Segunda-feira viu renovação de ofensivas de Milei, ironia de Lula e resposta de ministro da Fazenda, que chamou argentino de ''palhaço'' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lula e Javier Milei durante cúpula do Mercosul em Buenos Aires — Foto: LUIS ROBAYO/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 27/07/2026 - 22:44 Crise Diplomática Brasil-Argentina: Ofensas e Investigações Acentuam Tensão A crise diplomática entre Brasil e Argentina, considerada sem precedentes por especialistas e o Itamaraty, intensificou-se após ofensas do presidente argentino Javier Milei a Luiz Inácio Lula da Silva. A tensão cresceu com trocas de ofensas e ironias entre os líderes e ministros dos dois países. O Brasil manifestou repúdio formal, enquanto a participação de Milei em convenção política no Brasil é investigada por suposta ingerência. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Tratado como trunfo da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Planalto, o apoio do presidente argentino Javier Milei, com direito a ataques pessoais à sua contraparte brasileira Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abriu uma crise entre os dois países classificada como sem precedentes pelo Itamaraty e pesquisadores. O dia de ontem foi marcado por uma escalada crescente nas já acentuadas tensões diplomáticas. Após o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, manifestar pessoalmente o repúdio do Brasil ao embaixador da Argentina, Daniel Raimondi, as horas seguintes contaram com ofensas de integrantes da Esplanada a Milei — chamado de “palhaço” pelo titular da Fazenda, Dario Durigan —, ironias de Lula e uma leva de ataques por parte do chefe do Executivo argentino. O encontro entre Vieira e Raimondi deu-se na noite de domingo. Na reunião, realizada no Palácio Itamaraty, o chanceler transmitiu a repulsa do governo à postura de Milei, que também ofendeu o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao participar da convenção do PL que oficializou Flávio como candidato. Além da convocação de Raimondi, Vieira determinou que o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, retornasse ao país para consultas, medida adotada em momentos de tensão diplomática. Em nota divulgada ontem, o Ministério das Relações Exteriores reforçou o ineditismo do comportamento do mandatário argentino. “Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro. É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial”, afirmou a pasta. Pela manhã, em fala à Radio Jornal, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, subiu o tom contra Milei. Ao comparar índices econômicos dos dois países, defendendo que o desempenho do Brasil seria melhor, o auxiliar de Lula citou o “palhaço do presidente da Argentina”. Já o próprio Lula, perguntado sobre suas percepções no imbróglio enquanto aguardava a chegada do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-Myung, para recepção no Itamaraty, optou pela ironia: — Eu? Quem é esse cara? No fim da noite, a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, pediu ao procurador-geral Eleitoral, Paulo Gonet, a abertura de investigação sobre a participação de Milei na convenção do PL. A petição sustenta que há indícios de “ingerência externa indevida” no pleito. Do lado argentino, o chefe de gabinete de Milei, Diego Santilli, minimizou o caso ao jornal La Nación e disse que os brasileiros não deveriam “rasgar as roupas”. O presidente, porém, dobrou a aposta. Em entrevista a uma rádio, sem apresentar provas, Milei acusou o Brasil de colocar recursos financeiros em uma campanha contra o país vizinho. Nas redes sociais, no início da noite, o presidente argentino compartilhou uma série de postagens com críticas ao petista — entre elas, menções a uma suposta “equipe especializada em fake news” que teria sido disponibilizada por Lula a Sergio Massa, adversário de Milei em 2023. “Estou enojado com todos os idiotas e hipócritas que vieram se desculpar com Lula”, vaticinava outro dos conteúdos publicados. As falas de Milei, porém, também encontraram reações dentro da Argentina. Nas redes sociais, o ex-presidente Alberto Fernández saiu em defesa de Lula ao chamar o seu sucessor na Casa Rosada de “energúmeno”. Durante a campanha eleitoral que o elegeu, Fernandéz visitou Lula na carceragem da Polícia Federal (PF) em Curitiba e chegou a dizer em outras oportunidades sentir saudades do então ex-presidente brasileiro no poder. A relação entre os dois foi um dos alvos dos ataques de Milei no sábado. “Milei foi ao Brasil para gritar como um energúmeno, exigindo ver um golpista preso. Eu fui a Curitiba exigindo a liberdade de um inocente. Hoje Lula é presidente do Brasil, e Bolsonaro está preso por promover um golpe de Estado. Insultar o presidente de um país irmão e principal sócio comercial não tem perdão”, disse Fernández, também nas redes. A visita de Fernández a Lula em 2019 foi lembrada por Milei no discurso na convenção do PL, quando ele se queixou de Alexandre de Moraes por não ter liberado um encontro dele com Jair Bolsonaro: — O “lixo careca” não me permitiu visitar meu amigo injustamente preso, embora eu saiba que Lula recebia constantemente líderes estrangeiros enquanto estava na cadeia, inclusive aquele ex-presidente argentino desastroso. As relações entre Brasil e Argentina passaram por atritos no período em que Fernández e o próprio Bolsonaro ocuparam as presidências de seus respectivos países, com trocas de farpas frequentes. Quando se confirmou a vitória do argentino, que tinha como vice a ex-presidente Cristina Kirchner, o pai de Flávio sustentou que os vizinhos haviam “votado mal” ao escolher a dupla de peronistas. Em junho de 2022, Fernández, por sua vez, disse a um canal de televisão argentino que torcia pela vitória de Lula no pleito daquele ano. Ainda assim, especialistas avaliam que