Presença de hidrocarboneto ainda não indica viabilidade comercial de petróleo ou volume de reservatórios, dizem analistas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O anúncio da Petrobras na noite de sexta-feira (14) sobre presença de hidrocarboneto na perfuração na Bacia da Foz do Amazonas ainda é inconclusivo, segundo especialistas ouvidos pelo Valor. O comunicado da companhia não deixa claro se o material encontrado é petróleo ou gás ou se há viabilidade comercial. Segundo a Petrobras, a presença de hidrocarbonetos foi constatada por meio de perfis elétricos e indicativos em rocha. As operações de perfuração permanecem em curso, segundo a estatal, visando a continuidade da avaliação exploratória. A companhia também não aponta a qual distância a perfuração está em relação ao reservatório. A Petrobras já fez a notificação de descoberta à Agência Nacional de Petróleo (ANP), apurou o Valor. Segundo um geólogo próximo à Petrobras ouvido pela reportagem, não há qualquer pista sobre economicidade do material encontrado. "Ter hidrocarbonetos é um ótimo sinal, mas recomendaria cautela quanto a comercialidade e volumes", disse. Para Marcus D'Elia, sócio da Leggio Consultoria, ainda não se pode dizer que descobrimos petróleo ou que a Margem Equatorial será a nova reserva do país. "Não há ainda informação de volume e menos ainda de viabilidade comercial", disse o consultor. "O anúncio significa apenas que existem sinais de petróleo ou gás na amostra de rocha recuperada e nas medições realizadas com instrumentos. A visão é muito preliminar", afirmou D'Elia. O anúncio da Petrobras surge na sequência de uma retomada de diálogo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), com a consequente sinalização de retomada de votação de pautas do governo. Alcolumbre informou nesta semana o encaminhamento às comissões do Senado de três pautas consideradas prioritárias pelo governo: a PEC que prevê o fim da escala 6x1, a PEC da Segurança Pública e o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Na sexta-feira (14), após o comunicado da Petrobras, Alcolumbre publicou um vídeo nas redes sociais comemorando o anúncio: "Acabei de receber telefonema da doutora Magda, presidente da Petrobras, informando que foi encontrado petróleo na costa do Amapá. O Amapá lutou há mais de 10 ano pelo direito de pesquisar essa riqueza, que sempre defendi que era do povo amapaense e do Brasil. O Amapá poderá a partir dessa riqueza trazer frutos, desenvolvimento e progresso para o povo". Histórico da Foz do Amazonas é conturbado A Bacia da Foz do Amazonas é uma das que compõe a chamada Margem Equatorial brasileira, área que vai do Rio Grande do Norte ao Amapá. Além da Foz, as outras bacias da área são: Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar. Na Potiguar, que fica entre o Rio Grande do Norte e o Ceará, a Petrobras já atua desde 2023 e encontrou acumulação de petróleo em águas ultraprofundas. O caso da Foz do Amazonas é mais sensível. A companhia recebeu licença ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) em outubro de 2025 para buscar petróleo na região, considerada crítica sob o ponto de vista socioambiental. No entanto, desde 2023, a Petrobras recebeu respostas negativas do órgão ambiental para o pedido de licenciamento ambiental no bloco FZA-M-59, que fica a 175 quilômetros de distância da costa do Amapá e a mais de 500 quilômetros da foz do rio Amazonas. A Petrobras ainda tem previsão de perfurar outros poços próximos ao atual, mas aguarda autorização do Ibama. Para Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, o anúncio da Petrobras não soluciona os problemas registrados no respectivo licenciamento ambiental. Para ela, a companhia usa uma base desatualizada para estudar os movimentos de correntes do local, o que prejudica a modelagem de dispersão do óleo em caso de acidente. "Como a Petrobras já iniciou a pressão política pela perfuração de mais três poços na mesma área, impõe-se exigir, no mínimo, a correção desses problemas e ilegalidades", disse Araújo, que afirmou que o Observatório do Clima e seus parceiros darão continuidade às medidas judiciais em curso sobre esse caso. — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg