Blusinhas são blusinhas, produtos inofensivos. Mas o governo Lula e os políticos instalados no Congresso estão rachados em relação a elas. Não sabem se assumem o lado da indústria ou o lado do consumidor.PUBLICIDADE“Blusinhas” foi o nome que deram informalmente aos produtos importados de até US$ 50 por unidade. O nome e sobrenome dessa operação é Programa Remessa Conforme (PRC). Pode ser qualquer importação até esse valor, como roupas, lâmpadas, brinquedos ou produtos de beleza.Até julho de 2024, essas importações estavam isentas de Imposto de Importação (taxa alfandegária). Veio a pressão da indústria contra essa isenção e, em agosto de 2024, o governo Lula as taxou em 20%. Aí os políticos entenderam que essa tarifa desagradou ao consumidor e tirava votos. Com base nessa nova fonte de pressão, em maio de 2026, o governo Lula baixou medida provisória restabelecendo a isenção. Também desta vez, como tanta coisa no governo, a motivação da volta da isenção foi eleitoreira.Maior parte das remessas postais internacionais são de plataformas de comércio eletrônico de origem asiática, como Shein, Shopee e AliExpress Foto: Taba Benedicto/EstadaoO Congresso tem prazo até 8 de setembro para ratificar, ou não, a medida provisória. Se optar por não se pronunciar, estará aprovada.PublicidadeEm junho último essas importações atingiram seu recorde. Chegaram a 27,4 milhões de itens, que somaram R$ 2,6 bilhões. Como se espera, a indústria não para de atacar a isenção dessa taxa. Argumenta que não só impõe competição desleal ao produto fabricado aqui, como também coloca em risco o emprego de pelo menos 100 mil trabalhadores.Apoia-se nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) segundo os quais, em maio, quando foi editada a medida provisória, o varejo perdeu 70 mil postos de trabalho, dos quais 43 mil foram no comércio de vestuário, calçados e acessórios. As plataformas de comércio eletrônico de origem asiática, como Shein, Shopee e AliExpress, se encarregam de contratar e trazer a maior parte dessas remessas.Os Correios também têm lá seus interesses. Como são o canal mais importante de entrega final desses produtos, avisam que uma das causas da forte quebra de receitas ocorreu nos meses em que prevaleceu a taxação de 20%. As receitas da empresa com participação de encomendas importadas caiu de R$ 2,6 bilhões em 2024 para R$ 1,3 bilhão em 2025. Ou seja, os Correios pressionam para a isenção da taxa.PublicidadeO governo Lula pode tomar a decisão que achar melhor para seus objetivos. Só não pode alardear que seja o campeão de defesa da indústria quando, por objetivos puramente eleitoreiros, optou pela isenção da taxa das blusinhas.Vale ler tambémQuais nomes os brasileiros estão usando para registrar suas filhas?Uma política de desenvolvimento regional à altura da AmazôniaReforma tributária: brasileiro se assusta com alíquota de 28%, mas já paga imposto maior