Raúl Guillermo Rodríguez Castro se tornou interlocutor nas negociações com o governo Trump e teria ambições de chegar ao poder em Cuba, embora nunca tenha ocupado um cargo público 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O coronel cubano Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, comparece ao funeral dos 32 soldados cubanos mortos durante a incursão dos EUA na Venezuela, no cemitério de Colón, em Havana — Foto: YAMIL LAGE / AFP Raúl Castro fazia uma visita oficial de Estado a Paris, há uma década, como presidente de Cuba, quando um corpulento segurança que integrava sua comitiva chamou atenção. O homem permaneceu tão próximo de Castro enquanto os dois caminhavam pelo tapete vermelho do Palácio do Eliseu que um integrante da guarda de honra francesa tentou afastá-lo. Até mesmo François Hollande, presidente da França na época, fez um gesto para que ele recuasse. O segurança que insistia em aparecer nas fotos oficiais não era outro senão o neto de Castro, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, coronel do Ministério do Interior. Hoje, aquele segurança que era praticamente desconhecido se tornou uma figura-chave nas negociações de Cuba com os Estados Unidos, embora nunca tenha ocupado um cargo público. Seu nome chegou a ser mencionado como alguém que poderia ser aceitável para o governo do presidente americano, Donald Trump, como próximo líder de Cuba. — Ele exemplifica como aquele governo funciona — diz Tim Rieser, assessor de política externa do ex-senador Patrick Leahy, democrata de Vermont, que se encontrou com Rodríguez Castro diversas vezes. — É muito parecido com uma empresa familiar e, por isso, alguém que nos foi descrito, uma década atrás, como o segurança do presidente Castro acabou, por alguma razão e por quaisquer meios, se tornando algo muito maior do que isso. Mas Rodríguez Castro, que se reuniu com algumas das autoridades mais graduadas do governo Trump, também pode ter usado sua considerável influência para proteger uma operação de contrabando em larga escala que retirava pessoas de Cuba e levava mercadorias ilícitas para o país, segundo entrevistas e documentos judiciais. Rodríguez Castro, de 42 anos, foi acusado de ajudar a introduzir no país mercadorias compradas com cartões de crédito roubados, receber artigos de luxo como propina e permitir que criminosos procurados circulassem livremente pela ilha. O esquema foi alvo de uma investigação federal que resultou na condenação de pelo menos 21 pessoas e em penas que, somadas, chegam a décadas de prisão. Rodríguez Castro não foi denunciado. Esta reportagem é baseada em documentos judiciais e entrevistas com quase uma dúzia de pessoas que conhecem Rodríguez Castro pessoalmente — incluindo uma pessoa próxima às negociações com os EUA — ou que estão familiarizadas com a investigação criminal na qual seu nome apareceu. As fontes falaram sob condição de anonimato. Rodríguez Castro não respondeu aos pedidos de entrevista enviados por canais diplomáticos oficiais e por meio de um conhecido em comum. O papel de destaque de Rodríguez Castro nas conversas com o governo Trump pareceu surpreender alguns funcionários cubanos, que o viam apenas como alguém responsável por acompanhar e cuidar de seu avô. Ainda assim, um funcionário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba publicou nas redes sociais, no mês passado, que Rodríguez Castro havia sido alvo de uma “campanha de assassinato de caráter” na imprensa americana, com o objetivo de fazer o governo cubano parecer dividido. Enquanto ajuda o governo cubano a sobreviver e a lidar com o impasse com os EUA, pessoas que conversaram com Rodríguez Castro dizem que ele nunca escondeu sua ambição final de se tornar o próximo presidente de seu país — embora não esteja claro se ele conta com apoio suficiente dentro do governo para chegar ao cargo. Os contrabandistas cubanos A rede de tráfico de pessoas era conhecida como Máfia Cubana em Quintana Roo; o nome vinha do estado no leste do México onde o grupo estava baseado. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA e integrantes da organização criminosa que colaboraram com os promotores, o grupo usava barcos roubados na Flórida para retirar clandestinamente de Cuba pessoas que queriam chegar aos EUA. Os migrantes cubanos eram levados para o México, onde ficavam mantidos em casas usadas como esconderijos até pagar as taxas cobradas pelos traficantes. Segundo depoimentos prestados em tribunal, aqueles que não pagavam eram torturados. Dois réus no caso apontaram Rodríguez Castro como colaborador da organização. Ambos, José Miguel González Vidal e Reynaldo Crespo Márquez, se declararam culpados e foram condenados a longas penas de prisão por seus papéis no esquema. Rodríguez Castro providenciava a passagem segura do grupo para dentro e para fora de Cuba, disse um dos líderes da organização aos promotores americanos. O nome de Rodríguez Castro apareceu em um processo do