A nova edição de “Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente” entra nesta quinta-feira (13) em pré-venda celebrando dez anos de um case literário e editorial. Surgido na internet em 2016, o projeto criado por Igor Pires migrou para as livrarias no ano seguinte e se transformou em uma das mais bem-sucedidas séries de poesia do país. No formato livro, deu origem a seis títulos, vendeu um milhão de exemplares e acompanhou a formação de uma geração de leitores. A mistura de poesia, crônica e arte gráfica levou a literatura a um público jovem nem sempre familiarizado com os livros. Agora, uma edição comemorativa revista e comentada por Pires revisita o primeiro volume da série. Além de reorganizar textos já publicados e acrescentar inéditos, a obra ganha novas ilustrações, assinadas por Anália Moraes. Outros dois títulos da série também serão reeditados. — Naquela época, confiar em um projeto literário nascido na internet era um pouco como se jogar no escuro. Quando publicamos o primeiro livro, percebemos que não era apenas um fenômeno das redes sociais. O livro também poderia ser um sucesso no mundo real — diz Pires, que recorda ter se deparado com uma fila quilométrica no primeiro lançamento. Nativos digitais O autor conta que, antes de virar best-seller, enviou a 30 editoras e-mails propondo transformar em livro o projeto digital, que contava com um milhão de seguidores somente no Facebook. Segundo ele, apenas a Alt, selo jovem da Globo Livros e hoje responsável por publicar todos os títulos da coleção, mostrou interesse na época. O sucesso da empreitada ajudou a consolidar o filão de livros inspirados em fenômenos digitais. Hoje, quase todo escritor que faz sucesso nas redes tem também um livro físico para chamar de seu. O autor, porém, rejeita a ideia de que essas obras constituam um gênero literário à parte. Nascido em 1995 e formado em Publicidade, ele lamenta que etiquetas como “literatura de internet” ou “textão de Facebook” sejam usadas para diminuir o estilo e as preferências estéticas dos nativos digitais. — Esses dias vi uma discussão de algumas autoras que criticavam justamente esses adjetivos: literatura feminina, literatura queer, literatura da internet. Eu acredito na literatura, ponto — explica. — Mas gosto de acreditar que a internet modifica, de alguma maneira, a forma como produzimos literatura. No meu caso, como nasci dentro dessa cibercultura tão fervorosa, acho que minha visão de mundo e minha linguagem são muito impactadas pelo que consumo e aprendo na internet. O apelo do “TCD” (para os íntimos) entre leitores de primeira viagem se deve em grande parte ao estilo catártico e intenso dos textos, que criam identificação imediata. Igor costuma explorar sentimentos universais que atravessam nosso cotidiano, como términos doloridos e desencontros afetivos. — Nesses dez anos, muita gente descobriu a literatura e o mundo dos livros pelo “TCD” — observa Paula Drummond, editora da Alt. — São textos curtos que não dão medo pelo tamanho e que falam uma linguagem que os jovens entendem. A série tem vendas expressivas em feiras escolares e bienais. De olho no cotidiano Igor, que diz escrever para “pessoas comuns”, tenta fazer da literatura uma experiência ligada ao cotidiano. E também às próprias origens. — Venho de uma família muito pobre e comecei a ler livros por curiosidade, por uma questão intuitiva — diz o autor nativo de Guarulhos e radicado no Rio. — As pessoas gostam do que escrevo porque escrevo sobre o que é real, sobre o que dói, sobre o que machuca, sobre aquilo que experimento e que sei que outras pessoas também experimentam. Adoro ler um livro mais “cabeça”, mas minha literatura sempre foi feita com a linguagem mais acessível possível. O autor usa como referência sua própria avó, que fazia o possível para navegar pelas páginas escritas pelo neto. — Um dia visitei a casa dela em São Paulo e a vi com um livro meu aberto, tentando ler — conta Pires. — Aquele momento foi muito marcante para mim, porque entendi que tinha conseguido produzir uma literatura acessível até para pessoas que nunca foram contempladas. Como um menino da periferia de Guarulhos se torna um dos autores de poesia mais lidos do Brasil nos últimos anos? Acho que essa pergunta pode ser respondida de uma maneira muito simples: porque sou uma pessoa normal e vivo o cotidiano. Quando surgiu na internet, o “TCD” se consolidou como uma espécie de respiro lírico em meio a timelines cada vez mais frenéticas, tomadas pela polarização política. As mudanças no ecossistema digital nos últimos dez anos, porém, levaram Igor a repensar sua presença on-line. Na internet, onde o “TCD” continua ativo com três milhões de seguidores, o autor enfrenta um público dividido entre diversas redes sociais, além da competição de um número inflado de produtores de conteúdo. E seus livros competem não apenas com outros títulos, mas com a própria rede social e o streaming. — Hoje são muitos tentáculos sobre os quais precisamos pensar quando falamos em lançar um livro ou produzir conteúdo literário — diz. — Os escritores enfrentam muitas dificuldades para prender o leitor porque são muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Mas a internet também trouxe, nesses dez anos, uma perspectiva de que é possível sonhar mais. Hoje existem editoras que pensam especificamente no público jovem e em maneiras de articular com jovens que estão na internet. Segundo Igor, o espaço online democratizou o acesso à literatura e tornou mais honesto o debate sobre quem pode produzi-la. — O “TCD” serviu como referência para outros projetos e ajudou a melhorar as condições para produzir literatura na internet. Ele se estabeleceu na mente das pessoas como esse grande lugar da poesia autoral, de uma poesia que vem da rua, da periferia da cidade, de lugares que não eram pensados como produtores de poesia. Esse é um legado que deixo nessa primeira década de trabalho. Serviço: ‘Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente’. Autor: Igor Pires. Editora: Alt. Páginas: 456. Preço: R$ 84,90.