O primeiro encontro presencial entre Michelle e Flávio Bolsonaro (PL) desde a crise que marcou a montagem da campanha presidencial ocorreu nesta terça-feira em clima descrito por aliados como “leve” e amistoso. A ex-primeira-dama foi à sede jurídica da campanha, em Brasília, ficou a sós com o enteado, participou de gravações eleitorais e, ao lado dele, falou aos candidatos ao Senado também em nome de Jair Bolsonaro. Em uma oração com os postulantes, misturou referências religiosas e eleitorais, pediu a eleição de “homens e mulheres de bem” e projetou para janeiro a “festa da verdadeira democracia”. Michelle chegou por volta das 14h e permaneceu pouco mais de uma hora no local. Antes das gravações, ela e Flávio se reuniram reservadamente em uma sala para conversar sobre a campanha e os próximos passos da participação da ex-primeira-dama na corrida presidencial. Os dois também oraram juntos. Segundo pessoas que acompanharam a movimentação, Michelle estava simpática e à vontade. Na conversa reservada, Michelle também falou sobre Bolsonaro. Contou que o ex-presidente está bem e com saudades do filho e disse acreditar que Deus irá abençoar a jornada de Flávio na disputa pelo Planalto. O apoio recíproco, já acertado depois da reconciliação pública, foi reafirmado no encontro. Depois, os dois apareceram juntos diante dos candidatos. Ao lado de Flávio, Michelle se dirigiu ao grupo em nome dela e de Bolsonaro e falou sobre a força e a alegria que a mobilização dos aliados representa para o casal. A previsão acertada entre Michelle e Flávio é que os dois façam apenas dois ou três eventos juntos ao longo da campanha. A ex-primeira-dama pretende ajudar principalmente por meio das redes sociais e da estrutura feminina que construiu durante o período em que comandou o PL Mulher. Viagens e uma participação mais intensa nas ruas dependerão da rotina de cuidados com Bolsonaro. Ao deixar a sede, Michelle tratou publicamente da relação com o enteado e indicou que a recomposição será gradual. — Eu não guardo mágoa de ninguém. Meu coração é limpo, graças a Deus. (…) Acho que as coisas vão se ajustando aos poucos — afirmou. A própria ida ao encontro desta terça exigiu uma operação doméstica. Michelle organizou antes de sair a alimentação e a rotina de Bolsonaro e pediu que uma funcionária permanecesse por mais tempo na residência até que ela retornasse. Por isso, aliados já trabalham com a perspectiva de que sua presença física na campanha presidencial será mais pontual do que sua participação na propaganda. Um gesto durante o encontro chamou a atenção de aliados pelo simbolismo. Na hora da oração, Michelle pediu que Alcides Fernandes (PL-CE) conduzisse o momento. Pastor da Assembleia de Deus e candidato ao Senado pelo Ceará, Alcides acabou escolhido pelo PL no lugar de Priscila Costa, nome defendido pela própria ex-primeira-dama durante a crise que opôs Michelle a Flávio e à direção partidária. Michelle também tomou a palavra durante a oração. Em sua fala, adaptou uma passagem religiosa à disputa eleitoral e pediu que os postos de poder sejam ocupados por pessoas de “mãos limpas” e “corações puros”. — E eu peço, agora eu faço uma adaptação: quem estará no lugar de poder e de decisão? Aqueles que são, que têm mãos limpas, que têm corações puros, que não juram enganosamente e nem pregam só uma vaidade. O Brasil precisa de homens e mulheres de bem, para que verdadeiramente a gente possa cuidar daqueles que mais precisam. Porque nós somos canais, nós somos instrumentos de Deus aqui na Terra — afirmou. No meio da oração, a ex-primeira-dama fez uma referência direta ao calendário eleitoral. Citou o início oficial da campanha, no próximo domingo, e projetou a vitória dos candidatos reunidos na sede do PL em outubro. — Mas no dia 16 nós estaremos pedindo