Vila que reúne videntes nos arredores de Seul já abrigou entre 70 e 80 profissionais, mas restam menos de 20 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A vidente cega Song Oh-soon fala em seu pequeno consultório na 'vila de videntes de Mia-ri', em Seul — Foto: Foto por GREG BAKER / AFP A adivinhação online baseada em inteligência artificial está tirando clientes da vila de adivinhos de Song Oh-soon, nos arredores de Seul. Aos 86 anos, Song é uma das últimas integrantes de uma comunidade de profissionais com deficiência visual que atraiu gerações de sul-coreanos em busca de respostas e conselhos sobre tudo — de doenças e dinheiro a amor e destino. Em uma das sociedades mais conectadas à IA no mundo, o maior desafio da vila não é o declínio da crença na adivinhação, mas a forma como ela está sendo feita. Song se mantém firmemente offline, com sua astrologia baseada nos "Quatro Pilares do Destino" em braile e em 40 anos de experiência em ouvir com atenção — uma habilidade que a concorrência automatizada não consegue igualar. "Algumas pessoas vinham aqui querendo morrer", disse Song à AFP na vila de Mia, no norte de Seul. "Eu as convenci a continuar vivendo. Eu também já quis morrer, mas encontrei este trabalho e sobrevivi." Hoje, o silêncio é, muitas vezes, o único visitante de Song. A comunidade já abrigou entre 70 e 80 profissionais, mas restam menos de 20. Muitos faleceram. Seus estabelecimentos, situados em becos estreitos, permanecem às escuras atrás de placas desbotadas que anunciam "casas de adivinhação tradicional". "Quando saio para caminhar, tudo está silencioso", disse Song em seu pequeno cômodo, que serve tanto de casa quanto de espaço de atendimento. "É uma sensação de solidão." O fator humano Dados mostram que o setor de adivinhação na Coreia do Sul está em expansão, movimentando 1,4 trilhão de wons (US$ 986 milhões) em 2024, segundo a InnoForest, empresa de análise de startups. Placas anunciam serviços de adivinhação na "vila de adivinhação de Mia-ri", em Seul — Foto: GREG BAKER / AFP Muitas pessoas agora recorrem a aplicativos móveis e chatbots de inteligência artificial, como o ChatGPT e o Gemini, para obter previsões, conforme apontou uma pesquisa realizada este ano pela empresa de estudos de mercado Embrain. Ocasionalmente, porém, há quem ainda busque a interação humana. A professora universitária Oh Ji-hye passou anos caminhando pelo bairro sem entrar nos locais de atendimento, preferindo recorrer a previsões feitas por IA durante seus deslocamentos diários. Mas, recentemente, preocupada com sua carreira, ela procurou Song para uma consulta por telefone. "Foi bom sentir que uma pessoa, e não uma IA, estava concentrada na minha história e realmente me ouvindo", disse ela, aos 44 anos. O bairro de Mia surgiu em 1966, depois que o primeiro vidente cego se estabeleceu na região, segundo o Centro Cultural de Seongbuk, que pesquisa a história do distrito. Com o rápido crescimento de Seul nas décadas de 1970 e 1980, o bairro oferecia aluguéis baixos e um fluxo constante de clientes em potencial — cenário encontrado por Song quando ela chegou ao local, em 1984. Ela perdeu a visão devido a uma doença na infância, antes da Guerra da Coreia, e, aos 11 anos, já estudava a arte coreana da adivinhação, que consiste em prever o futuro das pessoas com base na data e na hora de seu nascimento. Superada por algoritmos Ela já era profissional aos 16 anos, atuando num ramo ao qual muitas pessoas com deficiência, especialmente mulheres, foram historicamente confinadas devido à discriminação. "Hoje em dia, se uma pessoa com deficiência visual tem talento musical, ela pode seguir carreira na música", disse ela. "Mas, na época em que perdi a visão, não havia mais nada que eu pudesse fazer além deste trabalho." Ao longo de sua vida, a Coreia do Sul testemunhou a devastação da guerra de 1950-1953, períodos de regime militar e a crise financeira da década de 1990. Após períodos de dificuldades e perdas, a nação emergiu como uma potência financeira global — com lucros astronômicos recentes provenientes da fabricação de microchips de IA. Esses ganhos impulsionaram a prosperidade do país. Clientes que antes buscavam conselhos sobre problemas de saúde agora podem recorrer aos hospitais. No entanto, a tecnologia tem desviado clientes das sessões de Song — que custam 50 mil wons — em favor de leituras gratuitas ou acessíveis feitas por IA. A maioria dos profissionais que restaram tem pouca presença online, e muitos não são encontrados nas principais plataformas de busca. "Não acho que as pessoas estejam menos interessadas em previsões do destino", disse Song. "Mas, hoje em dia, elas pesquisam na internet e não vêm até nós." Apesar do declínio do vilarejo, Song acredita que nenhum destino é imutável. "Se você se esforçar e fizer escolhas sábias, a boa sorte cruzará o seu caminho três vezes ao longo da vida", afirmou ela.