Departamento de Justiça dos EUA contra o grupo em 2020, de acordo com provas reunidas pelos promotores e com uma das pessoas que conhecem a investigação. Não está claro se Rodríguez Castro é alvo da investigação, que continua em andamento. O Departamento de Justiça se recusou a comentar o caso. González Vidal disse que os homens que traficavam migrantes e mercadorias subornavam Rodríguez Castro para manter a Guarda Costeira e a alfândega cubanas afastadas. Em troca de permitir que mercadorias compradas pela rede de tráfico no México com cartões de crédito roubados passassem pela alfândega cubana, Rodríguez Castro teria recebido uma lancha Fountain 38 de alto desempenho e diversos outros presentes, incluindo um relógio Rolex, uma motocicleta Suzuki e roupas da Louis Vuitton, afirmou González Vidal. Segundo ele, os produtos eram posteriormente vendidos em lojas do governo cubano. O relato de González Vidal foi corroborado por mensagens de texto e áudios de correio de voz que o FBI extraiu dos celulares de integrantes da rede de tráfico, disseram as pessoas familiarizadas com o caso. Juan D. Berrios, seu advogado, se recusou a comentar. Em uma entrevista recente ao USA Today, que alguns críticos consideraram autopromocional, Rodríguez Castro afirmou que não possuía riqueza própria. Segundo ele, “amigos ricos e admiradores” pagavam por roupas de grife, veículos estrangeiros de luxo e viagens caras ao exterior. Uma acusação caluniosa O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos R. Fernández de Cossío, chamou de “calúnia” as acusações contra Rodríguez Castro relacionadas à rede de tráfico, em entrevista ao New York Times, em Havana. Carlos Fernández de Cossío, vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, no museu Fidel Castro em Havana, em 30 de junho de 2026 — Foto: Lisette Poole González / The New York Times Segundo ele, durante vários anos de negociações migratórias com Washington, autoridades cubanas haviam manifestado repetidamente preocupação com o tráfico generalizado de cubanos pela América Central e pelo México, mas não receberam resposta. O Departamento de Estado americano não respondeu a um pedido de comentário. Uma fonte americana próxima às discussões entre os EUA e Cuba disse que, apesar das acusações de tráfico, Rodríguez Castro era considerado um representante adequado para interagir com o governo Trump porque sua afeição por bens materiais sugeria que ele era aberto a ideias capitalistas. Rodríguez Castro não demonstra arrependimento pelo estilo de vida que leva. — Dói-me que tantas pessoas não possam viver como eu — afirmou Rodríguez Castro ao USA Today. — E trabalho todos os dias para mudar essa situação. O queridinho da elite cubana O ex-presidente cubano, Raúl Castro — Foto: Ariel LEY ROYERO / ACN / AFP Seus pais tiveram um casamento conturbado. Por isso, Rodríguez Castro, também conhecido como “Raulito”, passou boa parte da juventude na casa dos avós, contaram várias pessoas que o conheceram nessa época. Seu apelido, pelo qual é mais conhecido, é “el Cangrejo” — que significa “o caranguejo” — e foi dado porque ele nasceu com um dedo a mais em uma das mãos. Ele estudou economia na Universidade de Havana, onde recebeu créditos acadêmicos por viajar com o avô. Rodríguez Castro teve acesso extraordinário ao poder, participando de praticamente todas as reuniões de Raúl Castro, inclusive de encontros com o falecido Papa Francisco. Depois de atuar como segurança pessoal, ele passou a exercer mais a função de assistente pessoal de Castro, hoje com 95 anos, que foi vice-presidente durante décadas e se tornou presidente em 2006, quando seu irmão Fidel adoeceu. Embora não ocupe mais nenhum cargo oficial no governo, Castro é amplamente considerado a pessoa mais poderosa de Cuba. Depois que Cuba iniciou reuniões secretas com os EUA neste ano, buscando pôr fim às sanções impostas pelo governo Trump, Rodríguez Castro se reuniu separadamente com o diretor da CIA, John Ratcliffe, e com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. A CIA criou secretamente uma força-tarefa como parte da campanha americana para pressionar Cuba a promover mudanças políticas, econômicas e na liderança do país, informou o Times. Arturo Lopez-Levy, pesquisador da Universidade de Denver e primo de segundo grau de Rodríguez Castro, disse que grande parte das críticas feitas ao parente se baseia em vídeos de comportamentos desordeiros que circularam há mais de uma década. Ele disse não falar com o primo há cerca de sete ou oito anos, mas afirmou que a imagem pública de Rodríguez Castro parece ter mudado consideravelmente. — A relação com o avô mudou: ele deixou de ser um jovem bastante imaturo para se tornar alguém com conhecimento político e uma ligação com o avô, não apenas para proteger sua vida, mas também politicamente — observa Lopez-Levy, ex-analista do Ministério do Interior de Cuba. — Ele não ficou do lado de fora da porta; esteve dentro de todas as reuniões.