúvida sobre sua identidade e provocar migração de votos. Caso o pedido seja acolhido, a Procuradoria sugere que ele apareça na urna como “Cadu Xavier”. A campanha do petista sustenta que a identificação nasceu de forma espontânea e traduz um vínculo político com o presidente. O argumento usado contra “Rodrigo Bolsonaro” segue a mesma linha. O MPE apontou que o documento de identidade apresentado no processo não traz o sobrenome Bolsonaro e que tampouco há essa identificação entre seus familiares. Para a Procuradoria, o nome pode sugerir um vínculo inexistente com o ex-presidente e induzir eleitores ao erro. A sugestão é que o candidato seja registrado como “Karlo Rodrigo”. Sósia de Bolsonaro também entra na mira No Distrito Federal, o MPE se manifestou contra o nome escolhido por Alessandro Gonçalves de Almeida, candidato a deputado distrital conhecido por ser sósia de Jair Bolsonaro. Ele pretende aparecer na urna como “Alessandro Bolsonaro”. Ao pedir que a identificação seja rejeitada, o Ministério Público citou precedentes da Justiça Eleitoral segundo os quais a utilização do sobrenome “Bolsonaro” pode indicar parentesco e, quando adotada por quem não integra a família, gerar dúvida sobre a verdadeira identidade do candidato e causar desequilíbrio na disputa. Alessandro é um dos dois “Bolsonaros” registrados no Distrito Federal neste ano. A outra é Michelle Bolsonaro, que concorre ao Senado e, diferentemente do candidato a deputado distrital, carrega o sobrenome civilmente. No Rio de Janeiro, onde Jair Bolsonaro construiu sua carreira política, dois dos quatro candidatos que registraram alguma referência ao ex-presidente também tiveram a escolha contestada. Um deles é Renato de Araújo Correa, candidato a deputado federal pelo PL, que pediu para concorrer como “Renato Araújo do Bolsonaro”. O MPE se manifestou contra o nome e argumentou que a inclusão do sobrenome de uma personalidade política por alguém sem parentesco pode induzir o eleitor a erro e gerar “migração indevida de votos”. O parecer se apoia em jurisprudência recente do próprio Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro sobre a apropriação de sobrenomes de figuras políticas no nome de urna. Vanessa da Silva Oliveira, também candidata a deputada federal, enfrenta questionamento semelhante. Ela registrou “Negona do Bolsonaro” como identificação eleitoral. A discussão chegou ainda a Rondônia, onde Bruno Scheid pretende concorrer ao Senado como “Bruno Bolsonaro Scheid”, e a São Paulo, onde Fabiana de Lima Barroso Souza registrou “Fabiana Bolsonaro” para disputar uma cadeira de deputada estadual. Os pedidos ainda serão julgados pelos respectivos tribunais. De 39 nomes, sete já são questionados Os pareceres abrem uma nova frente sobre um fenômeno que diminuiu em relação às últimas eleições, mas continua espalhado pelo país. Levantamento do GLOBO mostrou que 29 candidatos registraram Bolsonaro no nome de urna em 2026, uma queda de 35% em relação aos 45 que fizeram a mesma escolha nas eleições gerais de 2022. No caso de Lula, são dez candidatos neste ano, sem contar o próprio presidente, ante 14 há quatro anos — redução de 29%. A queda é ainda maior na comparação com as eleições municipais de 2024, quando 75 candidatos a prefeito ou vereador recorreram a Bolsonaro e 162 usaram Lula no nome de urna. A comparação, porém, é limitada pela diferença de escala entre os pleitos, já que as eleições municipais colocam em disputa milhares de cargos a mais. Entre os 29 “Bolsonaros” deste ano, sete pertencem à própria família do ex-presidente. Flávio disputa a Presidência; Michelle concorre ao Senado pelo Distrito Federal; Carlos tenta uma cadeira na mesma Casa por Santa Catarina, onde Jair Renan concorre a deputado federal; Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, busca uma vaga na Câmara por São Paulo; Marcelo Bolsonaro, primo de Jair, disputa a Assembleia Legislativa paulista; e Rogéria Bolsonaro, primeira mulher do ex-presidente e mãe de Flávio, Carlos e Eduardo, é candidata a deputada federal no Rio. Fora da família, os registros incluem aqueles que acrescentaram a referência política ao nome de urna. É sobretudo sobre este último grupo que recaem os questionamentos apresentados pelo Ministério Público. A regra eleitoral permite que o candidato utilize prenome, sobrenome, cognome, nome abreviado, apelido ou o nome pelo qual seja mais conhecido. A escolha, porém, não pode estabelecer dúvida sobre sua identidade, atentar contra o pudor nem ser ridícula ou irreverente.
‘Cadu de Lula’ e ‘Rodrigo Bolsonaro’: MP Eleitoral tenta barrar sete candidatos que usam nomes de líderes políticos nas urnas
Procuradores alegam risco de confusão e indução do eleitor ao erro; pareceres atingem seis registros associados ao ex-presidente e um ao petista








