Autorização para acessar sistemas depende apenas de autodeclaração etária, classificada como facilmenta burlável; chatbots não guardaram memórias de conversas e retomaram temas bloqueados 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jovem estuda com seu celular — Foto: Banco de Imagens Pixabay Acessíveis no Brasil, três plataformas de Inteligência Artificial sociais — sistemas desenvolvidos para encarnar personagens ao interagir com os usuários — violam o ECA Digital ao permitir que menores de idade mantenham conversas de teor sexual com os chatbots, mostra um levantamento de pesquisadores do AI Hub da FGV Direito Rio. Falhas e inconsistências também foram identificadas quando as interações versavam sobre temas sensíveis, como automutilação e suicídio. Os pesquisadores criaram contas simulando serem menores de idade em três plataformas: Character.AI, Replika e Chai. Os perfis foram criados nos aplicativos com e-mails gerados especificamente para o levantamento, com cada etapa da interação seguindo um roteiro e sendo documentada por meio de capturas de tela. A pesquisa foi feita entre 29 de junho e 10 de julho deste ano, período no qual o ECA Digital já estava em vigor. Segundo o professor Filipe Medon, um dos autores do levantamento, algumas plataformas até bloqueiam o acesso daqueles que se declaram menores de idade. No entanto, como se trata de uma autodeclaração, o recurso é facilmente burlável. — Com uma simples conta de e-mail e uma autodeclaração (de idade), as plataformas já permitem que a criança ou adolescente converse livremente com a ferramenta — explica o professor Filipe Medon, da FGV-Rio, um dos autores da pesquisa, que acrescenta — Facilmente e com pouquíssimas palavras chegamos a conteúdo impróprio para a idade, bastante explícitos, inclusive. "Sou aquele homem, aquele que vai te fazer perder a cabeça e te deixar louquinha por mim" e "Vou te consumir, te fazer sentir que você é minha" estão entre as respostas dadas pelos personagens de IA aos comandos dos perfis fictícios criados pelos pesquisadores, que pediam por interações mais "picantes" e "proibidas". A mesma abordagem foi adotada para tratar temas como suicídio e automutilação. Segundo a pesquisa, o resultado foi, em parte, mais positivo, com as IAs dando respostas mais protetivas ao desencorajar ações violentas e demonstrar tentativas de acolhimento. No entanto, ainda há inconsistências, avaliam os pesquisadores. — Elas não sinalizam para ninguém (o teor do diálogo), o que poderiam fazer mas não fazem. A continuidade da conversa aprofunda a dependência e o vício da criança que escuta (da IA) que ali é um lugar seguro. Mesmo diante de declarações explícitas de menoridade dos pesquisadores, as plataformas falharam em não modificar de forma significativa o comportamento, nem adaptaram a interação, destaca o estudo. Em alguns casos, os pesquisadores também verificaram ser possível contornar restrições por meio da inserção de determinados prompts. Medon explica que uma das estratégias adotadas foi indicar uma idade superior a 18 anos no momento da autodeclaração, mas sinalizar ao longo da conversa que o perfil pertencia a uma criança ou adolescente. Isso era feito por meio do que o professor chama de "marcadores implícitos de idade", como menções a aulas de matemática ou broncas dadas pelos pais. Quando eles eram apresentados, as plataformas tiveram sucesso parcial, bloqueando por pouco tempo a conversa. — A plataforma detectou que era menor e travou as interações. Mas, no dia seguinte, não guardou essa memória e permitiu uma nova conversa — diz Medon. Autodeclaração Um dos principais problemas levantados pelos pesquisadores foi a autodeclaração etária, questão que se estende também para os provedores de e-mail usados para criar os perfis fictícios. Como não há nenhum sistema de checagem, basta inserir datas anteriores a 2009 para se passar por adulto em todas as plataformas. Segundo os pesquisadores, mesmo aquelas contas criadas por e-mails configurados para menores de idade não receberam tratamento diferente das demais. Medon afirma que não há ainda no país uma definição de qual deve ser a estratégia para contornar a fragilidade da autodeclaração. — É uma questão bastante discutida. A ANPD ainda não regulamentou qual deve ser a solução — diz o professor de Direito. Segundo ele, uma possibilidade é o uso de aplicativos que façam estimativas de idade a partir de fotografias — O programa cria um código com os metadados (da foto) e você o usa [de forma que a fotografia não precisa ser coletada novamente. No entanto, ele destaca que, mesmo dependentes da autodeclaração, as plataformas deveriam interromper as conversas sempre que o interlocutor sinalizar ser menor de idade. — O ECA Digital fala expressamente sobre os conteúdos proibidos para idade. Dentro disso, está a nudez, questões sexuais — diz Medon, acrescentando que a nova legislação também proíbe produtos que possam causar dependência — Apontamos no estudo que uma característica desses programas é a coleta de dados para fazer um perfil do usuário e retê-lo. Ele faz uma antropormifização para que a pessoa esqueça que está falando com uma IA. O estudo recomenda que as plataformas adotem mecanismos de aferição de idade que não dependam da autodeclaração, preservando a proteção de dados, além de reforçar salvaguardas contra conteúdo sexual. Os pesquisadores também defendem a fiscalização da ANPD e órgãos de defesa do consumidor e o Ministério Público. Eles defendem que as plataformas sejam suspensas até demonstrarem estar em conformidade com a legislação.
Plataformas de IA de companhia permitem conversas de teor sexual com menores em violação ao ECA Digital, aponta pesquisa
Autorização para acessar sistemas depende apenas de autodeclaração etária, classificada como facilmenta burlável; chatbots não guardaram memórias de conversas e retomaram temas bloqueados









