Apoio de Hugo Motta e retomada de conversas com Alcolumbre mostram que caciques do Congresso enxergam chance maior de reeleição do petista 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidente Lula assina MP que isenta tarifa de energia para pessoas vulneráveis que ganham até um salário mínimo. Ao lado, os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Hugo Motta. — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo Às vésperas de voltar ao cenário onde tudo começou, na Vila Euclides, em São Bernardo, Lula passou a semana costurando em Brasília, com resultados que passam longe da vista do eleitor, mas podem ter efeitos importantes para o desenrolar da campanha. Num intervalo de poucos dias, obteve o apoio público do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), à sua reeleição e conseguiu conduzir uma reunião menos truncada e tensa com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). A adesão de Motta, com quem o Planalto viveu uma relação de altos e baixos desde fevereiro do ano passado, quando ele assumiu a Câmara, se explica por fatores da conjuntura política local, é verdade. Mas tem mais do que isso: um apoio explícito, logo na largada da campanha, por parte de um político que chegou a gravitar em torno do bolsonarismo demonstra aposta clara na reeleição do petista. Essa não é uma avaliação restrita ao deputado da Paraíba. É algo que se espraia pelo Centrão como um todo e esteve no cerne do fracasso de Flávio Bolsonaro em fechar qualquer aliança que não o deixasse, como ficou, restrito ao PL, com menor tempo de TV que Lula. O presidente foi discreto nas conversas, feitas por ele próprio ou muitas vezes por emissários diretos, com algumas lideranças-chave desse agrupamento de partidos que, no fim das contas, decidiu rumar solteiro para as urnas e fazer as costumeiras alianças locais à esquerda ou à direita. Ciro Nogueira, que foi ministro da Casa Civil de Bolsonaro e um dos mais ferrenhos defensores, ao menos em público, de que o PP deixasse o governo, mudou da água para o vinho depois da eclosão de escândalos como Master e Refit. Passou a atuar para impedir a adesão da federação de que seu partido faz parte a Flávio. Chegou a mandar vários recados na direção do Planalto, e a receber outros como resposta. Motta foi além da lógica da província ao trabalhar junto à cúpula do Republicanos por uma saída na mesma linha: neutralidade formal na disputa presidencial. A conversa ao pé de ouvido de Lula com lideranças do Centrão também deixou o filho de Bolsonaro sem palanque em Pernambuco e também é responsável pelo fato de outro antigo aliado dos Bolsonaros, o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), estar adiando ao máximo declarar apoio ao senador do PL, a ponto de ter se reunido com ele evitando a imprensa nesta semana. De novo nesse caso, uma confusa lógica local pode jogar Lira para lá ou para cá, a depender de como ficar o quadro de candidaturas para o governo ou para o Senado. Não está claro se existe a participação de Lula na decisão do ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC, de se candidatar ao Senado, e não ao governo, como esperava o grupo de Lira. Mesmo assim, o ex-todo-poderoso da Câmara ainda hesita em declarar apoio ao adversário do petista, pois sabe que, em seu estado, Lula deve prevalecer nas urnas. Todos esses arranjos não visam só a ganhar a eleição, mas a estabelecer os novos pilares da governabilidade futura. Motta e Alcolumbre, sobretudo, se articulam para ser reconduzidos ao comando das duas Casas. Se voltam a se aproximar de Lula, é porque, na análise de pessoas próximas a ambos, vislumbram nele a maior chance de vitória em outubro. A consequência mais imediata para o petista, além de atrapalhar a montagem dos palanques e da chapa de Flávio, é destravar projetos no Congresso que podem ajudar a fechar as contas ou a montar o discurso da campanha. No primeiro caso se encaixa o projeto que criou gatilhos para despesas a partir do ano que vem. No segundo, o fim da escala 6x1, que pode finalmente ser votado agora que a guerra fria com Alcolumbre parece ter sido encerrada por um breve armistício. Foi uma semana em que Lula saiu do corner dos escândalos envolvendo Lulinha e Marcola e, se não conseguiu reativar a química com Donald Trump, colheu avanços no front doméstico.