O decreto reduziu de 17 para 11 o número de vacinas obrigatórias e reclassifica outras seis, que passam a valer apenas para grupos específicos ou por decisão médica caso a caso. Com isso, anticorpos monoclonais contra o vírus sincicial respiratório, hepatite A, hepatite B, meningococo e dengue passam a ser recomendados apenas para grupos considerados de alto risco. Essas são doenças consideradas graves e algumas delas letais na primeira infância. Já hepatite A, hepatite B, rotavírus, doença meningocócica, gripe e Covid-19 ficam sujeitos ao que o governo chama de "decisão clínica compartilhada" — ou seja, médico e família decidem caso a caso. 🔴 Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que os pontos levantados por Trump repetem argumentos antigos do discurso antivacina. Não há evidência que sustente a ligação com autismo, já descartada por órgãos regulatórios do mundo inteiro, nem o suposto risco de morte atribuído à tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola. A alegação chega em meio a um surto de sarampo nos Estados Unidos, que já soma mais de 2.400 casos confirmados. Para justificar as mudanças, Trump e o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., fizeram uma série de afirmações na cerimônia de assinatura, no Salão Oval. O g1 ouviu especialistas e explica ponto a ponto as fragilidades no discurso: Tríplice viral Sobre a MMR (vacina tríplice viral), que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, os Estados Unidos passaram a estabelecer como padrão ouro não mais a aplicação de uma dose que proteja contra as três doenças, mas doses únicas para cada uma delas. Para justificar, Trump disse: Juntas, poderia haver uma possibilidade de que sejam bastante letais e, separadamente, parece que não são letais de forma alguma, mas apenas muito eficazes. O secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., foi além e citou uma chance de "5%" de risco na versão combinada, sem apresentar estudo, instituição ou fonte para o número. E isso é fato? ➡️ Não existe evidência científica de que juntar antígenos na mesma vacina aumente o risco de morte ou de efeito adverso grave. Combinar vacinas é uma estratégia segura e ajuda a proteger contra mais doenças com menos injeções. Além disso, a tríplice viral é usada há décadas em todo o mundo, com segurança bem estabelecida. "Não existe evidência nenhuma que fazendo separado seja mais seguro, não existe nenhum tipo de argumento científico de dizer que a combinação de antígenos torna a vacina mais letal", afirma o infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Unesp. Vacinas isoladas contra sarampo, caxumba e rubéola, aliás, praticamente não são mais fabricadas — segundo a médica Monica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a versão combinada é padrão há quase 30 anos. O próprio decreto assinado por Trump reconhece essa lacuna: a divisão em doses individuais fica condicionada à disponibilidade futura desses produtos no mercado americano, algo que ainda não existe. “Esse discurso é uma estratégia para reduzir a imunização e descredibilizar um imunizante eficaz e que é usado no mundo todo de forma segura”, explica Levi. Hepatite B na infância Anteriormente, o calendário de vacinação dos EUA previa a primeira dose da vacina contra hepatite B logo após o nascimento. No entanto, o presidente americano argumentou que o imunizante deveria ser aplicado somente a partir da adolescência: A hepatite B não deveria ser aplicada até que eles tenham 14 ou 15 anos. Ela era aplicada cedo” — Donald Trump E isso é fato? A proteção conferida pela vacina ao nascimento é indicada justamente para impedir que recém-nascidos contraiam a doença. Por ser um vírus silencioso, muitas mães não sabem que foram infectadas e podem transmiti-lo ao bebê, tanto no parto quanto após o nascimento. Ainda que seja rastreável durante o pré-natal, a falha em diagnosticar mães portadoras do vírus faz com que exista o risco de transmissão para bebês. Por isso, especialistas apontam que a vacinação é tão importante no início de vida. “Isso é muito comum. Falha no diagnóstico do portador assintomático. Esse é o motivo pelo qual a indicação hoje é nessa fase da vida”, diz Levi. A especialista também explica que crianças infectadas evoluem rapidamente para um quadro grave da doença. “A hepatite B é uma doença que na criança pequena, na transmissão vertical da mãe para o bebê, é muito grave. Gera cirrose, hepatocarcinoma e morte precoce”. A transmissão também pode ocorrer por meio de relações sexuais e contato com sangue contaminado. Ainda que adolescentes estejam mais expostos a essas circunstâncias, a proteção conferida pelo imunizante dura décadas. Por isso, aplicação no nascimento garante a imunidade desde a infância, evitando tanto casos de transmissão de mãe para filho quanto infecções por outros meios. “Não existe risco zero para que uma criança seja exposta ao vírus da hepatite B através de diferentes mecanismos. Por exemplo, compartilhamento de objetos que possam conter sangue. Às vezes algumas famílias têm o hábito de compartilhar alicates de manicure”, explica Barbosa. Sobe para 23 o total de casos de sarampo no estado de SP; 7 novos casos são na capital Vacina x autismo Durante o anúncio da mudança sobre imunização, Trump associou vacinas ao aumento no número de crianças autistas. Décadas atrás, as crianças recebiam apenas uma pequena fração das vacinas exigidas hoje. Naquela época, as pessoas eram muito mais saudáveis. E, claro, as altas taxas de autismo observadas agora não existiam. — Donald Trump E isso é fato? A hipótese não é nova, e também não é apoiada por evidências científicas. Ela remonta a um estudo fraudulento de 1998 do médico britânico Andrew Wakefield, que associou a vacina tríplice viral ao autismo. A pesquisa foi posteriormente identificada como fraudulenta — os demais autores retiraram os nomes do trabalho, a revista que a publicou a retratou, e Wakefield perdeu a licença para exercer medicina. ➡️ Desde então, estudos em diferentes países, com milhões de crianças, não encontraram nenhuma relação causal entre vacinas e autismo. O aumento nos diagnósticos de autismo, no entanto, é real, mas tem explicação distinta da apresentada por Trump. Segundo dados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention, o órgão de controle de doenças dos Estados Unidos), a taxa saltou de 1 caso a cada 150 crianças observadas em 2000 para 1 a cada 36 em 2020. Para isso, há mais de uma hipótese: maior acesso da população aos serviços de diagnóstico;formação de profissionais capazes de detectar o transtorno;pais, professores e pediatras mais conscientes e informados para levantar as primeiras suspeitas;ampliação da compreensão do que é autismo;possíveis fatores ambientais que colaboram para a maior frequência de TEA. Para a médica pediatra Monica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o discurso de Trump reaproveita um argumento já desacreditado para justificar mudanças no calendário vacinal. "Quando ele pede para separar a tríplice, ele está focando justamente na questão do sarampo. É um movimento para atacar a imunização contra a doença, fazendo de novo falsas colocações sobre a relação com o transtorno autista", explica. E isso acontece enquanto o país vive um surto da doença com mais de dois mil casos registrados este ano. Atualmente, 44 dos 50 Estados do país foram afetados, a maior alta registrada nos últimos 35 anos. A doença voltou a ganhar força em meio a onda de desinformação desde o início da gestão Trump, que passou a associar a vacina ao TEA. Sobrecarga no sistema imune No discurso, Trump citou que as crianças americanas recebem muitas vacinas. Um assessor que estava na reunião associou a aplicação de várias vacinas a "lesões causadas por vacinas" e a problemas imunológicos e neurológicos. E isso é fato? Não existe evidência científica de que vacinas sobrecarreguem o sistema imunológico infantil. Desde as primeiras horas de vida, o corpo da criança já está em contato constante com bactérias e outros microrganismos do ambiente — um processo natural de colonização que começa antes mesmo de qualquer vacina ser aplicada. A exposição a antígenos do dia a dia, pela respiração e pela alimentação, é muito maior do que a presente nas vacinas, segundo a pediatra Monica Levi. "A sobrecarga chegou a ser avaliada em algum momento, mas pesquisas já descartaram isso. Uma criança, quando nasce, em poucas horas de exposição já está toda colonizada com bactérias. Esse argumento de sobrecarga não existe", explica. Hoje, com os avanços da ciência, as vacinas atuais, usam tecnologia mais avançada que as de décadas passadas, com quantidade de antígeno muito menor por dose. E o que isso tem a ver a ver com o Brasil? O discurso repetido por Trump não fica restrito aos Estados Unidos, segundo os especialistas ouvidos pelo g1. "O discurso antivacina do Brasil é tradução do que acontece nos Estados Unidos", diz a médica Monica. O país vive hoje um cenário que ilustra esse risco. São Paulo soma 23 casos confirmados de sarampo em 2026. Os primeiros são de pessoas que estiveram em viagem à Bolívia e à Guatemala, mas o quadro mudou: já há transmissão de pessoa para pessoa dentro do país, o que caracteriza um surto ativo, não mais só casos importados. 🔴 A única forma de conter o avanço da doença é aumentar a cobertura vacinal. Para bloquear a circulação do sarampo, é preciso que 95% da população esteja imunizada com as duas doses da vacina — hoje, segundo o Ministério da Saúde, a cobertura da segunda dose não chega a 80%. De forma geral, nenhuma cobertura vacinal do país atingiu a meta considerada ótima pelo ministério, mesmo com o Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferecendo cerca de 40 doses de vacina gratuitas, do nascimento aos 18 anos. As três maiores coberturas vacinais do país são de Hepatite B (92,05%), BCG (89,96%) e a primeira dose da Tríplice Viral (89,19%). Segundo padrões da OMS, para garantir a proteção contra o sarampo deve haver adesão de ao menos 95% do público-alvo para as duas doses, o que não ocorre atualmente no Brasil. A segunda dose da Tríplice Viral é a taxa de cobertura nacional mais baixa, com 73, 51%, seguida pelo primeiro reforço da DTP (74,29%) e da Varicela (catapora), com 75,06%. “Nossas coberturas estão voltando a subir bastante, mas ainda não atingiram a meta. No caso do Sarampo, a gente precisa de pelo menos 95% do público-alvo vacinado para a gente não ter essa doença sob controle. E nós não estamos com esses números”, afirma Levi. Segundo a SBIm, essa queda faz parte de um movimento que começou em 2016 e ganhou força durante a pandemia de covid-19. Entre as principais causas estão a perda de percepção de risco dessas doenças e a desinformação. Esses pais não conhecem mais essas doenças, os riscos, as sequelas, e aí em meio às ondas de desinformação passam a se questionar sobre esses falsos riscos das vacinas. Isso coloca as crianças à mercê de doenças graves e letais que a gente já nem via mais. — Monica Levi, médica pediatra e presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) A hepatite B, uma das doenças que deixaram de ser recomendadas a todas as crianças pelo novo decreto americano, ilustra esse risco: segundo Monica, até 90% das crianças infectadas ao nascer evoluem para quadros graves, como cirrose ou câncer de fígado — um cenário raro hoje justamente porque a imunização acontece logo nos primeiros dias de vida. O próprio sarampo, hoje em surto nos Estados Unidos, tem taxa de mortalidade infantil considerada alta quando a infecção ocorre no primeiro ano de vida. Para os especialistas, o temor é que a queda de cobertura vacinal — e o discurso que a alimenta — comece a produzir esse tipo de consequência também fora dos Estados Unidos. "Nós provavelmente vamos ver no futuro aumento dessas infecções nos Estados Unidos e reflexo nos outros países", diz o infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Unesp.