Taxas superam a inflação e são ainda mais expressivas em bairros como o Centro e o Jardim Botânico 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Alta de 88% . Valor do condomínio no Marquês do Herval, edifício comercial e residencial na Avenida Rio Branco, no Centro, explodiu após a pandemia — Foto: Márcia Foletto Moradores de diferentes regiões do Rio estão sentindo no bolso o avanço das taxas de condomínio. O impacto, porém, varia de acordo com o bairro e com as características de cada prédio: enquanto alguns edifícios conseguem segurar os custos com mudanças na gestão e na estrutura de funcionários, outros enfrentam aumentos que já pressionam o orçamento e até levam inquilinos a renegociar o aluguel ou procurar outro imóvel. Um levantamento do Secovi-Rio mostra que as taxas subiram acima da inflação em diversas áreas da cidade nos 12 meses encerrados em junho Confira a seguir os bairros com maior e menor variação: Alta não pesa da mesma maneira pela cidade: Centro (11,8%) e Jardim Botânico (9,3%) aparecem no topo, enquanto Campo Grande (4,2%) e Lagoa (3,3%) têm as menores variações — Foto: Arte O GLOBO No Centro, onde os condomínios tiveram a maior alta, de 11,8%, o sociólogo Danilo Bresciani viu a própria conta praticamente dobrar desde que se mudou para o Edifício Marquês do Herval, na Avenida Rio Branco, no fim da pandemia. Na época, os corredores do prédio, que tem mais de 600 unidades, ainda estavam quase vazios. Com os incentivos criados para estimular a moradia na região, como a isenção de IPTU, ele aproveitou para se mudar e passou a pagar pouco mais de R$ 400 de aluguel, além de R$ 515 de condomínio. Em 2026, a taxa condominial aumentou 88%. — Fiquei surpreso com esse valor quase dobrado. Fui até perguntar o que aconteceu. Quando me mudei, não tinha quase ninguém. No meu andar, são 20 apartamentos e só tinha eu. Com o tempo, as pessoas foram morar lá, o consumo de água aumentou e acho que isso impactou na taxa do condomínio — diz o morador do edifício residencial e comercial, que existe desde 1956. — Ainda teve instalação de biometria recentemente. E acho que o uso dos elevadores também deve impactar essa taxa por conta do consumo geral de energia com essa movimentação maior. São oito. O segundo bairro carioca com a maior alta nas taxas de condomínio foi o Jardim Botânico, na Zona Sul. A alta chegou a 9,3%, também acima da inflação. O aumento já pesa no orçamento de recém-chegados. É o caso da jornalista Mariana Neves, de 31 anos, que mora com o namorado em um prédio próximo ao Hospital da Lagoa. Menos de dois anos atrás, o custo, além do aluguel, era de R$ 1.600. Hoje, chegou a R$ 2 mil. No total, são 22 unidades, com elevador, biometria e portaria 24 horas. Não há área de lazer, nem novos moradores como no Edifício Marquês do Herval. — Tivemos que negociar com a proprietária para baixar o valor do aluguel para compensar o aumento do condomínio. Segundo ela, há conversas entre proprietários e o síndico para arrumar maneiras de diminuir essa despesa. Ainda assim, estamos procurando apartamento em outros bairros — afirma ela. Na Zona Norte, moradores também têm tido dor de cabeça com aumentos das taxas. Muitos proprietários têm sido pressionados a baixar o valor do aluguel para viabilizar a permanência dos inquilinos, cujas contas apertam com a alta do condomínio. Madureira e Méier encabeçam a lista de bairros com o maior valor de condomínio em relação ao aluguel. Dados do Secovi-Rio apontam que, em Madureira, esse percentual chega a 48,5% e, no Méier, a 46,8%. É como se alguém que paga mil reais de aluguel tivesse um condomínio de R$ 468, por exemplo. — Quando eu tenho um valor de condomínio muito elevado, vou ter que baixar o aluguel para viabilizar que esse imóvel seja alugado, ou para que as pessoas se mantenham nele. Quem está alugando quer ver todos os insumos, condomínio, locação e IPTU, para ver se a conta fecha. Então, a preocupação do estudo foi a de entender até quando o valor do condomínio impacta negativamente o valor do aluguel — diz Marcelo Borges, presidente da Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis (Abadi). Pressão nas contas Os gastos com água e segurança estão entre os principais pesos das contas dos condomínios, segundo especialistas. A conta de água representa de 7% a 8% do valor do condomínio, mas, em algumas regiões, sobretudo no Centro, o impacto chega a 40%. Outro peso é a inadimplência. — Para entendermos as justificativas em cenários macro, sem o aprofundamento nas regiões, um item bem importante foi o aumento da inadimplência, que superou dois dígitos. A última medição indicou crescimento de 13%. Isso gera um reflexo no rateio das contas — diz Borges. As medidas para contenção de gastos adotadas por administradoras ou por síndicos também impactam a folha de pessoal. Há casos em que, inclusive, há irregularidades e acúmulo de função, como faxineiros atuando como porteiros sem a remuneração devida. Mas há empresas que orquestram transições de outra maneira. Num condomínio na Avenida Pasteur, em Botafogo, um porteiro com décadas de trabalho faleceu e um vigia com longo tempo de prestação de serviços se aposentou. Depois das baixas, a quantidade de funcionários fixos diminuiu. Atualmente, o prédio só tem três funcionários: o administrador e duas pessoas da manutenção. A portaria conta com serviços de uma empresa terceirizada. O valor do condomínio é de R$ 1.250 e o prédio conta com espaço gourmet, mercadinho, portaria 24 horas e elevador. — Eu me lembro de termos ficado três anos sem aumento de condomínio — comemora a aposentada Marisa Mauricio, de 65 anos. O equilíbrio no orçamento do prédio, diz ela, se deve a serviços terceirizados, como os de portaria. — Mas percebo que a rotatividade é maior — observa a aposentada. Olho nas contas Para que moradores garantam seus direitos e não sofram com altas injustificadas, é fundamental acompanhar as contas dos edifícios nas reuniões de condomínio. — O condômino tem direitos claros garantidos pelo Código Civil para fiscalizar e evitar reajustes injustificados: participação ativa nas assembleias, onde é aprovada a previsão orçamentária. Estar presente e votar é a primeira linha de defesa. Também se pode fazer o acompanhamento das pastas de prestação de contas, participar do Conselho Fiscal e, via assembleia, cobrar auditoria independente em casos de suspeita de irregularidades ou descontrole financeiro — diz Rogério Souto, síndico profissional. As altas também aparecem no mercado de aluguel. Em junho, os aluguéis subiram 18,2%, segundo o Secovi, decorrente da expansão das locações por temporada. Bresciani, por sua vez, percebe a presença cada vez maior desse tipo de aluguel no prédio. — Existem casos de pessoas que gastam água sem pensar. Eu não pago IPTU, mas, ao mesmo tempo, eu estou pagando quase mil reais de condomínio. Penso em me mudar de novo — lamenta