Natalie Harp, de 35 anos, é uma das assessoras mais próximas do presidente e atua como uma espécie de ‘guardiã’ do acesso ao republicano 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A assessora da Casa Branca, Natalie Harp, observa enquanto o presidente Donald Trump discursa durante uma reunião bilateral ampliada com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, no complexo presidencial em Ancara, Turquia, em 7 de julho de 2026 — Foto: Doug Mills / The New York Times Ela nunca tira um dia de folga, nem mesmo aos domingos. Trabalha no Salão Oval e tem um lugar cativo no Marine One, o helicóptero presidencial americano. Envia mensagens de texto para líderes mundiais em nome do presidente. Fica acordada até tarde com ele, elaborando publicações para as redes sociais. Ela raramente aparece diante das câmeras e, ainda assim, está sempre por perto, onipresente, com um sorriso largo e os olhos fixos no presidente. Ela é Natalie Harp, assessora de 35 anos da Ala Oeste que se tornou uma das principais responsáveis por controlar o acesso ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — uma espécie de canal individual de informações que opera completamente fora da cadeia de comando habitual. O interesse do público por Harp explodiu depois que foi revelado, na semana passada, que ela estava entre as poucas pessoas que acompanharam o presidente dentro de um contêiner de transporte de refeições e suprimentos de serviços de bordo, usado para retirá-lo às pressas da Turquia sob ameaça de um ataque iraniano. Nesta semana, ela foi alvo de críticas do senador Jon Ossoff, democrata da Geórgia, que afirmou sobre o presidente: — Ele não quer fazer o trabalho. Quer construir seu salão de festas e viajar com Natalie em seu palácio voador aparentemente indefeso, presenteado pelo emir do Catar. A menção a Harp pelo senador provocou uma reação particularmente feroz em vários setores do universo de Trump. Assessores da Casa Branca, parlamentares do Capitólio, influenciadores conservadores e pelo menos um integrante do gabinete partiram em defesa de Harp na plataforma X. Houve acusações de sexismo vindas da direita e acusações de sensibilidade excessiva vindas da esquerda. Trump desconversou quando um repórter da CNN perguntou sobre os comentários de Ossoff. Mas uma conta nas redes sociais administrada pelo governo então atacou o jornalista em termos incomumente pessoais, fazendo referência aos filhos dele. A polêmica aumentou os holofotes sobre essa mulher pouco conhecida do público e de aparência delicada, que há muito tempo desperta fascínio e frustração entre as pessoas próximas ao presidente. Esta reportagem é baseada em entrevistas com seis pessoas que conhecem a função de Harp. A assessora não respondeu a um pedido de comentário. O poder singular que Trump lhe concede diz muito sobre a maneira como ele exerce a Presidência. Enquanto Harp está por perto, ele desfruta de um fluxo de informações não verificadas, parte delas venenosas e contraproducentes, pelo menos na avaliação de vários de seus outros assessores. Ela fornece a ele conteúdos que encontra no submundo das redes sociais — como o vídeo que ele postou retratando os Obama como macacos — e oferece uma visão do mundo fora da Washington oficial, ambiente pelo qual Trump sempre demonstrou desconfiança. Seu apelido é “a impressora humana”, porque ela acompanha o presidente com uma impressora portátil para poder entregar informações a ele em papel. Ela é uma espécie de fonte inesgotável de positividade, sempre pronta para animá-lo quando as coisas ficam difíceis. Acredita — ou pelo menos afirma acreditar veementemente — que Trump venceu a eleição de 2020. No livro "Regime Change", dos repórteres do New York Times Maggie Haberman e Jonathan Swan, Trump é descrito explicando às pessoas que Harp é a única que o ama tanto quanto sua esposa e seus filhos. Todos os outros funcionários, segundo Trump, iriam embora para ganhar dinheiro, mas Harp jamais o