o momento atual é um ponto fora da curva. — Não tivemos a gravidade dessas declarações nem nenhum ataque verbal direto — avalia o embaixador aposentado Rubens Barbosa, que já comandou as representações brasileiras em Washington e Londres e também repreende a reação de Durigan. — O ministro não tinha que fazer isso. Você acaba escalando a situação sem querer. Mais tenso ‘do que nunca’ Na Argentina, a postura de Milei também foi encarada com ineditismo, com a imprensa local chegando a afirmar que “a tensão com o Brasil está mais alta do que nunca”. As declarações do presidente também foram alvo de críticas de lideranças políticas, como o governador de Buenos Aires Axel Kicillof. O peronista, hoje um dos principais nomes da oposição local, disse ter sentido “vergonha alheia” ao assistir ao discurso do mandatário e acrescentou ter comunicado ao ministro Mauro Vieira que “Milei não representa o sentir do povo argentino”. “O Brasil é nosso principal sócio comercial. Com essas provocações, Milei coloca em risco investimentos, exportações, milhares de postos de trabalho e os interesses da Argentina, tudo para sustentar um candidato por pedido de Trump”, escreveu Kicillof, que aparece abraçado a Lula em uma foto que acompanha a postagem. Segundo o Clarín, setores econômicos argentinos temem impactos apenas diante de uma escalada da crise, com reflexos possíveis no Mercosul, bloco no qual Brasil e Argentina têm mais peso. Na avaliação de especialistas, contudo, é justamente a relevância da pauta econômica entre os países que pode frear o aprofundamento da crise. — São ligações muito industrializadas e que o produtor brasileiro teria dificuldade de redirecionar para outros caminhos, seja pelo histórico ou pelo próprio Mercosul — diz o professor de Relações Internacionais da ESPM Fábio Andrade, vendo um impacto limitado ao contexto eleitoral. Estudiosos e ex-diplomatas ponderam que demonstrações de apoio entre presidentes e candidatos às eleições não são inéditas. O diferencial, agora, é a intensidade da tentativa de influenciar uma disputa em outro país. — Ele não é o primeiro presidente argentino a interferir na política doméstica brasileira. Quando Fernández vem ao Brasil e visita Lula, já havia a ideia de que lealdades partidárias cruzam fronteiras. A diferença foi o teor, a agressividade. O limite do decoro foi superado — frisa Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha. Para o pesquisador, episódios como esse se tornaram mais comuns ao longo da última década. No passado, o próprio Lula fez declarações de apoio às candidaturas dos ex-presidentes argentinos Cristina Kirchner e Alberto Fernández. Para o embaixador Rubens Barbosa, a conduta petista também é reprovável. — É algo recente. A Constituição Federal diz que não pode haver interferência em assuntos internos de outros países. Por razões políticas e ideológicas, os governos do PT têm declarado apoio em muitos países — diz o embaixador. Ele, no entanto, também afirma que a atitude do argentino destoa de todo histórico recente — Nunca tivemos um incidente como esse. Desde a posse de Milei, as relações Brasil e Argentina não tem um canal de comunicação (entre presidentes). Era previsível que a relação poderia se deteriorar politicamente, apesar da proximidade devido ao comércio e a ligação cultural. Esse discurso infeliz é uma violação de todas as regras diplomáticas. Para Fábio Andrade, o tom adotado por Milei pode se tornar cada vez mais comum no futuro próximo, conforme novas lideranças antissistema cheguem ao poder na região: — Para ter apelo popular e manter a base já cooptada mobilizada, usam linguajar mais duro, para não dizer chulo. Brasil e Argentina: marcos, atritos e afastamentos Usina de Itaipu: O plano de Brasil e Paraguai de erguer a Usina de Itaipu é citado por especialistas como umas das principais crises com a Argentina. O país vizinho temia que a obra prejudicasse seus interesses no Rio Paraná, e a questão chegou a ser levada à ONU. Em 1979, o Acordo Tripartite pôs fim ao conflito diplomático.Mercosul: Com o fim dos regimes militares de ambos os lados, nos anos 80, Brasil e Argentina aprofundaram as relações, culminando na criação do Mercosul em 1991. Nas décadas seguintes, apesar de eventuais atritos, a relação entre os dois maiores países da América do Sul seguiu próxima e institucional.Polos opostos: Apesar das diferenças ideológicas, a relação entre Dilma Rousseff (PT) e Maurício Macri foi pragmática, com demonstrações de boa vontade de ambas as partes. Em 2016, em meio ao processo de impeachment contra a petista, Macri evitava comentar o assunto e dizia confiar nas instituições brasileiras.Peronismo x bolsonarismo: Em uma relação marcada por hostilidades, os ex-presidentes Alberto Fernández (foto) e Jair Bolsonaro não tiveram um único encontro bilateral. Ainda na campanha, o brasileiro dizia que, se o peronista vencesse, a Argentina viraria a “nova Venezuela”. Fernandéz, por sua vez, chegou a chamar Jair de “racista”.Eleição: Em 2023, a eleição vencida por Javier Milei mobilizou esquerda e direita no Brasil. Enquanto a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, apoiava nas redes o peronista Sergio Massa, Flávio Bolsonaro já torcia pelo futuro aliado. Ao longo da campanha, Milei chamou Lula de ladrão.‘Muita bobagem’: Com poucos encontros, a relação entre Lula e Milei é distante, com espaço para atritos. Em 2024, O brasileiro disse que o argentino falava “muita bobagem” e devia desculpas a ele e ao Brasil. Questionado, Milei respondeu: “Qual é o problema que o chamei de corrupto? Por acaso ele não foi preso?”.
Crise entre Brasil e Argentina é inédita e sem precedentes na história recente, avaliam especialistas
Segunda-feira viu renovação de ofensivas de Milei, ironia de Lula e resposta de ministro da Fazenda, que chamou argentino de ''palhaço''














