Segundo imprensa americana, presidente embarcou em avião presidencial à vista das câmeras, mas foi retirado por meio de um caminhão-contêiner içado do lado oposto, sem que pessoas a bordo da aeronave soubessem 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Donald Trump desembarca do Air Force One na Base Conjunta Andrews, em Maryland, em 9 de julho de 2026 — Foto: Doug Mills/The New York Times Jornalistas que acompanhavam Donald Trump na viagem de volta da Turquia ao Reino Unido foram usados involuntariamente como parte de uma operação para ocultar o paradeiro do presidente americano. Enquanto os repórteres embarcavam no antigo Air Force One em Ancara, acreditando que Trump estava a bordo, o presidente era retirado da aeronave por meio de um caminhão-contêiner de serviço de bordo e levado secretamente a um jato militar. O avião presidencial decolou com os jornalistas e parte da equipe da Casa Branca, que se transformaram em uma espécie de isca em meio a uma ameaça iraniana considerada crível pelas autoridades americanas. Queda em estoques de munição: Guerra no Irã expõe gargalos da máquina militar dos EUA e vulnerabilidade perante a ChinaAnálise: Com exigências sobre Ormuz, Irã pretende garantir que Trump não abandone guerra sem resolvê-laQuer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp A operação, revelada pelo Washington Post e detalhada pelo New York Times, ocorreu em 8 de julho, depois da cúpula da Otan realizada em Ancara. Segundo funcionários americanos familiarizados com o plano, Trump havia sido informado sobre uma ameaça do Irã contra ele ou contra a aeronave presidencial. A avaliação levou um pequeno grupo de autoridades a elaborar, em poucas horas, uma estratégia para retirar o presidente da Turquia sem revelar seu verdadeiro trajeto. A manobra colocou os próprios jornalistas que acompanhavam o presidente em uma situação inusitada: sem saber que Trump já havia deixado o avião, eles seguiram a bordo de uma aeronave que, aos olhos de observadores externos, parecia transportar o presidente americano. Alguns funcionários da Casa Branca também permaneceram no voo. A ameaça que motivou a operação não era, segundo as fontes, dirigida especificamente ao avião mais novo do governo americano, o luxuoso Boeing 747-8 doado pelo Catar, mas a Trump independentemente da aeronave em que ele estivesse. Entrada diante das câmeras Trump e outros funcionários do governo haviam informado publicamente que o presidente deixaria a Turquia a bordo de uma das versões mais antigas do Air Force One, um Boeing 747, o mesmo avião em que ele havia chegado ao país. A expectativa era que Trump deixasse Ancara e seguisse para o Reino Unido. Na chegada ao aeroporto, uma câmera posicionada previamente registrou Trump entrando no antigo avião presidencial pela porta esquerda, à vista dos jornalistas e de outras pessoas presentes na pista. Os repórteres que viajavam com ele correram para embarcar pela escada traseira e tiveram apenas um breve vislumbre do presidente. Tudo indicava que Trump faria a viagem normalmente naquela aeronave. Mas a cena havia sido montada. Depois que os jornalistas embarcaram, Trump foi retirado do avião pelo lado oposto. Segundo um funcionário americano com conhecimento da operação, ele entrou em um contêiner usado para transportar refeições e suprimentos de serviço de bordo, que havia sido içado próximo à aeronave. O compartimento foi então utilizado para levá-lo para fora da área em que estavam os repórteres e permitir sua transferência para outro avião. O presidente foi levado a um C-32A, versão militar do Boeing 757 usada pela Força Aérea americana para transportar autoridades de alto escalão. A aeronave deixou a Turquia separadamente, levando Trump em segredo para o Reino Unido. Os jornalistas, porém, continuaram no antigo Air Force One. De acordo com relatos da equipe de imprensa presente no avião, durante o voo, os repórteres receberam a orientação de manter fechadas as persianas das janelas da cabine destinada à imprensa. Eles não foram informados de que o presidente já havia deixado a aeronave. John Hudson, um dos repórteres do Washington Post, contou detalhes à CNN. — Membros da imprensa não faziam ideia de que o presidente não estava mais no avião em que eles viajavam; até mesmo alguns funcionários da Casa Branca não sabiam que o presidente havia simplesmente saído discretamente e não estava mais a bordo do Air Force One — disse o jornalista. — Se, Deus nos livre, algo acontecesse, esse tipo de situação é o que gera muitas teorias da conspiração. O Air Force One decolou de Ancara às 22h16, segundo os jornalistas, e pousou na base aérea de Mildenhall, no Reino Unido. Só então a operação começou a se revelar. Trump já havia chegado. Antes de os jornalistas perceberem o que havia acontecido, ele foi levado de carro do C-32A de volta ao antigo Air Force One. O presidente entrou novamente na aeronave por uma entrada diferente e, depois, desembarcou pela escada superior esquerda, como