Homem conhecido como 'menino lobo da Serra Morrena' morreu no último sábado (15) 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Marcos Rodríguez viveu isolado com lobos por 12 anos e morreu aos 80, em agosto de 2026 — Foto: Reprodução | X Marcos Rodríguez Pantoja, conhecido como o “menino lobo da Serra Morena”, morreu aos 80 anos no último sábado, dia 15, em Ourense, na Espanha. Nascido em Añora, na província de Córdoba, ele passou mais de 12 anos da infância e juventude vivendo isolado nas montanhas, em contato com animais selvagens, principalmente lobos. A história foi transformada em estudo antropológico, livro e filme. Marcos tinha cerca de seis anos quando foi vendido pelo pai a um pastor de cabras que vivia na Serra Morena. A infância já havia sido marcada pela pobreza e pela violência. Após a morte da mãe, o pai teria deixado o menino aos cuidados do pastor, que se tornou sua principal referência familiar e lhe ensinou a sobreviver na região. O pastor morreu quando Marcos ainda era criança. Sem contato humano estável, ele permaneceu sozinho na serra e aprendeu a obter alimentos e a se proteger utilizando os recursos disponíveis na natureza. Ao longo de mais de uma década, conviveu com lobos e outros animais e desenvolveu formas próprias de comunicação, incluindo sons semelhantes a uivos. Em entrevista ao programa “Informe Semanal”, da TV espanhola, Marcos contou que não conhecia o dinheiro durante o período em que viveu na mata, mas não passava fome. — Eu não sabia o que era dinheiro, mas a comida não faltava. Ele também relatou a relação que estabeleceu com os lobos: — Se eu queria pescar, pescava no rio; se queria um coelho, pegava. Se queria um cervo, chamava meus pais, que eram os lobos. Retorno à sociedade Marcos foi encontrado pela Guarda Civil espanhola e levado de volta à sociedade. A readaptação, no entanto, foi difícil. Ele precisou reaprender hábitos cotidianos, como falar, caminhar de maneira convencional e comer utilizando talheres. O período posterior à vida na serra também foi marcado por maus-tratos, abusos e golpes. As experiências contribuíram para que desenvolvesse desconfiança em relação aos adultos. Segundo Arturo Arcones, amigo e companheiro de trabalho de Marcos em seus últimos anos, ele era “muito desconfiado com os adultos e encantador com os pequenos”. Os dois participaram de atividades com crianças sobre educação ambiental. Saberes ancestrais: povos indígenas e comunidades tradicionais na proteção da natureza 1 de 5 Povo maasai e aldeia no Serengeti, Tanzânia — Foto: Divulgação Conservação Internacional 2 de 5 Povo maasai e aldeia no Serengeti, Tanzânia — Foto: Divulgação Conservação Internacional X de 5 Publicidade 5 fotos 3 de 5 Tecelãs tacana de Tumupasa. Vindas de Tumupasa, no coração da Amazônia boliviana setentrional, as artesãs tacana produzem tecidos com fibras naturais coletadas em seu território. Elas utilizam técnicas tradicionais de fiação, tingimento com plantas nativas e tecelagem em teares manuais, preservando padrões geométricos e símbolos característicos de sua cultura — Foto: Divulgação Conservação Internacional 4 de 5 As tecelãs tacana participaram de uma demonstração ao vivo de tecelagem para promover seus produtos na loja Mistura, onde atualmente comercializam suas peças, na Bolívia — Foto: Divulgação Conservação Internacional X de 5 Publicidade 5 de 5 A Área Marinha Protegida (AMP) da Ilha Fam foi oficialmente criada em fevereiro de 2017 por líderes da comunidade indígena papuana e pelo Governo da Regência de Raja Ampat. A AMP não apenas contribui para a recuperação dos estoques pesqueiros e funciona como uma barreira contra os efeitos das mudanças climáticas, mas também gera empregos e fortalece a autonomia da comunidade local — Foto: Divulgação Conservação Internacional Imagens mostram povos indígenas e comunidades tradicionais de diferentes regiões do mundo que mantêm práticas culturais e formas próprias de gestão do território, contribuindo para a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas Depois de deixar a vida na serra, Marcos serviu ao Exército, trabalhou como pastor e também na hotelaria. Durante um período, viveu em condições precárias em Fuengirola, na província de Málaga. Em 2001, mudou-se para a aldeia de Rante, em Ourense, onde encontrou um novo lar. No local, foi acolhido pelo ex-policial Manuel Barandela Losada. A partir daí, passou a dedicar parte da vida a contar sua história em escolas, acampamentos e outros espaços, especialmente para crianças. — Acariciem mais seus animais de estimação. As máquinas só são ligadas na tomada, enquanto os animais pedem carinho — costumava dizer. História estudada pela antropologia A trajetória de Marcos despertou o interesse do antropólogo e escritor Gabriel Janer Manila, da Universidade das Ilhas Baleares. Entre novembro de 1975 e abril de 1976, ele acompanhou Marcos para estudar sua experiência e posteriormente produziu uma tese de doutorado sobre o caso. A história também deu origem ao livro "He jugado con lobos" (Brinquei com lobos) e ao filme "Entrelobos", dirigido por Gerardo Olivares e lançado em 2010. Marcos participou das filmagens e ajudou na construção da representação de sua própria história. Em entrevistas, afirmava que o período mais feliz de sua vida havia sido justamente aquele vivido com os lobos. Em uma ocasião, segundo Arcones, ao avistar cervos durante uma viagem de carro, pediu que o veículo parasse, correu para o mato e desapareceu. Cerca de 45 minutos depois, reapareceu atrás do grupo, imitando um javali. Marcos morreu durante as festas patronais da região de Rante. Amigos e moradores se despediram dele no domingo. Em mensagem publicada nas redes sociais, a prefeitura de San Cibrao das Viñas, município ao qual pertence a aldeia, lamentou a morte. — Marcos chegou a Rante com uma história que o mundo conhecia. Vai embora deixando aqui uma história que também faz parte da nossa — afirmou a prefeitura.