Anos antes que o projeto da cinebiografia de Cássia Eller (1962-2001) se tornasse realidade, Olivia Torres ouviu de uma ex-namorada: “quando fizerem um filme sobre a Cássia, você vai fazer a Maria Eugênia”. A partir daí, o que era uma sugestão virou um sonho. Que agora se torna realidade com a escalação para “Cássia — O filme”, longa de Diego Freitas que trará Luísa Arraes na pele da cantora. — Eu sei que parece mentira, mas, se alguém perguntasse para mim qual personagem gostaria de fazer em uma biografia, eu responderia: a Maria Eugênia. Sempre foi um sonho. Quando surgiu a oportunidade de fazer testes para o papel, fui muito aplicada — conta Olivia Torres, de 32 anos, em entrevista via Zoom. — Eu era muito nova quando a Cássia morreu (vítima de uma parada cardíaca aos 39 anos), mas a história dela e da Eugênia foi muito fundamental na minha compreensão como pessoa LGBT. Vê-la lutando na Justiça pelo Chicão (hoje o artista Chico Chico) até conseguir a guarda dele foi algo muito grandioso e comovente. Olivia Torres foi selecionada em processo conduzido por Gabriel Domingues, indicado ao Oscar de melhor seleção de elenco por “O agente secreto”. A atriz conta que já tem feito pesquisas para a personagem e que o processo de ensaios começará em breve. As filmagens acontecem a partir de outubro. — Tive a oportunidade de ir na casa da Eugênia fofocar. Fui com a Lulu (Luisa Arraes) e passamos a tarde inteira conversando e tomando um cafezinho — lembra a atriz. — Ela é muito mais complexa do que dá para se entender pelas entrevistas. É muito engraçada, ela se move de um jeito interessante, é muito carinhosa e sedutora. Não sei se ela vai querer estar muito perto, mas, quando for para o Rio para as filmagens, espero procurar mais por ela. Filha do produtor teatral Lucas Mansor e da atriz Sofia Torres, Olivia sempre teve a arte como parte de sua vida. Pisou nos palcos pela primeira vez aos 6 anos, em uma produção dos pais. Aos 10, como parte de um coral de crianças em Niterói, fez participações na novela “Começar de novo” (2004) e na série “Hoje é dia de Maria” (2005). Apesar dessas presenças, a atriz considera sua estreia profissional na marca dos 14 anos, quando estrelou uma peça e foi escalada para o filme “Desenrola” (2011), de Rosane Svartman, pelo qual conquistou o prêmio de melhor atriz no Brazilian Film Festival de Miami, nos EUA. Olivia Torres em cena de “Desenrola” (2011), de Rosane Svartman — Foto: Divulgação — Hoje, sinto muito orgulho dos trabalhos que fiz quando jovem, mas também sinto que é muito duro escolher uma profissão quando você tem 14 anos de idade — afirma Olivia. — Sempre gostei muito de cinema, mas cheguei a me perguntar se não gostaria de trabalhar em outras áreas. Fiz vários cursos de roteiro, fui produtora de set, fiz cursos de marcenaria, de culinária, me meti em muitos lugares para investigar o meu desejo. Mas, no fim de toda essa investigação, eu entendi que amo mesmo é ser atriz. Permanentemente curiosa, Olivia está no elenco da sexta temporada de “Sessão de terapia”, do Globoplay, em que contracena com Selton Mello. O ator, por sinal, viveu o pai de sua personagem em “Ainda estou aqui” (2024), embora não tenham dividido cenas na produção. No longa vencedor do Oscar de melhor filme internacional, Olivia interpreta Babiu Paiva na segunda fase de sua vida, já mais velha, após o desaparecimento do pai. Na produção, a atriz pôde contracenar com alguém que está entre seus ídolos, Fernanda Torres (o sobrenome é o mesmo, mas elas não têm qualquer grau de parentesco). — Quando estava começando, eu lembro de fazer um teste e uma pessoa falar: “Ela é filha da Fernanda Torres”. Eu não corrigi. Eu contei isso pra Nanda e ela disse: “Agora pode dizer que é mesmo” — diverte-se Olivia. — Dizem que você não deve conhecer seus ídolos, mas isso não vale para a Nanda. Ela é tão inteligente, generosa e trabalhadora. Fernanda Torres e Olivia Torres em cena de 'Ainda estou aqui' — Foto: Divulgação ‘Uma atriz bem cabeluda’ Antes da experiência com Fernandinha, a atriz já havia dividido uma personagem com Fernanda Montenegro, na novela “Saramandaia” (2013). — Eu lembro de chegar na Fernandona e falar que iria fazer ela mais nova. E ela me disse: “Ah, que bom, minha filha, que escolheram uma atriz bem cabeluda” — conta Olivia, que se acha parecida com as duas Fernandas. No momento, Olivia está em cartaz nos cinemas brasileiros com “Futuro futuro”, ficção científica de Davi Pretto em que ela dá voz a uma inteligência artificial. A atriz tem ainda vários projetos a caminho, como “Privadas de suas vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, que teve sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Roterdã, e “Zero K”, adaptação de romance homônimo de Don DeLillo dirigida por Michael Almereyda. Com produção de Rodrigo Teixeira, com quem Olivia trabalhou em “Ainda estou aqui” e “Privadas de suas vidas”, “Zero K” teve filmagens em São Paulo e elenco com nomes como Selton Mello, Caleb Landry Jones, Inga Ibsdotter Lilleaas, Britt Lower e Peter Sarsgaard. — Tem sido um momento muito estimulante, com projetos independentes e outros de grande projeção internacional, passando por personagens e gêneros muito diferentes entre si — diz a atriz, satisfeita em realizar projetos que queria. — Desejo que meus sonhos continuem bons e que eu tenha clareza para enxergá-los, porque nessa profissão as coisas ficam nebulosas às vezes.