abandonaria. — Natalie Harp é uma das assessoras mais leais e trabalhadoras da equipe do presidente Trump — afirma Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca que em breve deixará o cargo, em resposta a perguntas do Times sobre a natureza da função de Harp e sobre por que ela foi escolhida para acompanhar o presidente na operação secreta de retirada usando um caminhão de entrega de comida. Em alguns aspectos, Harp ocupa uma função que Trump sempre exigiu, desde os tempos em que era empresário do setor imobiliário em Manhattan. Naquela época, havia sempre secretárias sentadas do lado de fora de seu escritório, no 26º andar da Trump Tower, prontas para agir a qualquer momento. Ele se referia a essas mulheres como “as garotas”. Harp recebe um salário de US$ 150 mil (cerca de R$ 773 mil), pago pelos contribuintes. Seu cargo tem uma denominação dupla: assistente especial do presidente e assistente executiva do presidente. No trabalho, ela pode ser um tanto solitária. Mesmo nesta Ala Oeste, onde a lealdade ao presidente parece não ter limites, as demonstrações de devoção de Harp deixaram alguns de seus colegas desconfortáveis. Vários vídeos compartilhados com o Times mostram Harp correndo por grandes distâncias para acompanhar o carrinho de golfe de Trump enquanto o presidente circulava lentamente por seu campo na Escócia. "Também sinto muito se fui motivo de constrangimento ao caminhar pelo campo na Escócia”, escreveu ela em uma carta ao presidente, vista pelo Times. A carta continua: “Quero que as coisas estejam sempre bem entre nós. Também sei que estive distraída durante toda a semana (esquecendo de comer ao longo dos dias e até esquecendo de dormir, conseguindo apenas algumas horas de sono por vez)”. A carta termina: “De todo o coração, Natalie.” Ela cresceu na Califórnia. Na quarta-feira, seu irmão, com quem aparentemente está afastada, concedeu uma entrevista à CNN. Sobre a irmã, ele afirmou: — Eu diria que, desde que ela tinha uns 16 anos, ela tem uma obsessão com, hum, meu Deus, como eu explico isso? Bom, ela escrevia cartas para outros presidentes, digamos assim — explicou, dizendo se referir a George W. Bush. A ligação de Harp com Trump é profunda. Ela atribui ao presidente o fato de ter salvado sua vida. Ela já afirmou que sofreu de câncer ósseo e que foi uma lei sancionada por Trump em 2018 que lhe permitiu ter acesso a tratamentos experimentais. No entanto, Harp nunca revelou publicamente quais tratamentos recebeu. Ela contava essa experiência à Fox News em 2019 quando chamou a atenção do presidente. Trump a convidou para discursar na Convenção Nacional Republicana de 2020. Nos dois anos seguintes, ela passou a repetir suas alegações falsas sobre a eleição como apresentadora da emissora de extrema direita One America News Network. Em 2022, finalmente entrou para a equipe dele. Um documentário no estilo "War Room", filmado durante a campanha de Trump em 2024 e intitulado "Art of the Surge", mostra alguns momentos de Harp trabalhando intensamente. — Política nunca foi algo de que eu gostasse — explica ela em uma cena filmada em Mar-a-Lago. — Mas, quando fiquei doente, comecei a assistir aos debates republicanos. Ele foi meu primeiro contato com a política, e eu adorei. Tipo, esse cara entende. O filme corta para Trump apresentando Harp em 2019, durante uma conferência da Faith & Freedom Coalition chamada “Road to Majority”. — Eles estavam se preparando para a morte dela — diz ele. — O nome dela é Natalie Harp e, por causa do "direito de tentar", ela está viva agora e acho que está indo fenomenalmente bem. E alguém disse que ela está aqui. Você está aqui, Natalie? Onde está Natalie? Você poderia vir aqui, por favor? A mulher que atravessa o palco para abraçá-lo ainda não é a assessora de Trump que se tornaria pouco tempo depois. — Eu tinha câncer e ele salvou minha vida, sancionou aquela lei — conta ela no filme. — E, desde que descobriu, ele continuou em contato comigo. Certificou-se de que eu estava bem.