Atriz integra projetos no teatro, cinema e streaming e reflete sobre escolhas profissionais, autonomia feminina e o papel da arte na sociedade 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Maria Casadevall transita entre teatro, cinema e streaming em nova fase da carreira — Foto: Divulgação Beto Maia Entre o palco, o cinema e o streaming, Maria Casadevall vive um momento de reencontro com o ofício. Em projetos de naturezas distintas, a atriz tem escolhido histórias que, além de movimentarem sua trajetória profissional, despertam seu interesse por temas como relações humanas, autonomia, intimidade e as estruturas sociais que atravessam a vida cotidiana. A variedade de formatos, nesse caso, parece menos uma questão de quantidade e mais uma oportunidade de experimentar diferentes maneiras de contar e interpretar uma história. No teatro, Maria divide a cena com Reynaldo Gianecchini em "Um Dia Muito Especial", adaptação do clássico de Ettore Scola. Ambientada na Itália fascista, a peça acompanha o encontro entre uma dona de casa e um homem perseguido pelo regime. Em meio à solidão e às limitações impostas por aquele contexto, os dois estabelecem uma relação que, ao mesmo tempo em que se constrói na intimidade, expõe as marcas do autoritarismo sobre a vida privada. A obra chegou ao cinema em 1977, protagonizada por Sophia Loren e Marcello Mastroianni. Na montagem teatral, a proximidade com o público desloca a história para uma experiência mais imediata, preservando o conflito entre o que acontece na esfera individual e as forças políticas que determinam aquele cotidiano. Depois de passar por diferentes cidades brasileiras, o espetáculo chega a Petrópolis nos dias 15 e 16 de agosto, no Teatro Imperial. Para Maria, o interesse pela peça está justamente na possibilidade de provocar uma reflexão que ultrapasse a narrativa apresentada no palco. "O teatro é um jogo de máscaras e espelhos onde muitas vezes nos vemos e nos reconhecemos, tanto pessoal quanto coletivamente. É uma ferramenta viva de resistência e denúncia não pelo discurso, mas pelo viés das relações humanas, de como elas nos afetam e como podem ser diretamente afetadas pelo contexto político em que estão inseridas, como no caso da nossa peça", afirma à revista ELA. Maria Casadevall fala sobre nova fase da carreira entre teatro, cinema e streaming — Foto: Divulgação Beto Maia Segundo a atriz, a montagem também permite estabelecer relações entre o período retratado na história e questões contemporâneas. "O público vive uma experiência para além do entretenimento, com espaço para reflexões e analogias sobre o que se vê, sobre como vivem aquelas personagens em determinado contexto autoritário e como essa história pode se relacionar tanto com a vida pessoal de cada pessoa como com nosso contexto político atual", diz. Uma casa que também conta a história No cinema, Maria protagoniza "A Mulher ao Lado", dirigido por André Faccioli e codirigido por Bárbara Paz. Na trama, ela interpreta Victória, vizinha de Leonardo, vivido por Alejandro Claveaux, um designer reconhecido que mora em uma casa de arquitetura brutalista em São Paulo. Os dois compartilham o mesmo muro, mas vivem realidades aparentemente opostas. Essa separação começa a ser colocada em xeque quando Victória abre uma janela voltada para a residência vizinha. O gesto, aparentemente simples, altera a dinâmica entre os personagens e introduz questões relacionadas à privacidade, à intimidade e à forma como observamos, e somos observados, pelo outro. A arquitetura ocupa um lugar central na narrativa. Mais do que cenário, a casa funciona como uma extensão dos personagens, apresentando suas diferenças antes mesmo que elas sejam explicitadas nos diálogos. O projeto tem como ponto de partida uma ideia de Mariano Cohn e Gastón Duprat, vencedores do Goya de Melhor Filme Ibero-Americano por "O Cidadão Ilustre," com roteiro de Andrés Duprat. "A forma como habitamos o espaço que ocupamos é uma expressão de quem somos. No filme, é a arquitetura da casa-personagem que vai nos contar, antes de qualquer diálogo, quem são os protagonistas e a partir de qual lugar eles se relacionam", explica. De acordo com Maria, o muro que separa as duas casas também representa as diferenças entre Victória e Leonardo: "Eles compartilham o mesmo muro que separa duas realidades — e personalidades — totalmente diferentes. Quando esse muro começa a rachar, os conflitos começam a aparecer. Ou seja, aqui a arquitetura cumpre um papel fundamental de apresentação da realidade em que as personagens principais do filme estão inseridas." Maria Casadevall fala sobre nova fase da carreira entre teatro, cinema e streaming — Foto: Divulgação Beto Maia De volta às séries No streaming, a atriz integra o elenco de "Clube Hedonê", nova produção original do Globoplay inspirada no romance Mansão Hedonê, de Sue Hecker. Maria contracena com Marco Pigossi, Giovana Cordeiro e Ravel Andrade e retoma as séries após a participação em "Coisa Mais Linda", da Netflix. O retorno ao formato veio acompanhado do interesse por um universo diferente daquele que já conhecia. A experiência representou a oportunidade de se colocar novamente em uma posição de aprendizado, ao mesmo tempo em que se aproximava de uma história centrada na autonomia feminina. "O desafio de retornar ao ofício em um universo totalmente diferente do meu, a chance de me colocar realmente disponível para aprender e assimilar novas perspectivas e, mais do que isso, a possibilidade de estar em um projeto que provoca reflexões sobre a autonomia, e sobretudo autonomia sexual, da mulher em uma sociedade machista", conta. Embora estejam em linguagens distintas, os três trabalhos têm em comum personagens inseridos em situações que tensionam relações, escolhas e estruturas ao redor delas. Para Maria, essa aproximação com histórias que provocam algum tipo de reflexão também passa por um momento mais maduro de sua carreira, no qual a possibilidade de escolher projetos ganha importância. "A verdade é que, para mim, mesmo que intuitivamente, sempre existiram critérios profundos. O que nem sempre existiu foi o privilégio de poder fazer escolhas de acordo com esses critérios. Mas acredito que hoje, com trabalhos realizados e reconhecidos, mais madura e retornando ao ofício, eu tenha mais condições para efetivamente fazer escolhas que me coloquem a serviço de histórias que eu considere relevantes e que tenham potencial verdadeiro de transformação", conclui.
Maria Casadevall revela o que busca em nova fase da carreira: 'Histórias que tenham potencial verdadeiro de transformação'
Atriz integra projetos no teatro, cinema e streaming e reflete sobre escolhas profissionais, autonomia feminina e o papel da arte na sociedade