faria normalmente. Cerca de 40 minutos depois do pouso, caminhou pela pista até o avião mais novo, doado pelo Catar, observado pelos mesmos repórteres que acreditavam ter viajado com ele desde a Turquia. Trump e os jornalistas embarcaram então no novo avião para o voo de volta a Washington. Durante a viagem, repórteres perguntaram ao presidente por que haviam viajado no antigo Air Force One até o Reino Unido. Trump afirmou que queria que as tropas americanas estacionadas na base britânica vissem o novo avião. Questionado sobre a razão de as persianas da cabine de imprensa terem permanecido fechadas durante o voo da Turquia, o chefe de Estado disse não ter conhecimento de uma ameaça específica, mas afirmou estar sob constante ameaça do Irã. — Eu sou o número um na lista deles, antes de vocês — disse aos repórteres. — Mas, se eu for, vocês vão também. Certo? Segundo funcionários americanos, o plano foi elaborado depois que autoridades avaliaram como crível uma ameaça iraniana contra Trump ou contra a aeronave presidencial. Trump foi informado sobre o risco enquanto estava na Turquia. De acordo com um funcionário com conhecimento da operação, um pequeno grupo de autoridades participou da elaboração do plano, entre elas o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth. Também havia preocupações de segurança em relação ao jato de luxo doado pelo Catar, que havia sido incorporado recentemente ao aparato de transporte presidencial — versões mais antigas do Air Force One possuíam capacidades defensivas que não estavam presentes na nova aeronave. O New York Times havia publicado uma reportagem sobre essas deficiências de segurança antes da operação secreta. Foi nesse contexto que Trump decidiu utilizar o antigo avião para a saída da Turquia, segundo a versão apresentada publicamente à época. A repórteres, no entanto, Trump chegou a dizer que havia escolhido o avião antigo "por causa dos velhos tempos". A utilização dos jornalistas como parte involuntária da operação um dos aspectos mais incomuns do episódio. É raro que presidentes americanos façam viagens sem a presença dos repórteres que integram a equipe de imprensa designada para acompanhá-los. A tradição existe justamente para garantir que jornalistas independentes possam registrar os deslocamentos e as atividades do presidente. Em situações de extremo risco, porém, operações de dissimulação já foram utilizadas pelo governo americano. Donald Mihalek, ex-agente do Serviço Secreto que trabalhou nas equipes de proteção dos presidentes George W. Bush e Barack Obama, afirmou que a agência já empregou comboios e voos de despiste para transportar presidentes secretamente. — Sempre que o presidente está em um cenário onde existe potencial de perigo de combate, o Serviço Secreto emprega medidas de proteção, incluindo o uso de uma isca — disse Mihalek, acrescentando que a agência prioriza a segurança do presidente em detrimento da transparência com o público. — A agência não é de relações públicas, é o Serviço Secreto. A principal função deles é manter o presidente seguro. Operação foi mantida em segredo Inicialmente, a Casa Branca não reconheceu publicamente que Trump havia deixado a Turquia em uma aeronave diferente daquela em que os jornalistas acreditavam estar com ele. A operação só veio a público depois que o Washington Post identificou o avião que havia levado Trump da Turquia ao Reino Unido como um C-32A. A aeronave militar havia sido usada para transportar o presidente sem que seu deslocamento fosse conhecido publicamente. Na época, o diretor de comunicação da Casa Branca, Steven Cheung, chegou a dar uma pista sobre a possibilidade de uma operação de dissimulação. Depois que o New York Times publicou informações sobre as deficiências de segurança do avião doado pelo Catar, Cheung afirmou que o governo utilizava todas as ferramentas disponíveis para lidar com as ameaças contra Trump, incluindo "distração e desinformação". Posteriormente, a Casa Branca refez a declaração, retirando justamente o trecho que mencionava distração e desinformação. O caso também reacendeu o debate sobre a transparência da Casa Branca em relação à segurança presidencial e sobre até que ponto uma operação destinada a proteger o presidente pode deliberadamente ocultar informações de pessoas que viajam com ele. O episódio ganhou peso extra porque Trump já havia ficado irritado com vazamentos anteriores sobre as preocupações de segurança envolvendo o avião doado pelo Catar. Depois que o New York Times publicou as informações, o Departamento de Justiça chegou a emitir intimações para que os repórteres responsáveis pelas reportagens — e alguns de seus familiares — prestassem depoimentos a um grande júri. As intimações foram retiradas, depois que um juiz federal criticou o procedimento adotado pelos promotores.
'Fechem as janelas': Voo de Air Force One após saída secreta de Trump pôs em risco jornalistas e equipe presidencial
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