A despesa financeira do governo federal no primeiro semestre chegou a R$ 149 bilhões, equivalente a 1,09% do PIB e muito próximo do valor pago em todo o ano passado, quando totalizou R$ 161 bilhões. A elevação desse montante ajuda a pressionar a dívida pública, cujo crescimento tem preocupado especialistas e o mercado. Os dados foram calculados a pedido do GLOBO pelos economistas Matheus Rosa e Lívio Ribeiro, da consultoria BRCG. Dentro da despesa financeira estão operações como aportes em fundos garantidores, repasses para o BNDES e outros bancos em programas de crédito — incluindo o Minha Casa, Minha Vida e os emergenciais para o Rio Grande do Sul e de enfrentamento do tarifaço imposto pelos Estados Unidos —, além de uma série de outras rubricas que não podem ser classificadas como gastos primários, mas que, direta ou indiretamente, impactam a dívida pública. O gasto primário é o desembolso clássico do governo, como salários, aposentadorias, custeio da máquina e investimentos. É o valor considerado para o cumprimento do arcabouço fiscal. Já o financeiro envolve linhas de crédito e aportes em fundos. O indicador que considera as despesas financeiras é importante para avaliar as ações do governo fora do gasto primário, considerando os efeitos sobre a economia e a inflação. Gastos financeiros — Foto: Criação O Globo Os dados da BRCG mostram que, nos últimos anos, esse tipo de operação está em alta. Entre 2024 e 2025, a despesa financeira quase dobrou em proporção do PIB. E agora, em 2026, segue em aceleração. Com esse expediente, o governo atua sem violar as regras fiscais, dando suporte a uma parcela da economia sem atrapalhar o esforço de obtenção de resultado primário (receitas menos despesas, sem os juros) nem violar o limite de gastos. Mas seu uso crescente tem sido cada vez mais questionado pelos economistas, especialmente do setor financeiro, porque seria uma forma de aquecer a economia, na contramão do que seria o caso em um momento de política monetária apertada e da necessidade de cumprir metas de resultado primário para conter a alta da dívida. Gasto primário restrito Ainda que o governo tenha, na maioria dos casos, um direito a receber no futuro, parte significativa das operações, especialmente as lançadas este ano, tem taxas de juros abaixo das praticadas no mercado. E isso ajuda a reforçar a trajetória de elevação da dívida pública. Na conta da BRCG não estão incluídos os gastos com juros da dívida pública, que são os maiores itens no universo das despesas financeiras, mas que não estão sob controle do governo. O cálculo mira as medidas de estímulo que estão sendo adotadas nos últimos anos. Em valores orçados, o nível previsto para 2026 é o mais alto desde a pandemia. Essas despesas estão no Orçamento, mas a visibilidade sobre elas é substancialmente menor, e o governo não tem divulgado sistematicamente os números agregados de sua execução, diferentemente do que faz com os dados primários, periodicamente divulgados. Uma parte dessa despesa não tem efeito imediato na economia. Por exemplo: um empréstimo do Tesouro para o BNDES aparece como um gasto financeiro imediato, mas o reflexo na economia só se dará quando o desembolso do crédito para as empresas efetivamente ocorrer, o que leva tempo e ainda pode ser feito em tranches, aos poucos. Outro exemplo é o crédito para motoristas de aplicativos. O desembolso é de R$ 30 bilhões, mas o que deve chegar às pessoas é, em uma previsão otimista, cerca de um terço disso, por falta de demanda. Para Matheus Rosa, um dos autores do estudo e quem atualizou os dados, o acompanhamento da despesa financeira permite uma compreensão mais completa da política fiscal do governo. Na visão dele, o marco do início efetivo do arcabouço fiscal em 2024, com suas restrições à despesa primária, tem a ver com o aumento da despesa financeira: — Quando se observa os Orçamentos de 2020 a 2023, houve importantes exceções às regras fiscais, que permitiram aumento de despesas. Em 2024, no primeiro ano do novo arcabouço fiscal, observamos que as políticas de crédito facilitado do governo começaram a crescer, com destaque principalmente para esses dois últimos anos. Procurado, o Ministério da Fazenda disse que não comenta estudos, estimativas ou levantamentos produzidos por terceiros. Mas fez ponderações sobre como os dados devem ser avaliados considerando suas especificidades. Segundo a pasta, o fato de serem despesas financeiras não significa automaticamente que constituam um “impulso fiscal”. “Assim, o valor agregado, por si só, não permite concluir que tenha havido um impulso fiscal de R$ 149 bilhões, tampouco quantificar seu impacto sobre a atividade econômica ou a inflação”. O órgão acrescenta que quanto “a eventuais riscos fiscais, despesas financeiras são devidamente identificadas no Orçamento, que é construído e bimestralmente avaliado de forma a garantir o cumprimento das regras fiscais vigentes e a trajetória de consolidação fiscal prevista no arcabouço fiscal. Sob o novo arcabouço, o déficit primário está em trajetória decrescente, com queda de mais de 70% entre 2023 e 2025”. Manoel Pires, ex-secretário de Política Econômica da Fazenda e coordenador do Observatório de Política Fiscal do FGV Ibre, reforça que há diferenças entre o governo oferecer um incentivo e ele, de fato, se transformar em demanda: — É diferente do que acontece no gasto primário, em que você paga salário de funcionário público, benefício previdenciário, e as pessoas usam aquilo no mês inteiro, contam com o dinheiro para fazer suas compras, seus gastos, ao longo do mês inteiro. Efeito mais lento Pires lembra que alguns programas, como o Move para motoristas de aplicativos e taxistas, estão com “empoçamento” de recursos. Mesmo assim, ele considera que o aumento das despesas financeiras indica que os programas estão acelerando e gerando algum impulso na economia e, muito provavelmente, ao longo do segundo semestre devem ter impacto relevante: — O aumento do desembolso desse primeiro semestre em si parece ter a ver com o fato de se ter feito uma liberação muito grande no ano passado e não desembolsado tudo. O economista-chefe da Warren Rena e ex-secretário de Fazenda de São Paulo Felipe Salto reconhece que as medidas de crédito têm crescido nos últimos anos. Mas pondera que há diferenças entre os números divulgados quando as medidas são anunciadas e o que acaba ocorrendo de fato. — Tem as medidas que pegam e as que não pegam — afirma. — A meu ver, trata-se de risco a ser acompanhado, pelo efeito sobre a dívida pública, mas não é, para mim, neste momento, a maior preocupação na análise do desequilíbrio fiscal — disse, explicando que o principal desafio fiscal do país é conter a trajetória de alta das despesas primárias obrigatórias.