O acirramento dos ânimos entre a Argentina e o Brasil é coisa de anteontem. Não há nada de novo sob o sol da diplomacia sul-americana —muito menos com Javier Milei e Lula. Pelo contrário. A rivalidade entre as duas maiores potências do Cone Sul é antiga e profunda. Ela nada tem a ver com o apaixonado futebol das arquibancadas, mas sim com as placas tectônicas da política e da geopolítica atual, que mesclam a diplomacia e despautérios.
Há mais de cem anos, o barão do Rio Branco alertava para esse fenômeno usando as páginas da imprensa brasileira. O chanceler mirava a retórica inflamada do seu arqui-inimigo e homólogo argentino, Estanislao Zeballos, que tentava inflamar a opinião pública de Buenos Aires contra o Brasil, tendo como pano de fundo uma suposta crise naval.
Escreveu o experiente barão: "Há um esforço na República Argentina para que a campanha, que há muito tempo se faz contra o Brasil, se transforme em agitação. Para isso, um homem político se arroga o papel de representante de uma velha sobrevivência, como é o preconceito dos ódios castelhanos e portugueses transportados para a América do Sul, e espalha o pânico de uma pátria em perigo."
Rio Branco demonstrava ceticismo sobre a adesão popular àquela gritaria, exatamente como percebemos hoje, mas temia o barulho dos conservadores mais reacionários, o que hoje chamaríamos de extrema direita.