voto. No dia 4 de outubro, se Deus quiser, se o Senhor quiser, seremos eleitos. E em janeiro vamos fazer a festa da verdadeira democracia. Vamos libertar o Brasil para a glória do Teu nome. Michelle cortejada Se a passagem foi curta, o assédio político foi intenso. Michelle se tornou uma das figuras mais disputadas pelos candidatos reunidos na sede da campanha. Postulantes aproveitaram a presença da ex-primeira-dama para se aproximar e tentar garantir fotografias ao seu lado, com a intenção de aproveitar os registros nas redes sociais e em materiais eleitorais. A procura não começou nesta terça-feira. Nos últimos dias, candidatos aliados já vinham acionando a equipe de Michelle para pedir fotografias e autorização para incluí-la em santinhos. A reunião organizada por Flávio concentrou no mesmo endereço postulantes de diferentes regiões do país e transformou essa movimentação numa disputa presencial por imagens. Michelle também gravou com Flávio. O material deverá abastecer a propaganda do presidenciável e marca a tradução eleitoral da reconciliação entre os dois. Ela, por sua vez, terá o apoio do enteado na disputa por uma vaga no Senado pelo Distrito Federal. Os dois não se encontravam desde a crise aberta durante a montagem da candidatura presidencial. Flávio chegou a divulgar um vídeo pedindo desculpas a Michelle, que respondeu publicamente que o perdoava. A reconciliação, até esta terça-feira, havia ocorrido à distância. De candidatos a picanha O reencontro aconteceu em meio a uma operação montada pela campanha para produzir, num único dia, conteúdos com os candidatos ao Senado apoiados por Flávio. O presidenciável manteve a mesma roupa durante toda a maratona de gravações, enquanto os postulantes entravam e saíam para produzir peças adaptadas às respectivas disputas estaduais. Entre os presentes estavam Carlos Jordy e Carlos Portinho, do Rio; Evair de Melo, do Espírito Santo; Reinaldo Azambuja, de Mato Grosso do Sul; Guilherme Derrite, de São Paulo; Márcio Bittar, do Acre; Antonio Nicoletti, de Roraima; Éder Mauro, do Pará; Marcelo Queiroga, da Paraíba; Domingos Sávio, de Minas Gerais; e Deltan Dallagnol, do Paraná. A lista mostra que a articulação ultrapassa as fronteiras do PL. Derrite concorre pelo PP, enquanto Dallagnol está no Novo. Ao todo, Flávio anunciou apoio a 47 candidatos e quer transformar essas campanhas em braços de sua candidatura presidencial nos estados. Logo pela manhã, o próprio senador brincou com a dimensão da operação ao dizer que havia uma “fila gigante” à espera das gravações. O ambiente ganhou contornos de confraternização com o cardápio preparado para receber os aliados. Foram encomendados 100 litros de chope e servido churrasco com picanha. A carne chegou inclusive aos jornalistas que acompanhavam a movimentação da campanha. STF entra no roteiro Por trás do ambiente descontraído, houve também alinhamento político. A campanha aproveitou a concentração de candidatos para reforçar a orientação de que as disputas estaduais ao Senado incorporem críticas ao Supremo Tribunal Federal e apresentem a renovação da Casa como instrumento para aumentar a pressão sobre ministros da Corte. Durante o encontro, candidatos defenderam o impeachment de ministros do Supremo e Alexandre de Moraes foi citado nominalmente. Flávio afirmou que o assunto acabou se transformando em bandeira eleitoral. — A população está cobrando. Então, assim, isso virou uma pauta de campanha. Não queria que tivesse chegado a esse ponto, mas é uma realidade — disse. O cálculo passa pela renovação de dois terços do Senado. Das 81 cadeiras, 54 estarão em disputa neste ano. A campanha de Flávio aposta que a eleição poderá produzir uma Casa mais à direita a partir de 2027 e dar força parlamentar a pautas que hoje encontram resistência no Congresso.